Povo indígena colombiano se antecipou em 20 anos a acordo de paz com as Farc

Claudia Polanco Yermanos.

Gaitania (Colômbia), 28 jul (EFE).- Indígenas da etnia nasa wes'x, assentados em uma montanhosa paisagem do centro da Colômbia, se anteciparam ao processo de paz que atualmente deixa o país em expectativa e, nesta semana, completam 20 anos já vivendo o pós-conflito.

Foi em 26 de julho de 1996 quando os nativos, cansados da guerra que travavam contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) para defender a soberania de sua terra, assinaram o que se constitui no único acordo de paz vigente com essa guerrilha.

Os combates em Gaitania, um povoado do departamento de Tolima encravado em plena Cordilheira Central, e que faz parte do município de Planadas, considerado o berço das Farc, duraram 35 anos.

Nesse período, entre os indígenas houve 35 mortos, 11 feridos e mais de meia centena de viúvas e órfãos. Poderia ser mais, dizem os que lembram que foi nessa região na qual Pedro Antonio Marín, conhecido como "Tirofijo", criou em 1964 a guerrilha mais antiga da América.

Convencidos de que "a tiros" não se entenderiam, os indígenas aceitaram a proposta do comandante guerrilheiro Arquímedes Muñoz, conhecido como "Jerónimo Galeano", e se sentaram para negociar em 1994.

"Andei muito tempo perseguindo a guerrilha, armado, porque estava cheio de amargura e dor", lembrou Bernabé Paya Cupaque, cuja mãe, Herminia, foi assassinada na década de 1980.

Na memória dos indígenas está vivo esse assassinato que, segundo alegam, desencadeou uma das épocas mais sangrentas em Gaitania, porque se tratava da esposa do então governador indígena Justiniano Paya, máxima autoridade no território ancestral.

No entanto, reconheceu Paya Cupaque, "Jerónimo" contava com a vantagem de ter um "profundo conhecimento" da estrutura política dos povos nativos, o que facilitou a aproximação entre as partes.

Depois de dois anos de conversas, foi estabelecido "o fim da violência" em um documento no qual consta também o respeito às normas autóctones e no qual se proíbe o "porte de armas" e o "recrutamento forçado".

Ao se cumprirem 20 anos desse significativo passo, os nasa wes'x, que já não andam armados pelas precárias e sinuosas vias nem passam os dias entrincheirados nas florestas, sabem o quão difícil foi perdoar.

Por isso, e baseados em sua experiência, acreditam que antes de o governo nacional e as Farc assinarem um acordo em Havana para terminar o conflito que torturou o país por quase 60 anos, é necessário achar respostas.

O fundamental é, esclareceu Paya Cupaque, que "as vítimas, que se sentem lastimadas em seu coração, recebam uma explicação para entender o ocorrido e possam encerrar esse capítulo obscuro de sua história".

Depois, como acrescentou o líder nativo Álvaro Ovidio Paya, que foi um dos promotores do acordo de 1996, "é indispensável que o desenvolvimento social saia do papel e se transforme em realidade".

"Que paz pode existir se as pessoas têm fome e se sentem excluídas?", questionou Ovidio Paya.

Em consequência, além do diálogo e do cumprimento do estipulado, os nasa wes'x recomendam ao governo e às Farc a implementação de projetos produtivos que mudem a mentalidade da população afetada pelos intermináveis anos de violência generalizada.

Não em vão, em Gaitania, conhecida até pouco tempo na Colômbia como uma cidade "sem lei", é cultivado "o melhor café do mundo", conforme determinou em 2008 um concurso internacional.

Além disso, há 10 anos o exército retomou o controle do outrora bastião de "Tirofijo" e atualmente se encarrega não só de garantir a segurança, mas de construir estradas e pontes para dar as boas-vindas ao progresso.

Poderia dizer-se que o ocorrido com os nasa wes'x tem uma contundente moral da história: "Quem insiste na guerra não desfruta dos privilégios da paz", ponderaram os nativos.

O melhor exemplo é "Jerónimo Galeano", que, apesar de ser o "porta-bandeira" do acordo com os indígenas, tornou-se anos depois o principal líder do comando conjunto central das Farc, uma temida célula dessa organização.

O guerrilheiro, que dirigiu algumas das mais crueis ações armadas no país, morreu em um combate com o Exército em 2011 sem ver transformada em realidade a paz que hoje sonham os colombianos e que, ironicamente, ele também desejava quando propôs a pacificação de Gaitania.

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