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Surfe une moradores do Rio em área marcada pela desigualdade

Ana Terra Athayde*

11/06/2019 12h06

Nascido e criado na Rocinha, Marcello Farias frequenta a praia de São Conrado, localizada na Zona Sul do Rio de Janeiro a uma curta distância da favela, quase que diariamente. Apaixonado por bodyboard, ele publica fotos e vídeos das condições do mar nas redes sociais, para orientar demais surfistas da região. Ainda que imprópria para banho em boa parte do ano, a praia atrai atletas profissionais e amadores da favela e do bairro de mesmo nome pelas boas ondas.

Os dois quilômetros de extensão da praia de São Conrado são compartilhados por moradores de realidades contrastantes. Segundo dados fornecidos pelo Instituto Pereira Passos com base no Censo Demográfico de 2010, do IBGE, a renda domiciliar per capita média em São Conrado (R$ 5.606) é 11,8 vezes maior que na Rocinha (R$ 474). Mas essa disparidade se torna fluida no mar.

Patrick Azevedo, que vive em um condomínio de São Conrado, é um dos que costumam checar os posts de Farias antes de tirar a prancha de casa.

"O surfe te dá humildade porque você está numa situação de vida e morte e só tem as pessoas ao seu redor e Deus," diz Azevedo. "Não tem profissão, conta bancária, status social. Não existe isso ali dentro."

O produtor de eventos de 29 anos começou a surfar aos 14. Ele passava férias com a família da mãe em Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio, e começou a se aventurar nas águas encorajado por uma das irmãs mais velhas, que pegava onda com um namorado. Foi ela quem o levou à tradicional galeria River, especializada em materiais de surfe no Rio, e o presenteou com sua primeira prancha.

Farias, de 44 anos, também se encantou cedo com o mar. Aos 10 anos, ele trabalhava como boleiro de quadra de tênis no antigo Hotel Intercontinental, de frente para a praia, e gostava de ir ver os surfistas no mar antes de voltar para casa. Aos poucos, começou a pegar onda com amigos da Rocinha, usando pranchas de isopor e pedaços de pranchas quebradas.

"A minha infância foi muito difícil. Na Rocinha sempre faltou água, saneamento, dinheiro", conta. "Às vezes, não tinha nada para comer. Eu comia macumba na praia, um coco do lixo."

Com a ajuda do pai e o dinheiro que recebia no hotel, Farias comprou sua primeira prancha de bodyboard. Ele agora trabalha como barman em um restaurante no Jardim Botânico, bairro nobre do Rio, e em eventos particulares.

"Eu vejo muita desigualdade, pessoas com muito dinheiro comendo muito bem, e outras sem nada para comer," comenta. "É confuso para mim trabalhar em casas tão lindas, com elevador que levam até dentro de casa, e chegar no beco em que moro, por onde não passa nem uma geladeira."

Apesar do custo relativamente alto dos equipamentos, o surfe se tornou mais acessível graças à popularização do esporte e à maior disponibilidade de pranchas e demais itens de segunda mão. Iniciativas de projetos sociais, empresas e atletas profissionais beneficiaram jovens de baixa renda e fortaleceram os vínculos entre os frequentadores da praia.

"Quem ama surfar tem noção do quão doloroso seria você acordar com um baita sol, sabendo que o mar está lindo, tomar o seu café da manhã e estar indo para a porta de casa quando começa um tiroteio e você não pode sair," diz Azevedo sobre as experiências vividas por seus amigos da Rocinha. "É duro, e o surfe te traz essa noção de que isso acontece com o garoto que está ali surfando com você todo dia."

Pela proximidade de onde vive e pelos preços mais em conta do comércio na comunidade, Azevedo sempre teve costume de ir à Rocinha para comer, principalmente tarde da noite - período em que a oferta de serviços em São Conrado se torna menor. Ele também passou a ir encontrar os amigos do surfe e levar pranchas para conserto na comunidade. Até que um dia, em 2017, Azevedo se viu no meio de um tiroteio ao subir a favela de carro para buscar equipamentos de som para um campeonato que estava organizando. Depois disso, as idas à Rocinha ficaram mais escassas.

