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Quem é Ricardo Barros, a ser ouvido na CPI da Covid e apontado por suspeitas no caso Covaxin

Atual líder do governo no Congresso, Ricardo Barros foi ministro da Saúde de 2016 a 2018 no governo Temer - Pablo Valadares/Câmara dos Deputados
Atual líder do governo no Congresso, Ricardo Barros foi ministro da Saúde de 2016 a 2018 no governo Temer Imagem: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

BBC

26/06/2021 10h43

Em depoimento à CPI, deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) afirmou que Bolsonaro sabia que deputado Ricardo Barros, líder do governo no Congresso, estaria envolvido em esquema. Barros nega e dará sua versão à comissão.

Citado na CPI da Covid como pivô das supostas irregularidades na compra da vacina indiana Covaxin, Ricardo Barros (PP-PR) soma mais de 20 anos como deputado federal e já integrou a base aliada de Fernando Henrique Cardoso, Luis Inácio Lula da Silva e Michel Temer, antes de apoiar o presidente Jair Bolsonaro.

Figura importante do chamado Centrão, como é chamado o bloco informal na Câmara que reúne partidos sem linha ideológica clara, mas com valores conservadores, ele foi líder ou vice-líder no Congresso Nacional de quase todos os presidentes eleitos após a ditadura militar.

Nesta quinta-feira (12/08), Barros, atualmente líder do governo Bolsonaro na Câmara dos Deputados, dará seu depoimento à CPI da Covid no Senado.

Em junho, o deputado Luis Miranda (DEM-DF) afirmou na CPI que Barros é o deputado ao qual Bolsonaro teria se referido ao tomar conhecimento de suspeitas de corrupção no contrato de compra da vacina indiana Covaxin.

Miranda disse que ele e seu irmão, o servidor Luis Ricardo Miranda, se encontraram com Bolsonaro no dia 20 de março para relatar denúncias de irregularidades na importação da vacina.

Segundo ele, o presidente afirmou que sabia que um deputado da base do governo estava envolvido no caso e que levaria a denúncia ao delegado-geral da Polícia Federal, o que não foi feito naquele momento. Questionado na CPI sobre quem seria esse deputado, Miranda disse: "Foi o Ricardo Barros que o presidente falou".

Nas últimas semanas, além de trabalhar pela implementação do voto impresso nas eleições ? uma das principais bandeiras do presidente Bolsonaro ?, Barros vem na verdade exigindo sua participação na CPI da Covid.

No início de julho, o deputado chegou a entrar com um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) para que sua participação na CPI fosse marcada logo, alegando que a comissão estava postergando seu depoimento indevidamente e com isso negando seu direito à ampla defesa.

"Estou há quase 10 dias sendo acusado por ilações e especulações levianas. Não há provas. Desde o início me coloquei à disposição da CPI para prestar os esclarecimentos, quantas vezes forem necessárias. Estão impedindo a minha a garantia do o direito constitucional de ampla defesa", afirmou Barros na ocasião, em nota.

"É uma tentativa clara de desgastar a minha imagem perante a opinião pública, o que torna ainda mais indispensável o exercício do meu amplo direito de defesa."

Bolsonaro também o defendeu em entrevista a jornalistas, afirmando que a demora do depoimento na CPI estava deixando seu líder de governo "sangrando" e que não via evidências de corrupção.

"Não posso, por denúncia, afastar as pessoas. Tem que ter alguma materialidade. Ele continua no meu governo tendo credibilidade para tratar dos assuntos."

Na quarta-feira, dia anterior ao depoimento, Barros publicou no Twitter que o presidente da CPI, Omar Aziz, atendeu sua solicitação para que sua convocação à comissão fosse transformada em convite. Esta é uma forma mais atenuada de solicitar a presença de uma autoridade. Segundo a CNN Brasil, integrantes da comissão afirmaram que a mudança buscou reduzir os contrangimentos a Barros, que tem se mostrado disposto a colaborar.

