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O que diz a abstenção sobre o resultado da eleição presidencial na Venezuela

Nicolás Maduro discursa após o CNE (Conselho Nacional Eleitoral) da Venezuela declarar sua vitória nas eleições presidenciais - AFP PHOTO / Juan BARRETO
Nicolás Maduro discursa após o CNE (Conselho Nacional Eleitoral) da Venezuela declarar sua vitória nas eleições presidenciais Imagem: AFP PHOTO / Juan BARRETO

Daniel García Marco

Correspondente da BBC Mundo na Venezuela

21/05/2018 09h08

O desencanto com a grave crise que assola a Venezuela se refletiu no domingo, 20, nas eleições presidenciais do país, que levaram à reeleição de Nicolás Maduro com 68% dos votos, contra 21% para o opositor Henri Falcón.

Em um pleito com baixa participação de eleitores, a abstenção foi a grande vencedora, atingindo um índice de 54% - de um total de 20,5 milhões de pessoas registradas para votar. Na eleição presidencial de 2013, a participação nas urnas foi de 80%. O voto não é obrigatório no país.

Nas ruas de Caracas e Maracaibo, as duas principais cidades do país, a atmosfera de eleição presidencial mal era sentida.

"Em outras ocasiões havia enormes filas para votar", disse Nancy González enquanto esperava marcar seu voto no popular bairro de Petare, no leste de Caracas.

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A participação de 46% de eleitores nesse pleito seria considerada alta em alguns países da região, mas é muito baixa na Venezuela, onde sempre houve boa participação e interesse na eleição presidencial - de vitória simples, sem segundo turno, ganha quem levar mais votos.

A participação média nas últimas três eleições presidenciais (2006, 2012 e 2013) foi superior a 79%, segundo dados de Eugenio Martínez, jornalista especialista em processos eleitorais.

Oposição celebra

Maduro se gabou de ter alcançado 68% dos votos. Mas ele não mencionou que esse dado representa 29% do eleitorado. Sem dúvida, foi o mais votado, mas os números são equivalentes os do pior resultado em 20 anos de seu antecessor, Hugo Chávez.

A baixa participação de eleitores é uma vitória para a parte da oposição que preferiu não participar do pleito por considerar que as condições para um processo justo e transparente não foram cumpridas.

"A oposição institucional pode alegar que obteve sucesso porque isso deslegitima a eleição", disse o analista e pesquisador de opinião Luis Vicente León à BBC Mundo.

"A farsa foi derrotada pela ausência do povo", disse Juan Pablo Guanipa, representante da Frente Ampla Venezuela Livre, que fez campanha pela abstenção e celebrou o que descreveu como "desobediência em massa".

Segundo a Frente Ampla, a participação não chegou a 30%.

Agora, resta saber se a oposição, desunida nos últimos meses, usará esses números para traçar uma estratégia que enfraqueça o governo ou o force a fazer mudanças.

Na tarde de domingo, o chavismo já celebrava o triunfo de Maduro, mas mostrava preocupação com o baixo índice de participação.

A baixa participação indica que não apenas os adversários, mas também os partidários de Maduro se abstiveram.

A escola secundária no bairro de 23 de Janeiro, onde Hugo Chávez votava, parecia vazia em comparação com as eleições mais recentes - as regionais de 2017, que elegeram a Assembleia Nacional Constituinte.

O resultado foi um duro golpe na intenção expressa por Maduro durante a campanha de atingir dez milhões de votos, um número que o carismático Chávez não conseguiu alcançar - nem em momentos de boom econômico.

Nem mesmo o prêmio prometido aos eleitores por meio do controverso "carnê da pátria", o documento que garante aos venezuelanos acesso aos programais sociais, animou a participação. Maduro não explicou como, mas prometeu que esses eleitores teriam alguma recompensa financeira ao comparecerem para votar.

Essa tática foi uma das razões apresentadas pelo candidato Henri Falcón para não reconhecer o processo eleitoral e pedir novas eleições.

Dessa maneira, Falcón se alinha novamente à oposição que exigia o boicote.

"A abstenção é, sem dúvida, uma vencedora dentro da oposição", disse Luis Vicente León.

As causas da baixa participação são complexas, mas com certeza a grave crise econômica do país - uma das piores de sua história - é uma delas.

Outra razão é que muitos venezuelanos deixaram o país devido à crise. Outra é que muitos dos opositores seguiram as ordens de seus líderes que pediram para não fossem às urnas.

Outras pessoas, como um eleitor ouvido pela BBC, não encontraram nenhuma opção atraente contra Maduro na cédula eleitoral. "A verdade é que eu não gosto de nenhum", disse ele sobre os candidatos.

"Eu não acredito em eleições, não vou votar e não há eleições justas", resumiu Juvenal Zambrano de manhã, enquanto tomava um refrigerante em uma rua vazia.

Pressão internacional

Boa parte da comunidade internacional disse não respaldar a eleição de Maduro. A União Europeia, os Estados Unidos, o Canadá e vários países latino-americanos afirmam que a eleição não foi transparente.

No domingo, Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA, criticou novamente o processo eleitoral.

"Eleições fraudulentas não mudam nada, precisamos que o povo venezuelano assuma o país ... Um país com tanto a oferecer ao mundo", escreveu ele no Twitter.

A abstenção, de certa forma, legitima as impressões da comunidade internacional.

"Maduro não consegue legitimar-se nem perante a comunidade internacional nem perante a oposição", analisou León. Para ele, o resultado do pleito é decepcionante para o chavismo.

"Nunca antes o chavismo teve uma porcentagem tão baixa do total de votos. A abstenção seria, portanto, a vencedora. Ela não tem impacto legal, mas sim sobre a legitimidade", acrescentou.

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