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Constituinte no Chile: os 5 distritos (de 346) que votaram contra mudar a Constituição de Pinochet

Las Condes, Vitacura e Lo Barnechea concentram melhores níveis socioeconômicos ? e, para analistas, isso se refletiu na predominância de votos "rejeito" no plebiscito de domingo - Getty Images
Las Condes, Vitacura e Lo Barnechea concentram melhores níveis socioeconômicos ? e, para analistas, isso se refletiu na predominância de votos 'rejeito' no plebiscito de domingo Imagem: Getty Images

Antía Castedo

BBC News Mundo

27/10/2020 19h05

Com fogos de artifício, bandeiras e a esperança em um novo começo, dezenas de milhares de chilenos festejaram nas ruas o resultados do histórico plebiscito realizado no domingo (25/10).

Uma esmagadora maioria de quase 80% dos eleitores votaram no "aprovo", que permitirá a substituição da Constituição herdada da ditadura comandada por Augusto Pinochet.

Mas em cinco dos 346 distritos do país, o sentimento predominante depois do domingo não deve ter sido de alegria, já que neles - Vitacura, Las Condes e Lo Barnechea, todas na região metropolitana de Santiago; Colchane (Tarapacá) e La Antártica (Magallanes) - a maioria dos eleitores votou para manter o status quo.

Mas o que os cinco distritos onde o "rejeito" venceu têm em comum?

"Dos cinco, dois são muito particulares", explica Carmen Le Foulon, pesquisadora do Centro de Estudos Políticos, à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

"A Antártica é uma base científica [com a presença do exército] e o número de votos é muito pequeno: votaram 31 pessoas. Já Colchane faz fronteira com a Bolívia e também é pequena (teve 505 votos)", diz Le Foulon.

Os outros três, no entanto, são muito mais significativos, concordam os especialistas consultados pela BBC News Mundo.

A participação no plebiscito foi de 50,9%, uma das mais altas da história recente do Chile - Getty Images - Getty Images
A participação no plebiscito foi de 50,9%, uma das mais altas da história recente do Chile
Imagem: Getty Images

Riqueza e educação

Para começar, Las Condes, Vitacura e Lo Barnechea pertencem à região metropolitana de Santiago, a capital chilena.

As três concentram mais de 400.000 habitantes (de um total de 7,1 milhões em toda a região e 18,7 milhões no país) e estão localizadas lado a lado, no nordeste da cidade.

Mas não é só isso.

"Elas são as que concentram a maior riqueza e o maior nível educacional", diz Rodrigo Pérez Silva, professor assistente da Universidad Mayor e pesquisador em economia urbana.

"Essa votação reflete essa divisão. Não só que 80% do país é a favor de fazer mudanças e há uma parcela de 20% que resiste, mas além disso: esse voto contrário está superconcentrado em uma única parte do país, em três comunas da região metropolitana onde estão o poder político e econômico. Onde estão as elites."

Uma única exceção a esse padrão homogeneizado é Lo Barnechea, dentro do qual há grandes desigualdades socioeconômicas, com partes muito ricas, tal como La Dehesa, e outras muito pobres, como Cerro 18.

No total, esses três distritos somaram 166.544 votos "rejeito", compondo 10,2% segundo o cômputo final do Serviço Eleitoral do Chile.

'Há dois universos aqui'

A atual Constituição do Chile foi aprovada em 1980 e para muitos está na base das desigualdades do país, promovendo a privatização dos serviços básicos e atribuindo ao Estado um papel residual.

O triunfo do "aprovo" é interpretado por muitos como a vitória das reivindicações cidadãs que eclodiram nos protestos de outubro de 2019 e que desde então pedem mudanças estruturais e profundas.

A própria convocação de um plebiscito foi anunciada em novembro de 2019, após 28 dias de grandes protestos em um dos países mais desiguais da América Latina.

E na capital, Santiago, essa desigualdade se traduz em uma inegável segregação social e geográfica.

"Há dois universos aqui. Tudo funciona de maneira diferente e as pessoas não se misturam. Ninguém quer fazer muitas mudanças", disse à BBC News Mundo S.L., uma mulher de 40 anos que nasceu, foi educada e vive em Vitacura.

Nesta comuna, o percentual de pessoas em lares sem condições básicas, como rede de esgoto e água, é de 0,5%, contra 8,3% em média na região de Santiago ou 14,1% em todo o país, segundo dados compilados pela Biblioteca do Congresso Nacional do Chile.

Se falarmos da pobreza "multidimensional" ? que considera diferentes problemas de acesso a direitos, como na saúde e educação ?, os dados são ainda mais contundentes: 3,48% contra a média de 20,7% no Chile.

E ainda que a moradora de Vitacura entrevistada pela BBC News Mundo tenha ela votado em "aprovo", ela teve dúvidas e percebeu que em seu entorno social e profissional todos votaram contra uma nova Constituição.

"Hesitei porque comecei a ver o que aconteceu em outros processos constituintes da América do Sul. Nenhum país melhorou depois", explica.

Segundo ela, nestas comunas existe o receio do discurso de refundação, da "perda de privilégios e da incerteza". Além disso, as mudanças foram vinculadas à violência ocorrida nas manifestações.

"Destruíram a cidade. Talvez fosse necessário, mas agora continuamos com manifestações violentas e panelaços todos os dias."

Ela destaca também a preocupação das pessoas que conhece com mudanças no regime de "propriedade privada e do sistema tributário, que tem a ver com as aposentadorias".

"Não tem tanto a ver com esquerda e direita, mas com propriedade e riqueza", conclui.

Manifestações que ocorrem no Chile desde outubro de 2019 motivaram plebiscito sobre nova Constituição - Getty Images - Getty Images
Manifestações que ocorrem no Chile desde outubro de 2019 motivaram plebiscito sobre nova Constituição
Imagem: Getty Images

Com isso, concorda Patricio Fernández, jornalista e autor de Sobre la marcha, livro que escreveu após observar de perto a eclosão social que se iniciou em 2019.

"Isso é politicamente transversal", disse Fernández à BBC News Mundo.

"A eclosão social tem muitas leituras e ingredientes, mas eu diria que há uma coisa muito evidente, a manifestação ou ilusão de uma cidadania emergente que questiona sua relação justamente com as elites, com os governantes."

E, segundo Pérez Silva, os resultados do plebiscito são uma "interpelação" justamente à elite que se recusa a perder seus privilégios para que haja uma "redistribuição de riquezas, oportunidades, educação, saúde, pensões etc. ".

Mas para o engenheiro eletrônico Andrés Camus, que mora em Vitacura e votou no "rejeito", mudar a Constituição "não é um problema no Chile".

"Ninguém fala sobre esse assunto", afirma.

"Estamos muito melhores do que em 1975. Somos os primeiros da América Latina e estamos bem", afirma.

Um estudo recente realizado pela organização Círculo de Directores e pela empresa de análise de dados Unholster indicou que pessoas consideradas parte da "elite" do país, acadêmicos, empresários, figuras públicas, subestimam as desigualdades econômicas e de oportunidades que as separam das classes mais baixas.

"Membros da elite pensavam que pessoas das comunas pobres ou médias tinham plano de saúde, e não há nada mais longe da realidade do que isso", apontou Antonio Díaz-Araujo, gerente geral da Unholster.

Esse padrão também foi observado em questões como valores de propriedade ou níveis de educação.

"E os votos só confirmam que a distância (entre a elite e o resto da população) é brutal", finaliza Díaz-Araujo.

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