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Coronavírus: Bolsonaro volta a atacar imprensa e a negar que tenha convocado protestos

Presidente Jair Bolsonaro concedeu entrevista coletiva usando máscara hoje - Agência Brasil
Presidente Jair Bolsonaro concedeu entrevista coletiva usando máscara hoje Imagem: Agência Brasil

André Shalders

Da BBC News Brasil em Brasília

18/03/2020 17h01

Presidente volta a insistir que manifestação em frente ao Palácio do Planalto no domingo não foi convocada por ele e a culpar a imprensa. Governo detalhou medidas para combater vírus.

O presidente Jair Bolsonaro voltou a dizer hoje que não foi o responsável por convocar seus apoiadores a participar dos protestos do domingo — segundo o presidente, as pessoas saíram às ruas "espontaneamente".

Na ocasião, Bolsonaro saiu do isolamento no qual se encontrava para cumprimentar os manifestantes em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília.

Nesta quarta-feira, o presidente aproveitou a entrevista coletiva que concedeu para criticar a imprensa. Ele afirmou que os meios de comunicação focaram suas críticas nos protestos, e deixaram de lado outros eventos ocorridos nos últimos dias.

"O povo decidiu espontaneamente aparecer (...). Foram menos de um milhão de pessoas (nas ruas em todo o país). É menos do que acontece em São Paulo no transporte coletivo", minimizou o presidente.

"Estive ao lado do povo, sabendo dos riscos que eu corria. Mas nunca abandonarei o povo brasileiro, ao qual devo lealdade absoluta", disse ele.

"Vimos críticas (da imprensa) em cima deste evento, como se fosse o único a ocorrer e como se tivesse sido convocado por mim", disse o presidente da República.

Riscos de saúde

O presidente também chamou de "inconsequente" a jornalista Vera Magalhães, do jornal O Estado de S. Paulo e da TV Cultura paulista — a profissional revelou que Bolsonaro tinha encaminhado a seus contatos no WhatsApp um vídeo convocando para os protestos.

Bolsonaro também voltou a insistir que este vídeo se referia a um protesto em 2015, mesmo com o filmete exibindo imagens do atentado sofrido por ele em Juiz de Fora (MG), na campanha de 2018.

O presidente também voltou a dizer que não colocou em risco os manifestantes no domingo, por não estar infectado.

"Eu, a partir do momento em que não estou infectado, não estou pondo em risco a vida de quem quer que seja (...). Não descumpro qualquer orientação do ministro da Saúde, que é nossa autoridade máxima neste momento, nesse assunto", disse.

Panelaços

Bolsonaro falou ainda sobre os "panelaços" contra o governo marcados para 20h30 desta quarta-feira - e disse que uma outra manifestação do tipo, de apoio ao seu governo, está prevista para as 21h.

"Parece que é um movimento espontâneo por parte da população (...). O que eu vi hoje foi a TV Globo, assim como a Veja Online, estimulando, divulgando esses protestos. Mas eu não vi esses dois veículos, também, falando que corre nas redes sociais um panelaço às 21h, em apoio ao governo de Jair Bolsonaro", disse ele.

"Qualquer protesto, seja nas ruas, seja de panelaços, nós políticos devemos encarar como manifestação da democracia", disse ele.

Estavam ao lado do presidente oito ministros - e parte deles falou brevemente sobre as iniciativas em suas respectivas áreas.

Eram eles Braga Netto (Casa Civil); Tarcísio de Freitas (Infraestrutura); Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública); Paulo Guedes (Economia); Luiz Henrique Mandetta (Saúde); Fernando Azevedo e Silva (Defesa); Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo). Também estava presente na mesa da coletiva o diretor da Anvisa, Antônio Barra Torres.

No começo da entrevista, Bolsonaro informou que mais um integrante do governo recebeu o diagnóstico de infecção pelo novo coronavírus: o ministro de Minas e Energia, o almirante Beto Albuquerque.

Antes de responder às perguntas de jornalistas, Bolsonaro agradeceu nominalmente aos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), pela colaboração no combate ao vírus.

Mandetta: Bolsonaro é o 'grande timoneiro' da crise

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, usou uma metáfora para falar sobre o trabalho da pasta. Ele comparou a curva do número de casos de infecção com o formato das montanhas: se a disseminação for mais lenta, o estresse sobre o sistema de saúde será menor, disse.

"Se conseguirmos ter umas montanhas (a curva de casos) como as de Minas Gerais, menos íngremes, algumas pessoas podem ter dificuldades. Mas será uma caminhada muito menos pesarosa do que subir o Monte Everest", disse o ministro da Saúde.

"Estamos no pé deste monte, e o formato (da curva de disseminação do vírus) dependerá do comportamento de todos", disse ele, ao detalhar as iniciativas da sua pasta.

Mandetta também agradeceu a Bolsonaro por ter tido liberdade na montagem de sua equipe. "Pela primeira vez, todas as áreas do Ministério (da Saúde) estão sob o comando de pessoas técnicas, das melhores que poderíamos ter", disse ele.

O ministro disse ainda que o Sistema Único de Saúde do país representa uma vantagem frente à situação de outros países. "O SUS está presente em todas as cidades brasileiras. Não tem uma cidadezinha, não tem uma aldeia indígena ou uma terra quilombola que não tenha a presença do SUS", afirmou Mandetta.

Mandetta também aproveitou sua fala para reafirmar seu apoio a Bolsonaro. Chamou o presidente de "grande timoneiro" e reafirmou que o momento é de "calma".

Tubo de ensaio - EPA - EPA
Combate ao novo coronavírus passa por 'achatar' a curva de crescimento de casos
Imagem: EPA

Comitê de crise e estado de calamidade

O Planalto divulgou nota oficial no começo da noite de ontem, pedindo ao Congresso o reconhecimento do estado de calamidade pública diante da atual pandemia causada pelo vírus Sars-Cov-2.

A medida deve ser analisada pelos parlamentares ainda hoje, e dispensa a União de cumprir as metas fiscais previstas na Lei de Diretrizes Orçamentárias. O estado de calamidade pública é previsto no Artigo 65 da Lei de Responsabilidade Fiscal.

O Planalto argumenta que isso é necessário para permitir a elevação dos gastos públicos, proteger a saúde e empregos dos brasileiros e lidar com uma perspectiva de queda da arrecadação por municípios, Estados e União com a desaceleração da economia.

Apesar da indicação de aumento dos gastos públicos, o governo federal reforçou em nota o compromisso "com as reformas estruturais necessárias para a transformação do Estado brasileiro" e com o "teto de gastos como âncora de um regime fiscal que assegure a confiança e os investimentos para recuperação de nossa dinâmica de crescimento sustentável".

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