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Os cartéis de drogas mexicanos que funcionam como multinacionais

Peritos investigam o local onde 17 corpos foram encontrados em 2012 numa estrada do Estado de Jalisco, no México - Ulises Ruiz Basurto/Efe
Peritos investigam o local onde 17 corpos foram encontrados em 2012 numa estrada do Estado de Jalisco, no México Imagem: Ulises Ruiz Basurto/Efe

Alberto Nájar

26/02/2017 10h09

Engana-se quem pensa que os cartéis de drogas mexicanos são grupos homogêneos, nos quais seus integrantes obedecem às ordens de um grande chefe, operando todos de uma mesma maneira.

A realidade é outra.

A estrutura da maioria das organizações é muito semelhante à da operação de grandes consórcios financeiros, segundo especialistas.

Alguns cartéis produzem e exportam suas próprias drogas. Outros são basicamente intermediários e, em alguns casos, sua renda principal não depende do tráfico de drogas.

Há organizações como o Los Zetas e o Cartel do Golfo que são, na verdade, a união de dezenas e, às vezes, centenas de pequenos grupos.

Cada um opera como se fosse uma franquia de uma marca registrada e pode, até mesmo em algum momento, trabalhar para outro cartel.

A Família Michoacana, quando existia, costumava cobrar um aluguel para o uso de seu nome. Aqueles que não pagavam e o usavam sem permissão foram mortos.

Divisão de tarefas

Mas, em geral, quase todos eles usam a mesma estrutura, com três áreas de atuação:

Uma responsável por comprar, produzir, armazenar e cuidar dos bens, que podem ser maconha, cocaína e drogas sintéticas.

Outra incumbida pelas relações jurídicas e políticas - esta divisão dedica-se à defesa dos membros do cartel em tribunais e também se encarrega de comprar a cooperação de policiais e autoridades locais, na maioria dos casos.

Já a terceira é financeira, responsável por reinvestir lucros e lavar dinheiro, além de fazer o pagamento de funcionários.

No entanto, apesar das semelhanças nos principais cartéis no México, há diferenças significativas em sua operação, ressaltam especialistas e autoridades.

No final, todos estão envolvidos em um negócio que, de acordo com a Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA, na sigla em inglês), gera um lucro de US$ 30 bilhões (R$ 93 bilhões) por ano.

Sinaloa, o mais experiente

O Cartel de Sinaloa, também conhecido como do Pacífico, é a organização de narcotráfico mais antiga do México.

Ele nasceu na região montanhosa entre os Estados de Sinaloa, Durango e Chihuahua, conhecida como Triângulo Dourado.

É uma das regiões com maior produção de papoula e maconha no país, cultivadas, muitas vezes, por agricultores com grau de parentesco entre si.

Trata-se de uma das características da organização: a maioria de seus membros tem parentes ou vizinhos da mesma região.

Neste sentido, compartilham o mesmo código de ética e valores, o que explica sua maior coesão ante seus rivais, diz à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, Alberto Islas, da consultoria Risk-Evaluation.

"Eles estão integrados verticalmente e não compram matéria-prima porque controlam a terra onde ela é cultivada. Muitas pessoas dependem deles", ressalta ele.

O Cartel de Sinaloa é um consórcio que produz drogas em grande escala para exportação, como maconha, heroína e anfetaminas.

Mas também importa cocaína e drogas sintéticas destinadas principalmente ao mercado americano.

Funcionários americanos

O cartel tem pessoas destinadas a cada uma das fases do tráfico de drogas.

No caso da maconha, por exemplo, há pessoas responsáveis pela colheita e depois pelo transporte a locais onde ela é armazenada e empacotada.

Outro grupo fica encarregado de transportá-la para o norte, onde ela é entregue aos responsáveis ??por atravessar a mercadoria pela fronteira entre México e Estados Unidos.

Dali, a maconha é entregue a outras pessoas, geralmente americanos. Estes ficam incumbidos de transportá-la a cidades onde ela é vendida no varejo, conforme documentado pelo jornalista Jesús Esquivel, autor do livro Los Narcos Gringos (Os Narcotraficantes Gringos, em tradução livre).

Eles operam em cidades como Atlanta, Chicago ou Los Angeles. Em cada uma delas, há uma espécie de supervisor, responsável por recolher os lucros e enviá-los de volta para o México.

Essa outra equipe, também americana, leva o dinheiro para a fronteira com o México. De lá, a área financeira do cartel decide seu destino.

Uma parte, explica Islas, é reinvestida na produção de drogas. Outra é usada para pagar os salários dos funcionários. Um terceiro montante é lavado em empresas, como hotéis ou restaurantes.

Uma área importante da estrutura dos cartéis de droga mexicanos fica responsável pelo planejamento do negócio.

São pessoas que procuram novos mercados nos Estados Unidos, cotam o preço das drogas na América do Sul ou planejam o caminho mais seguro para atravessar a mercadoria na fronteira.

E, ao contrário de outras organizações de tráfico de drogas, no Cartel do Pacífico, vários grupos respondem a diferentes lideranças.

Joaquín "El Chapo" Guzmán, por exemplo, tinha um dos grupos mais importantes, que foi herdado por seus filhos Ivan e Alfredo Guzmán Salazar.

"Meritocracia"

O modelo corporativo do cartel Los Zetas é diferente porque, ao contrário do de Sinaloa, não produz sua própria droga.

A mercadoria que traficam geralmente é importada.

Eles são essencialmente intermediários, embora nos últimos anos a droga não seja sua principal fonte de renda.

O Los Zetas se financia pela extorsão, sequestro, roubo de combustível e pirataria, de acordo com autoridades mexicanas.

Outra diferença é que, neste cartel, as promoções são concedidas pelos resultados, e não por relações familiares.

"É a meritocracia. Os chefes dizem que determinado lugar deve pagar muito dinheiro, e o gerente é responsável por fazer mais sequestros ou extorsões", explica Islands.

O grupo, formado por ex-militares de elite, foi um dos mais violentos e perigosos do México e da América Central.

Mas a morte ou a captura de seus fundadores e líderes afetou suas operações, que se limitam hoje a uma determinada região de Tamaulipas e Tabasco, no sudeste do país.

Atualmente, é formado por centenas de ex-policiais ou ex-funcionários de empresas de segurança.

O cartel do século 21

A DEA considera o cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) como o território que mais cresce e gera lucro do México. E uma das razões é o seu modo de operação.

O grupo é composto por duas famílias que anteriormente trabalharam para os cartéis de Sinaloa e do Millennium ou Valencia (já extinto).

O CJNG é dedicado principalmente ao tráfico de drogas químicas, as quais importa de outros países, como China, Argentina ou Chile.

A mercadoria entra no México disfarçada de medicamentos.

A partir daí, tem sua composição alterada, com a adição de outros compostos químicos, é embalada e vendida no país e nos Estados Unidos.

"O manejo da mercadoria é muito rápido. Dá um grande fluxo de caixa", diz Islas, da Risk-Evaluation.

Essa velocidade e versatilidade também tornam mais difícil para as autoridades localizarem seus centros de operação, reduzindo as perdas por apreensões.

Outro elemento crucial é o tamanho do grupo. Sendo relativamente pequeno, o CNJG toma decisões rapidamente, e maioria de seus lucros é lavada fora do México.

E isso só é possível pelo perfil de seus integrantes: além de atiradores, recruta jovens especialistas em finanças ou estratégia empresarial. Muitos têm visto americano e relações pessoais com a Europa.

Trata-se de um cartel diferente de seus rivais - os narcotraficantes da velha guarda.

O CJGN é uma organização "do século 21", dizem os especialistas.