Saída do Reino Unido pode causar efeito dominó na UE?

  • Frederick Florin/AFP

Em menos de um mês, a França realizará o primeiro turno de sua eleição presidencial. De acordo com a mais recente pesquisa, publicada na quarta-feira, a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, encabeça as intenções de voto, com 25,2%.

Ainda que muitos analistas digam que a controversa líder de extrema-direita não tem lastro suficiente para vencer um segundo turno, o fato é que Le Pen comanda uma legenda que tem como principais plataformas o controle da imigração e a intenção de questionar formalmente, através de um plebiscito, a presença francesa da União Europeia (UE).

O discurso de Le Pen mostra que o Reino Unido não é o caso isolado no que diz respeito a um euroceticismo mais robusto. Apesar do choque provocado pelo Brexit, a insatisfação com o bloco político econômico de 28 nações não é exclusividade de uma maioria de britânicos.

Na recente eleição parlamentar na Holanda, houve um suspiro de alívio quando o PVV, partido eurocético comandado pelo polêmico Geert Wilders, um homem sem papas na língua para expressar sua oposição à imigração e à presença holandesa na UE, ficou "apenas" em segundo lugar na contagem de votos - apesar de a legenda aumentar seu percentual de eleitores e número de assentos no Legislativo.

Tanto França como Holanda tinham registrado vitórias do não em plebiscitos sobre o Tratado de Lisboa, a Constituição europeia.

Não por acaso, a formalização da decisão de Londres de deixar o bloco traz à tona considerações sobre o futuro do projeto da UE. Tanto pelo fato de ser a primeira vez que uma nação "pede para sair", quanto pelo calibre da retirada - o Reino Unido tem um oitavo da população da UE, um sexto de seu PIB e metade das armas nucleares.

"A União Europeia nunca esteve tão sob ameaça e não devemos subestimar o significado da saída do Reino Unido, cujo impacto nós ainda não temos como entender ou medir", disse recentemente, em um pronunciamento no Parlamento Europeu, o ex-deputado e ex-líder da casa Martin Schulz, candidato ao governo alemão nas eleições de setembro.

"Temos candidatos abertamente falando em retirada da UE", completou ele, em uma alusão direta a Le Pen.

Sentimentos negativos em relação ao bloco não são novidade. Em meados dos anos 80, quanto teve início o programa de integração legal e econômica que culminou em 1992 com o Tratado de Maastricht, ansiedades em relação à transferência de poderes para Bruxelas tinham surgido sob a forma de protestos contra "danos à democracia". Algo expressado formalmente quando os eleitores dinamarqueses rejeitaram Maastricht em um plebiscito, temendo que as nações mais poderosas econômica e politicamente fossem subjugar os interesses nacionais do país.

Uma forma de combater essa insegurança foi fortalecer as credenciais democráticas de instituições da UE, em especial o Parlamento Europeu, que existe desde 1979. No entanto, as mais recentes eleições para a câmara continental têm sido marcadas pelo baixo comparecimento dos eleitores - em 2014, por exemplo, ele foi de apenas 43% - e pela ascensão de partidos eurocéticos, como o Ukip, do Reino Unido, criado especificamente nos anos 90 para defender a secessão britânica de Bruxelas.

"Não estamos falando aqui de algum tipo de desintegração repentina, mas sim do risco real de uma erosão da coesão entre as nações. Daí a importância de se chegar a um consenso sobre reformas e ações em áreas prioritárias como segurança e imigração. Mas perder o Reino Unido não é um golpe mortal para a UE, é, sim, um momento muito triste", avalia Stefan Lehne, do centro de estudos Carnegie Europe.

Thomas Wright, do centro Brookings, classifica como "mito" a possibilidade de um "Brexit contagioso". Seu argumento começa com o fato de que a atual configuração da UE, em que 19 dos 28 Estados adotaram a moeda única, o euro, torna a missão bem mais difícil justamente para nações com rebeldia "latente", como França e Holanda.

"Economistas já mostraram que, se um país da Zona do Euro decidisse sair, isso criaria a mãe de todos os colapsos bancários. O Reino Unido, como sabemos, não faz parte deste grupo", afirma.

"É como se a união monetária funcionasse com uma espécie de escudo. Para o bem ou para o mal".

Wright aponta para o fato de que mesmo países que elegeram governos eurocéticos resistem em buscar secessões. Um exemplo é a Polônia, ainda que a contradição ideológica esteja ligada ao fato de que mais de 2 milhões de poloneses vivem em outros países da UE e suas remessas de dinheiro para o país de origem sejam um importante fator econômico.

Apesar de considerar o Brexit como um teste de viabilidade da UE como modelo de integração internacional, Thomas Raines, pesquisador do Royal Institute of International Affair, diz que a secessão britânica criou uma certa onda de simpatia ao projeto europeu em alguns dos principais países do bloco - incluindo França, Alemanha e Itália, as maiores economias sem o Reino Unido. Isso com base em uma pesquisa feita pelo grupo de estudos.

"Percebemos que, em termos gerais, o público europeu apoia a premissa de que seus países devem ter um bom relacionamento com o Reino Unido, mas que a UE não deve comprometer seus princípios para isso. Ou seja, os eleitores mostram que aceitam uma linha pragmática de negociação. Ao mesmo tempo, 56% dos entrevistados acham que a saída do Reino Unido enfraqueceu a União Europeia".

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