"Eu tenho a opção de não ir lá, se eu acho violento ou perigoso, se acho que é só estar no lugar errado na hora errada. Mas e se eu moro lá? E se a minha realidade é aquilo?", comenta. "Quando você começa a ter noção do tamanho problema, não tem como se manter como você era antes disso."

Os surfistas da praia costumam se reunir, especialmente nos finais de semana, para churrascos de confraternização. Juntos, Azevedo e Farias já organizaram campeonatos locais de surfe e bodyboard.

"Se pudéssemos eleger um presidente para o 'cantão' de São Conrado, seria o Marcello Farias", diz Azevedo, se referindo à ponta esquerda da praia onde pegam onda. "Ele é um cara que abraçou a causa ambiental aqui de uma forma que me mobilizou há muitos anos."

Incomodado com a poluição da praia, Farias se juntou a amigos e, em 2012, fundou o grupo Salvemos São Conrado, que conta com mais de 40 mil seguidores nas redes sociais.

"A gente vê o problema de São Conrado ainda mais quando chove," explica. "É muito lixo dentro d'água. A gente vê rato, seringa, todo tipo de sujeira. Num lugar tão bonito, de ondas perfeitas, é frustrante ver a situação do bairro."

Popular e engajado, Farias é cumprimentado por onde passa. Seu sonho é um dia ver um campeonato mundial de surfe ser realizado na praia, que não recebe competições internacionais por causa da poluição - problema que afeta a todos, sem discriminação. Para chamar atenção para a causa ambiental, Farias e seu grupo organizam mutirões de limpeza da praia que reúnem moradores tanto de São Conrado, incluindo

Azevedo, como da Rocinha. Crianças e adolescentes que estão aprendendo a surfar, e que recebem atenção especial de Farias, também participam das ações.

"O surfe tirou muitos jovens de caminhos errados," comenta. "Tem garoto da Rocinha que hoje é advogado por causa de contatos feitos pelo surfe."

"O surfe transforma sua visão de mundo, sua pessoa interior," complementa Azevedo. "Às vezes vem uma onda boa, mas ela não é para você. Tem um cara do seu lado que tem a preferência e você tem que respeitar, porque é um respeito mútuo. Quando a onda for para você, você vai querer ser respeitado. Há uma série de códigos de ética ali dentro que vão formando um ser humano."

Atualmente, na maior parte do tempo que passa dentro d'água, Farias está tirando fotos de surfistas e de jovens da Rocinha que participam de escolinhas de surfe e bodyboard, para quem ele doa os registros. Ele se diz inspirado pelo renomado fotógrafo de surfe Rick Werneck, de quem ganhou de presente uma foto sua surfando na década de 90.

Com a câmera na mão, Farias aproveita para permanecer em contato com o mar, já que ele reduziu o tempo em cima da prancha de bodyboard após sofrer um grave acidente em 2015 na praia de São Conrado. "Peguei uma onda grande e, no final, caí de cabeça no fundo. Desmaiei. O que me salvou foi Deus e a corda da minha prancha, que estava presa no meu braço, e sinalizou o ponto em que eu estava. Eu estava morrendo no fundo, não conseguia abrir o olho, nem me mexer," relembra. "Depois de quase 4 minutos, alguns amigos meus viram a prancha e que eu estava ali. Fui acordar e me mexer no (hospital) Miguel Couto."

Em outubro de 2018, Farias tinha acabado de sair da praia quando Azevedo sofreu um acidente. Ele caiu da prancha de surfe ao pegar uma onda e foi atingido pelo equipamento no rosto, o que provocou um corte profundo e o deixou dois meses em recuperação.

"Minha vida mudou depois desse episódio, pela relação das pessoas com isso e a corrente de solidariedade que recebi, principalmente das pessoas daqui que me acompanham no surfe diariamente," diz Azevedo, que aos poucos voltou para o mar e não pensa em parar de surfar.

*Este vídeo faz parte da Crossing Divides, série da BBC que busca unir as pessoas em um mundo fragmentado

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