Trump não é um conservador, é um humanista, diz acadêmico americano que apoiou republicano

Ingrid Fagundez

Da BBC Brasil em São Paulo

  • Yuri Gripas/ AFP

    Para professor americano, Donald Trump terá uma gestão moderada

    Para professor americano, Donald Trump terá uma gestão moderada

O professor Frank Buckley faz parte de um pequeno grupo de 125 acadêmicos e escritores americanos que, durante as eleições deste ano, decidiram apoiar Donald Trump.

Enquanto a imprensa e os círculos universitários menosprezavam as chances do republicano de vencer a disputa e ironizavam suas declarações, Buckley já o encarava como a melhor opção para a Presidência.

Docente de direito na Universidade George Mason, no Estado da Virgínia, ele diz que o empresário é mais um humanista do que um conservador, preocupando-se mais com a qualidade de vida dos americanos do que com ideologias políticas.

"Seu republicanismo está preocupado em tentar tornar as coisas melhores para todas as pessoas do que apenas atender a princípios estéreis", afirmou.

Arquivo pessoal
O professor Frank Buckley faz parte do grupo de acadêmicos que apoiou Trump
Buckley é crítico ao establishment dos partidos Democrata e Republicano. Para ele, ambos são elitistas e esqueceram da maioria pobre do país, a mesma que engrossou a votação de Trump.

Autor de vários livros, inclusive um deles - The Way Back: Restoring the Promise of America ("O caminho de volta: Restaurando a Promessa da América" em tradução livre) citado em discurso de Donald Trump Jr. em julho, o professor vê no novo presidente a chance de ter uma América voltada para os americanos.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista à BBC Brasil.

BBC Brasil - O senhor estava entre os acadêmicos que declararam apoio a Trump durante a campanha. Por que o senhor defendeu o republicano?

Frank Buckley - Por que achei que os Estados Unidos estavam em declínio sob a Presidência democrata e, com Hillary Clinton, isso iria simplesmente continuar. Nos tornamos uma sociedade de classes. A idea da América é que esse é um país onde quem quer que você seja, você pode chegar à frente, mas esse sonho foi traído pela ascensão de uma sociedade classista.

As barreiras impostas à mobilidade não são estruturais, são legais. São barreiras que foram levantadas por sucessivos líderes democratas, um sistema de imigração maluco, um sistema de educação disfuncional, o declínio do Estado de direito, o crescimento da corrupção.

Essas não são coisas que necessariamente temos que aceitar. E os eleitores comuns dos Estados Unidos entenderam que as elites do país, tanto republicanas quanto democratas, se tornaram complacentes e confortáveis com o declínio e a corrupção. Elas não se tornaram suas vítimas, mas seus cúmplices.

BBC Brasil - Nesse cenário, a vitória dele foi uma surpresa para o senhor?

Frank Buckley - Foi. Todas as pesquisas nos diziam que a vitória de Clinton estava assegurada. Há alguns dias eu estava na CNN com convidados democratas e eles estavam entusiasmados. Eu disse que havia muitos apoiadores escondidos de Trump e, no fim, eu estava certo.

BBC Brasil - As pessoas estavam envergonhadas de dizer que votariam em Trump?

Frank Buckley - Envergonhadas é uma palavra muito forte. Elas estavam sujeitas a muita repressão. Toda a mídia disse que Trump era racista, sexista e, por isso, as pessoas estavam um pouco tímidas quando chegava o momento de anunciar em quem votariam.

Os simpatizantes de Trump usavam esse boné de beisebol vermelho que dizia "Make America Great Again". Alguém teria que ser bobo para andar pelas ruas principais da América com esse boné. Todo mundo estava nos dizendo, o establishment estava nos dizendo, que os simpatizantes de Trump eram pessoas muito más, estúpidas, e surgiram vídeos de pessoas apanhando. Digamos que seria imprudente para as pessoas anunciar seu apoio.

BBC Brasil - O senhor acha que o discurso de Hillary Clinton descrevendo metade dos simpatizantes de Trump como racistas ou sexistas (Hillary disse, alguns dias depois, ter se arrependido do comentário, proferido em um evento de arrecadaçõ de fundos) contribuiu para muitos americanos a verem como elitista?

Frank Buckley - Com certeza. Para entender os Estados Unidos, comece com o fato de que essa é uma forte sociedade de classes. O presidente Barack Obama falou dos republicanos como pessoas que reivindicavam suas armas e sua religião. Hillary Clinton os descreveu como uma "cesta de deploráveis" e depois disse que eles eram irremediáveis. Irremediável significa que não havia nem por que falar com eles.

Não é um boa tática descrever metade dos americanos como irremediáveis e deploráveis.

O ponto interessante aqui é que não foi apenas a elite democrata. A elite republicana agiu do mesmo jeito.

BBC Brasil - Em defesa de Trump, o senhor escreveu que ele poderia resgatar o que ainda continua vivo no conservadorismo. O que o senhor quis dizer com isso?

Frank Buckley - Bom, isso irá surpreendê-la, mas acredito que Trump não é (um conservador), mas um humanista. O establishment republicano é composto de uma ideologia de direita que considera a política como um tipo de geometria, que começa com alguns axiomas de direita, e depois passa para teoremas de direita. E, fazendo tudo isso, você mostra perfeita fidelidade aos princípios de direita.

Mas isso está acoplado a uma indiferença em relação às pessoas. A mensagem de Trump foi "não estou tão preocupado com a ideologia, estou mais preocupado em como as pessoas comuns estão se sentindo". Os eleitores amam isso.

Economicamente, Trump era muito mais como (o ex-presidente) Dwight Eisenhower, um republicano de 60 anos atrás. Um moderado, no que diz respeito à política econômica. Alguém à esquerda do partido em muitas questões.