Mas antes da CPI e até mesmo do coronavírus existir, qual foi a trajetória do parlamentar?

Apoio a Lula, Dilma, impeachment, Temer e Bolsonaro

Ricardo Barros tem 61 anos e se formou engenharia civil pela Universidade Estadual de Maringá (PR), cidade onde nasceu e cuja prefeitura assumiu em 1989.

Em 1995, quando era filiado ao PFL, Barros assumiu seu primeiro mandato na Câmara, se tornando deputado federal pelo Paraná.

De 1999 a 2002, Ricardo Barros foi vice-líder na Câmara do governo Fernando Henrique Cardoso e líder do governo no Congresso Nacional ao longo do ano de 2002. O PP, partido de Barros, apoiou José Serra (PSDB-SP), candidato de FHC na eleição presidencial.

Mas, quando Lula ganhou nas urnas, a legenda logo aderiu à base do governo petista, em 2003.

Durante praticamente todo o período em que Lula esteve na Presidência contando com o apoio do PP, Ricardo Barros ocupou cargos de direção no partido - foi vice-líder do PP na Câmara e vice-presidente nacional do partido. Foi ainda vice-líder do governo no Congresso, em 2007.

Como integrante do PP, Barros também fez parte da base do governo Dilma Rousseff, mas depois foi um dos articuladores da revitalização do Centrão e apoiou o impeachment da presidente.

Com a chegada de Michel Temer ao poder, Ricardo Barros foi alavancado para o posto de Ministro da Saúde, comandando a pasta de 2016 a 2018.

Em 2018, o paranaense deixou o cargo para concorrer ao cargo de deputado federal. Em 2020, foi anunciado seu nome como líder do governo Bolsonaro na Câmara.

Ex-governadora do Paraná, a esposa de Ricardo Barros, Cida Borguetti, reforçou esta aproximação do Planalto, sendo nomeada por Bolsonaro ao Conselho de Administração da Itaipu Binacional em maio deste ano.

Defesa de cortes no SUS

Como ministro da Saúde, Ricardo Barros tentou promover cortes na pasta e a redução do Sistema Único de Saúde (SUS).

Em diferentes momentos, ele defendeu o enxugamento de gastos do SUS, argumentando que em breve o país não teria mais como bancar direitos que a Constituição garante, como acesso universal à saúde.

"Vamos ter que repactuar, como aconteceu na Grécia, que cortou as aposentadorias, e em outros países que tiveram que repactuar as obrigações do Estado porque ele não tinha mais capacidade de sustentá-las", afirmou Barros em maio de 2016 em entrevista à Folha de S.Paulo.

Em outras ocasiões, ele se posicionou a favor da criação de planos de saúde "populares", mais baratos por oferecerem menos serviços do que a cobertura mínima prevista pela ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar).

Isso seria, segundo ele, uma forma de desafogar o sistema público.

Em 2017, em entrevista à BBC News Brasil após evento estudantil em Cambridge, nos EUA, Barros sugeriu limitar a realização de exames médicos pelo SUS.

Na ocasião, ele afirmou que "80% dos exames de imagem têm resultado normal" e que isso representa "desperdícios que precisam ser controlados".

"Temos que ter controle da demanda que os médicos fazem destes exames e passar a avaliar como utilizam sua capacidade de demandar do SUS. Se o médico solicita muitos exames que dão resultado normal, ele não está agindo de forma correta com o sistema", afirmou o então ministro da Saúde.

É de sua gestão no ministério que Barros herdou também um processo por improbidade administrativa, atualmente tramitando na primeira instância da Justiça Federal de Brasília. O Ministério Público Federal (MPF) no Distrito Federal acusa Barros e quatro servidores de beneficiarem empresas que atrasaram a entrega de remédios para doenças raras, levando à "morte de pelo menos 14 pacientes".

Em julho, a BBC News Brasil conversou com a irmã de uma dessas vítimas, para quem as acusações contra Barros envolvendo a Covaxin dão a "sensação" de que "a história se repete".


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