EUA e Cuba: quase seis décadas de alta tensão

Washington, 26 nov (EFE).- A morte de Fidel Castro promete abrir um novo capítulo na relação entre Estados Unidos e Cuba, após quase seis décadas de confrontos que alcançaram o momento mais tenso em 1962, com a "crise dos mísseis", e começaram a se atenuar há menos de dois anos.

Os EUA, que em um primeiro momento reconheceram Fidel Castro como o novo líder do país, demoraram pouco para reconsiderar esta postura.

A reforma agrária cubana e a nacionalização de indústrias americanas dispararam os alarmes em Washington, que decretou a imposição gradual de restrições comerciais sobre o país.

As tentativas de estrangulamento econômico ao novo regime comunista de Cuba, que foram oficializados em 1960 com o embargo sobre as relações comerciais e empresariais dos EUA com o país, se combinaram com planos para derrubar o líder revolucionário.

O embargo, que durante décadas foi executou com decretos presidenciais, se reforçou em 1996 com a aprovação da Lei Helms-Burton, mas nem essa nem o resto das estratégias tiveram o efeito desejado: o desaparecimento de Fidel Castro do mapa político.

As dificuldades econômicas resultantes do embargo levaram o regime castrista a aproximar vínculos com a União Soviética, considerada pelos EUA como "a grande ameaça vermelha".

Essa aproximação se intensificou a partir de 1961, depois que 1,5 mil exilados cubanos treinados pela CIA tentaram sem sucesso invadir Cuba através da Baía dos Porcos.

A operação fazia parte de uma iniciativa mais ampla que os serviços de inteligência americanos batizaram como "Operação Mongoose" e cujo objetivo era desestabilizar o governo de Castro.

A estratégia incluiu vários complôs para matar o líder cubano, segundo determinou uma investigação independente do Senado dos Estados Unidos. O pior, de todos os modos, ainda estava por chegar.

Ciente que os EUA planejavam invadir o país, Castro começou uma agressiva militarização de Cuba, que levou à chegada de mísseis soviéticos. Essa decisão desencadeou a chamada "crise dos mísseis", que colocou o mundo à beira de uma guerra nuclear.

A crise arrancou no dia 15 de outubro de 1962, quando aviões de espionagem americanos U-2 detectaram mísseis nucleares em território cubano capazes de alcançar os EUA.

A tensão se prolongou até 28 de outubro. Nesse dia, o líder soviético Nikita Kruschev aceitou retirar todos os mísseis russos em Cuba e transferi-los outra vez à União Soviética. Já o então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, embora em segredo, se comprometeu a retirar ogivas nucleares da Turquia.

Após esse acordo, houve uma etapa de degelo que começou durante a presidência de Lyndon Johnson (1963-1969) e se prolongou durante mais de uma década. Em 1964, Fidel enviou uma carta a Johnson na qual dizia que a hostilidade entre os dois países vizinhos era "desnecessária".

A chegada de Jimmy Carter (1977-1981) à Casa Branca supôs outro passo adiante nessa direção e se traduziu na abertura simultânea de delegações em Washington e Havana, ambas localizadas na embaixada Suíça. No entanto, a saída de Carter do cenário político acabou com a lua de mel.

Ronald Reagan (1981-1989) retornou aos velhos tempos ao endurecer o embargo e incentivar a hostilidade latente entre os países. Foi sob o comando do republicano que foi criada a rádio "Martí", uma emissora dos EUA com base em Miami que transmite notícias em espanhol a Cuba.

O novo milênio trouxe ares conciliadores, baseados no aperto de mãos entre Castro e o presidente Bill Clinton (1993-2001) na Cúpula do Milênio da ONU em setembro de 2000.

Em 1994 aconteceu outro marco importante, com assinatura de um acordo entre EUA e Cuba pelo qual Washington se comprometia a admitir a 20 mil imigrantes cubanos ao ano em troca de que Cuba impedisse o êxodo de refugiados para o território americano.

A visita de Carter a Cuba em 2002 foi outro momento histórico que parecia pressagiar uma aproximação, que acabou não se materializando.

As afirmações do então secretário de Estado adjunto contra a Proliferação Nuclear, John Bolton, de que Cuba tinha um programa de armas biológicas e o fato de o governo do presidente George W. Bush incluir Cuba entre os países do "eixo do mal" despertou velhos rancores.

O começo da verdadeira aproximação aconteceu durante o segundo mandato do atual presidente americano, Barack Obama, que começou com a flexibilização das viagens e o envio de remessas e pacotes humanitários dos cubano-americanos a Cuba, em 2009, e terminou com a reabertura das embaixadas em julho de 2015.

A detenção e o encarceramento do americano Alan Gross, um funcionário da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (Usaid, na sigla em inglês), em Cuba no final de 2009 tensionou de novo as relações.

Gross, acusado de atividades de espionagem, foi libertado após cinco anos de prisão no dia 17 de dezembro de 2014, horas antes de Raúl Castro e Barack Obama anunciarem separadamente o começo das negociações para restabelecer as relações diplomáticas.

Deste modo, o primeiro gesto desta aproximação foi a libertação mútua de presos: Gross e um oficial de inteligência americano que estava preso em Cuba há quase 20 anos, e três espiões cubanos do chamado grupo "Os Cinco" que cumpriam pena nos EUA.

Quase cinco meses depois do anúncio do processo de aproximação, Obama e Raúl Castro definiram a personalidade da nova relação em reunião durante a Cúpula das Américas do Panamá, o que precedeu a reabertura de embaixadas em 2015.

A partir desse momento, o governo dos EUA retirou Cuba de sua lista de países patrocinadores do terrorismo, os voos diretos entre ambos os territórios foram reatados e as sanções econômicas em alguns campos foram suavizadas.

Mas o governo de Obama, que em março passado viajou para Cuba com a família e se reuniu com Raúl Castro e dissidentes, não obteve o apoio suficiente no Congresso, em mãos republicanas em ambas as câmaras, para impulsionar a suspensão total das sanções incluídas no embargo, o que depende do Legislativo.

A morte de Castro abre agora um grande dúvida sobre o futuro das tumultuosas relações entre Havana e Washington, sobretudo por causa da vitória do magnata republicano Donald Trump nas eleições presidenciais americanas do dia 8 de novembro.

Durante a campanha eleitoral, o polêmico empresário prometeu revisar a aproximação com Cuba e condicionar o processo à abertura do regime comunista cubano e a avanços em matéria de direitos humanos no país.

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