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O que move os protestos na Colômbia, mais um país latino-americano em onda de manifestações

Capital colombiana voltou a ter protestos neste sábado - John Vizcaino/Reuters
Capital colombiana voltou a ter protestos neste sábado Imagem: John Vizcaino/Reuters

23/11/2019 21h31

Depois de toque de recolher, Bogotá teve mais protestos de rua neste sábado; questões sociais e paz com as Farc estão entre as insatisfações.

As ruas de Bogotá foram, neste sábado (23/11), palco de mais um dia de protestos, iniciados em uma greve de grandes proporções na última quinta-feira.

Levantado o toque de recolher decretado pelas autoridades colombianas na noite de sexta-feira para conter denúncias de saques e vandalismo, centenas de pessoas voltaram a bater panelas e protestar na capital colombiana.

Em alguns momentos, as marchas pacíficas resultaram em confrontos com o esquadrão antidistúrbios (Esmad) da polícia, que lançou gás lacrimogêneo contra manifestantes.

Na véspera, o governo já havia despachado militares para a capital e outras cidades para proteger "locais estratégicos", medida criticada pelo Alto Comissariado da ONU no país, que questionou o uso das Forças Armadas para "o controle de distúrbios domésticos".

O prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, pediu tranquilidade e afirmou se tratar de uma "campanha orquestrada para gerar terror".

Governistas e opositores se acusaram mutuamente de estar por trás da suposta "campanha" ? os primeiros afirmam que o objetivo é desestabilizar o governo com manifestações semelhantes às vividas em outros países latino-americanos; os segundos dizem que os protestos violentos recentes visam deslegitimar a greve geral de quinta-feira.

O presidente colombiano, Iván Duque, afirmou na sexta-feira que vai iniciar um "diálogo nacional" na próxima semana, "que fortaleça a agenda vigente de política social, trabalhando de maneira unida em uma visão de médio e longo prazo que nos permita fechar certas brechas sociais".

23.nov.2019 - Greve de grande magnitude marcou a última quinta-feira no país - Epa - Epa
Imagem: Epa

Depois de protestos que sacudiram Chile, Equador e Bolívia, o que tem levado os colombianos às ruas? A BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, aponta alguns fatores de insatisfação dos colombianos:

1 - O suposto 'pacotaço'

Segundo convocações de manifestações, o governo Duque prepararia um "pacotaço" de medidas que vão impactar pensões, idade de aposentadoria e salário mínimo para jovens.

O governo nega, afirmando que não "existe nenhuma reforma previdenciária apresentada por nosso governo nem nenhuma reforma laboral. Esses aspectos devem ser levados a cabo em uma discussão permanente".

Ao mesmo tempo, medidas de impacto social haviam sido esboçadas por pessoas e organizações próximas ao governo, incluindo o ex-presidente e senador Álvaro Uribe, líder do governista Partido Centro Democrático.

Iván Duque prometeu 'diálogo nacional que fortaleça a agenda vigente de política social, trabalhando de maneira unida em uma visão de médio e longo prazo que nos permita fechar certas brechas sociais' - Presidência da Colômbia/Divulgação/Reuters - Presidência da Colômbia/Divulgação/Reuters
Iván Duque prometeu 'diálogo nacional que fortaleça a agenda vigente de política social, trabalhando de maneira unida em uma visão de médio e longo prazo que nos permita fechar certas brechas sociais'
Imagem: Presidência da Colômbia/Divulgação/Reuters

2 - A educação

Parte importante do público presente nas manifestações são jovens de universidades públicas e privadas, que já haviam se mobilizado em outros momentos do ano.

Eles pedem mais investimentos em educação e o cumprimento de acordos firmados no ano passado, depois de mais de dois meses de protesto e que incluem investimentos de US$ 1,3 bilhão para universidades.

Eles também se queixaram da violência policial nas manifestações atuais, particularmente do esquadrão antidistúrbios.

A ministra da Educação, María Victoria Angulo, afirma por sua vez que o governo está cumprindo suas promessas e investindo "recursos nunca antes vistos" na pasta.

3 - Mortes de indígenas, líderes sociais e ex-guerrilheiros

Outra queixa dos manifestantes é por medidas de proteção para indígenas e líderes sociais, alvos de uma onda de assassinatos ? dezenas morreram desde que Duque assumiu o poder, há 15 meses.

A situação é particularmente delicada no departamento (Estado) de Cauca, região montanhosa que vive espiral de violência pela presença de grupos armados dissidentes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), paramilitares e narcotraficantes.

Miguel Ceballos, alto comissariado da paz nomeado por Duque para liderar um plano de ação social para Cauca, anunciou, depois de assassinatos ocorridos em outubro, investimento de US$ 390 milhões para infraestrutura, cobertura sanitária e educação na região.

O governo anunciou também o envio de 2,5 mil militares, medida questionada por alguns líderes indígenas que discordam da militarização.

Segundo dados de organizações sociais, houve mais de 400 assassinatos de líderes sociais, defensores do meio ambiente, ativistas e ex-guerrilheiros nos últimos quatro anos na Colômbia.

Policiais durante protestos contra o presidente da Colômbia, Ivan Duque, em Bogotá - Raul Arboleda/AFP - Raul Arboleda/AFP
Governo mobilizou esquadrão antidistúrbios e Forças Armadas nas manifestações
Imagem: Raul Arboleda/AFP

4 - O cumprimento do processo de paz

Grupos sociais pedem mais compromisso do governo com a implementação do acordo de paz firmado com as Farc em 2016, no governo anterior ? particularmente do ponto 4 do acordo, que previa a substituição gradual e voluntária de cultivos de drogas por outras alternativas de subsistência em comunidades mais pobres.

Isso, segundo especialistas, tem contribuído para a crise de insegurança que vive a população indígena do país.

Ao mesmo tempo, o governo reforçou operações contra dissidências das Farc, algumas das quais reverberaram fortemente no país. Em uma delas, ao menos oito jovens menores de idade foram mortos durante uma ação em um acampamento guerrilheiro.

Essa combinação de fatores é apontada como potencial causa de uma redução na popularidade de Duque, que está em seu nível mais baixo desde que ele assumiu a Presidência, em agosto de 2018. Pesquisa da empresa Gallup em outubro deste ano apontou que o índice de reprovação do presidente chegou a 69%, contra 26% de aprovação.