A mídia de direita condenou Trump por isso. Alguém o entrevistou em março e perguntou "o que diz quando alguém fala que você não é, na verdade, um conservador". A resposta de Trump foi "o nome é Partido Republicano, não Partido Conservador". Então, seu republicanismo estaria preocupado em tentar tornar as coisas melhores para todas as pessoas do que apenas atender a princípios estéreis.

As ideologias não captam o cenário mais amplo, que é: pela primeira vez na história americana, os pais não acham que seus filhos vão progredir e nos tornamos um país muito corrupto. Um país que traiu as aspirações de americanos comuns. É um bom lugar se você está no topo dos 10%, mas o resto dos americanos sentem que foram deixados para trás.

BBC Brasil - Mas as políticas de Trump não dividiriam ainda mais o país, ao segregar os imigrantes, por exemplo?

Frank Buckley - Nós estamos trazendo jardineiros mexicanos para os muito ricos, mas para os americanos que perdem seus empregos para os imigrantes, dizemos que se virem. O nacionalismo de Trump é um sentimento que fala "e se os americanos contassem?", "e se tivéssemos políticas que dissessem que preferimos americanos aos não americanos?".

Você escuta "não importa a sua origem, a sua raça, você é um americano e nós cuidaremos de você". Quanto aos imigrantes que quisermos trazer para cá, podemos separá-los entre os que vão contribuir para a riqueza do país e pessoas que não o farão.

BBC Brasil - Durante sua trajetória, Trump disse coisas chocantes sobre as mulheres e sobre os imigrantes, a maioria delas desrespeitosa. Esses incidentes não influenciaram os eleitores?

Frank Buckley - O que eles revelaram foi uma pessoa que chegou à maturidade antes da idade do politicamente correto e que nunca se associou com pessoas que suavizam esses comportamentos.

Seus partidários disseram que "ele falou algumas coisas ruins e Hillary deixou pessoas para morrer em Benghazi (na embaixada americana na Líbia). Você tem uma bússola moral?"

BBC Brasil - A cobertura midiática foi muito crítica a respeito da campanha e da vitória de Trump. O que achou do posicionamento da imprensa? Ela influenciou de alguma forma o resultado?

Frank Buckley - Trump teve muita cobertura como uma estrela de reality show. Em programas de reality show, a pessoa mais chocante vence. Trump estava andando por aí dizendo coisas que eram...surpreendentes, para dizer o mínimo.

E isso se tornou um ponto positivo, não negativo. Coisas que normalmente são encaradas como "nossa, isso é terrível, é o fim da campanha para Trump", eram vistas pelos americanos normais como aquilo que você vê na televisão, como política real.

Ele não teve que gastar muito dinheiro em propagandas na TV, porque conseguiu tempo televisivo de graça ao ser Donald Trump.

BBC Brasil - Trump colocará as suas propostas, inclusive as mais criticadas, como o muro na fronteira com México, em prática? Ou foi retórica?

Frank Buckley - O único muro que conheço é a cerca ao redor da minha casa. Não sei se é viável construir um muro, conheço pessoas que moram no Texas e dizem que é possível. Eu não sei. Em termos de fortalecimento de fronteiras, acho que a maioria dos americanas acham que é uma boa coisa. Não acho que os muçulmanos nos Estados Unidos têm muito com o que se preocupar. Só os muçulmanos que querem imigrar para cá podem encontrar mais dificuldade.

BBC Brasil - Muitas pessoas temem que a política externa de Trump seja agressiva e gere mais conflitos externos. O que o senhor acha desse temor?

Frank Buckley - A política externa de Trump será consideravelmente menos agressiva do que a de George W. Bush. Será mais ou menos um retorno à tradicional política republicana: vamos cuidar dos Estados Unidos primeiro e não vamos para outros países procurando por monstros para destruir.

A ideia é que, quando formos atacados, nós iremos atacar de volta, mas fora disso não deve ser o nosso papel interferir nas relações de outro país.

BBC Brasil - Análises publicadas na imprensa americana sugerem que a imprensa e os eleitores viram coisas diferentes em Trump. Enquanto a imprensa não o levava a sério e encarava suas propostas literalmente, seus apoiadores faziam o contrário. O senhor concorda com essa comparação?

Frank Buckley - Havia muito foco em questões como o muro (proposto na fronteira com o México), porque, francamente, a imprensa tem uma agenda aqui. Eles pensaram que construir um muro era uma ideia tão estúpida que se passassem tempo suficiente falando sobre isso conseguiriam convencer as pessoas da idiotice de Trump.

Há um termo aqui chamado virtue-signaling. Virtue-signaling significa dizer "quero provar como sou uma pessoa profundamente moral, então vou falar sobre o quanto odeio Donald Trump". Tem a ver com narcisismo.

Há outro tipo de sinalização, de uma certa dureza, de um vigor, de uma habilidade de confrontar ideias. As pessoas olhavam para a performance de Trump no debate e diziam "esse cara é durão e é disso que precisamos". Os líderes de opinião pensaram "esse negócio do muro...as pessoas vão perceber que ele é louco", mas o que os americanos escutavam é "esse é um cara durão".

Ele fez discursos e seus apoiadores gritavam "construa o muro, construa o muro". Eles entenderam. Se Trump voltasse em seis meses e dissesse "olha, não podemos fazer exatamente do jeito que eu disse, mas faremos funcionar de um jeito ou de outro", as pessoas achariam que tudo bem.

O realmente importante é: ele levará esse nível de coragem para derrubar a rede de influência e corrupção que destruiu Washington, com seus lobbies, advogados e seus doadores de campanha?

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