Mesmo dividida, UE pode desempenhar papel global maior

Andreas Becker (fc)

Painel no Fórum Econômico Mundial debate presença da União Europeia num mundo dividido entre livre comércio e protecionismo. Maior protagonismo é possível, mas conflitos internos atrapalham.O presidente Donald Trump quer colocar os Estados Unidos em primeiro lugar, e a China não é exatamente uma campeã da democracia e dos direitos humanos. É por isso que alguns europeus pensam que é hora de encarar os desafios e desempenhar um papel mais importante no cenário mundial.

Em seus discursos durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, a chanceler federal Angela Merkel e o presidente da França, Emmanuel Macron, defenderam o livre comércio, regras internacionais unificadas e valores humanistas universais.

O único problema é que a União Europeia (UE) está profundamente dividida. A crise financeira deixou cicatrizes profundas, o desemprego é alto em muitos países, a crise migratória gerou tensões entre os Estados-membros e o nacionalismo está aumentando.

Mesmo assim, a Europa tem muito a oferecer ao mundo, afirmou a comissária de Comércio da UE, Cecilia Malmström. Ela vê a atual falta de liderança dos EUA como oportunidade para o bloco europeu mostrar que pode fazer acordos comerciais bons, que sejam sustentáveis e mutuamente benéficos.

"Nós podemos promover os valores europeus através das relações comerciais, e podemos criar alianças e amizades com países de todo o mundo", disse Malmström durante um painel em Davos, intitulado "Um novo impulso para a Europa" e mediado pelo diretor da DW, Peter Limbourg.

Muita coisa a fazer

O primeiro-ministro da Holanda, Mark Rutte, concordou em princípio, mas acrescentou que mesmo o mercado comum europeu ainda está longe de estar concluído. "Poderíamos gerar mais 1,5 trilhão de euros – o tamanho da economia espanhola – se implementássemos o mercado único para os setores digital, de serviços, de capital e de energia", sublinhou.

A adição dessas áreas criaria 4 milhões de novos empregos na Europa, afirmou. "No momento não fazemos isso. O mercado comum europeu é apenas para bens, e apenas 30% da economia europeia integra o mercado comum", argumentou Rutte.

Os europeus têm dificuldades de chegar a um acordo nesse sentido. Mesmo assim, o primeiro-ministro de Portugal, António Costa, tentou ver a situação pelo lado positivo. "Após o Reino Unido se decidir pelo Brexit, temos uma nova energia para realizar mudanças na Europa", afirmou. "Este é o paradoxo do Brexit: os 27 países restantes se esforçam para que a Europa progrida."

Costa citou como exemplo a cooperação mais estreita no setor de defesa, um tema que também havia sido abordado por Merkel e Macron no dia anterior.



Medos e divisões

Mas países pequenos também se preocupam quando Alemanha e França se apresentam como o motor da Europa, afirmou o primeiro-ministro irlandês, Leo Varadkar. "Não queremos ver reuniões em Paris e Berlim onde apenas os países com mais de 40 milhões de pessoas são convidados a participar – e os menores são depois informados sobre o que é bom para a Europa", disse.

A atual crise migratória revelou a profundidade das divisões na Europa. Países como Hungria e Polônia estão se recusando a aceitar imigrantes, enquanto Itália e Grécia veem barcos com refugiados africanos chegando às suas margens todos os dias.

"Este é um problema europeu", afirmou o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, durante outro debate em Davos. "Por isso precisamos de uma política europeia comum de imigração e refúgio." Para ele, Hungria e Polônia não deveriam poder usufruir dos benefícios da UE e, ao mesmo tempo, recusar-se a cumprir suas obrigações.

"Nós temos regras. Durante a crise financeira, [o ministro das Finanças alemão] Wolfgang Schäuble disse a todos que 'regras são regras'. Isso é algo que também o meu grande amigo Viktor Orbán [primeiro-ministro húngaro] precisa entender: regras são regras."

"Esta é a chance da Europa"

Em vez disso, o nacionalismo está em ascensão na Hungria, na Polônia, na Alemanha e em outros lugares. Mas na Europa "não existe um Estado-nação para o qual se pode retornar", afirmou o historiador Timothy Snyder, da Universidade de Yale, nos EUA. Isso porque, historicamente, a Europa foi governada por impérios, não por Estados-nações.

"Os europeus precisam entender que, com a União Europeia, eles criaram uma novidade política, algo inteiramente novo. E foi isso que tornou os Estados europeus possíveis", frisou.

Como os europeus podem desempenhar um papel global se eles estão tão ocupados com seus conflitos internos? "Porque não há mais ninguém que proteja valores universais", respondeu Snyder, que é americano. "Esta é a chance da Europa, e isso é algo que ninguém mais pode fazer neste momento."

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