Como uma entrevista à BBC ajudou a solucionar um mistério sobre soldado da 2ª Guerra

  • David Watson/Purple Hearts Reunited

    Soldado Kownacki morreu em combate em janeiro de 1943

    Soldado Kownacki morreu em combate em janeiro de 1943

O americano Zachary Fike dirige uma ONG, a Purple Hearts Reunited, dedicada a retornar medalhas de honra militares perdidas e roubadas aos seus donos originais e costuma receber pelo correio muitos desses itens e documentos que o ajudam em suas buscas. Há algumas semanas, ele recebeu uma remessa fora do comum.

"Nunca recebemos nada da Nova Zelândia, então, isso chamou minha atenção. Havia no pacote três cartas escritas durante a 2ª Guerra Mundial e uma plaqueta militar de identificação", diz Fike.

O remetente, David Watson, havia conhecido o trabalho de Fike por meio de sua entrevista ao programa de rádio BBC

A plaqueta pertencia ao soldado americano Stanley Kownacki, desaparecido enquanto lutava na região do Pacífico em janeiro de 1943, durante a Segunda Guerra. Sua família recebeu um telegrama informando de seu desaparecimento, informando que ele provavelmente estaria morto, nada além disso.

David Watson/Purple Hearts Reunited
Por 73 anos, a família Kownacki tentou resgatar a plaqueta de identificação de Stanley, morto na 2ª Guerra
As cartas haviam sido escritas pela mãe e irmãs de Kownacki para o ex-soldado neozelandês Leslie Todd, que havia achado a plaqueta do soldado americano em Guadacanal, uma pequena ilha próxima da Austrália onde 7 mil soldados aliados foram mortos em seis meses de combate.

Todd havia escrito para a família para contar sobre sua descoberta. A mãe de Kownacki, Sylvia, escreveu de volta agredecendo pelo gesto e pedindo que a plaqueta fosse enviada para ela, mas nunca recebeu uma resposta.

A irmã mais nova de Kownacki, Thereza, voltou a tentar, ansiosa por qualquer informação sobre o paradeiro do soldado americano: "Você se conheceram e, se sim, como estava ele? Parecia bem? Estiveram juntos por muito tempo?"

Na verdade, os dois nunca haviam se encontrado. Kownacki foi morto em 15 de janeiro de 1943, e Todd chegou à ilha em agosto. Os japoneses já haviam batido em retirada nesta época, e Todd costumava sair em busca de relíquias nas trincheiras abandonadas.

Foi assim que ele achou a plaqueta de Kownacki e outros itens. Ele enviou quase tudo para o Exército americano. Mas, por alguma razão, decidiu ficar com a plaqueta. Por dois anos, a família do soldado americano escreveu para Todd.

"Estou apreensiva por não saber nada sobre Stan", disse Sylvia em 1944. "Os meninos que voltam para casa contam todo tipo de história, e nenhuma é igual à outra, então, de alguma forma, ainda tenho esperança de que ele esteja vivo."

David Watson/Purple Hearts Reunited
Por dois anos, a mãe e irmãs de Kownacki escreveram para ex-soldado neozelandês, sem resposta
Não era incomum que famílias ficassem anos sem saber o que havia acontecido com seus entes queridos. Os pais de Kownacki acabaram se agarrando à ideia de que ele poderia não ter morrido, como contou Thereza em uma carta de maio de 1946.

"Quase todos os dias, eles leem as cartas dele e esperam que volte um dia. Ao ler sua carta, eles ficam sem saber o que esperar. Sua maior esperança é segurar nas mãos a plaqueta, pois seria como segurar as mãos de Stanley", escreveu a irmã mais nova de Kownacki.

"Pode parecer tolice minha, mas me pergunto às vezes se você não é o Stanley escrevendo para nós com um nome diferente. Gostaria que fosse verdade."

Por um motivo inexplicado, Todd não respondeu às cartas nem enviou a plaqueta. Ficou com ela até sua morte, em 2004. "Eram cartas muito carregadas de emoção. Lê-las partiu meu coração. Nunca vamos entender por que ele não a mandou", diz Finke.

Não se sabe muito sobre Todd, apenas que era um colecionador e acumulador de vários objetos.

Após sua morte, grande parte dos objetos que possuía foram leiloados.

A plaqueta e as cartas, entretanto, foram parar nas mãos de Watson, que por 12 anos, tentou achar os Kownacki, sem sucesso - até entrar em contato com Fike.

O próprio Fike, de 35 anos, é um ex-militar condecorado com uma Coração Púrpura, medalha de honra conferida a militares que se feriram ou morreram em combate. Em 2009, sua mãe comprou uma medalha assim em uma loja de antiguidades e a deu a ele como presente de Natal.

"Quando a vi, sabia que não devia ficar comigo. É um símbolo de que alguém deu seu sangue por uma causa, por um país. Deveria ficar com a família dessa pessoa ou em um local de honra."

Mas ele foi enviado para lutar no Afeganistão antes de conseguir fazer isso. Dois anos depois, já de volta, conseguiu devolver a medalha para a família do soldado.

Essa ação acabou chegando ao noticiário, e Fike passou a receber pedidos de ajuda vindo de todo os Estados Unidos de pessoas que também haviam achado medalhas. Por causa do volume de trabalho que isso daria, Fike decidiu criar a Purple Hearts Reunited.

Hoje, recebe em média de três a cinco medalhas por semana. Já devolveu mais de 300 com a ajuda de um exército de voluntários que auxiliam no resgate, pesquisa e devolução de medalhas. Do caso de Watson, ele cuidou pessoalmente.

"Juntei as pistas sobre a história de Kownacki e o paradeiro de sua família. Sua irmã mais nova ainda estava viva, e consegui entrar em contato com ela."

Hoje, Thereza tem mais de 90 anos. Ela ficou em choque e não quis encontrar-se com Fike e reviver memórias dolorosas. Por isso, ele enviou a medalha pelo correio.

"É uma relíquia que será passada de geração em geração. Um primo entrou em contato para me agradecer. Espero que isso tenha trazido paz para ela", diz Fike.

"É sempre bom receber esse tipo de retorno. É o único tipo de reconhecimento que desejamos."

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