Fidel Castro, o líder revolucionário que colocou Cuba no centro das atenções

Soledad Álvarez.

Havana, 26 nov (EFE).- Fidel Castro, o homem que conduziu o destino de Cuba durante quase meio século e um dos líderes mais controversos da história contemporânea, faleceu nesta sexta-feira em Havana, aos 90 anos, após se retirar do poder oficialmente em 2008 por conta de uma grave doença.

À frente de uma revolução que colocou Cuba no centro do cenário político internacional e de um regime que durou mais de 50 anos, Fidel era ator e sobrevivente destacado no tabuleiro das complexas tensões da segunda metade do século XX entre socialismo e capitalismo.

Fidel foi tão admirado como mito revolucionário como acusado de ser um ditador, mas até seus inimigos reconheceram seu carisma e uma capacidade de liderança pouco comuns: ninguém deixou indiferente sua polêmica personalidade revelada desde jovem, quando avisou que só buscaria o julgamento da história.

"Podem me condenar, não me importo. A História me absolverá", foi a famosa frase pronunciada em 1953, aos 27 anos, diante do tribunal que o condenou pelo ataque ao quartel de Moncada, sua primeira ação armada contra a ditadura de Fulgencio Batista.

Fidel Castro permaneceu no poder durante 49 anos e 55 dias, marcados, entre outros fatos, pelo confronto com os Estados Unidos, sua aliança com a antiga União Soviética, a crise econômica na ilha após a queda do bloco e a revolução "bolivariana" capitaneada pelo pupilo venezuelano Hugo Chávez, que se tornou o principal aliado da Cuba castrista no século XXI.

O homem que governou com mão de ferro a ilha caribenha, só foi afastado do poder por problemas de saúde. Em 2006, delegou as funções de presidente a seu irmão Raúl na prática. Dois anos depois, cedeu a presidência oficialmente. Foi, assim, testemunha de sua própria sucessão e também das reformas empreendidas pelo Castro mais jovem, com o objetivo de tentar reanimar uma economia socialista em ruínas.

Fidel nasceu no dia 13 de agosto de 1926 em Birán, no leste de Cuba. Seu pai, um imigrante espanhol que virou fazendeiro, foi responsável por uma educação severa que, unida à formação que ele recebeu dos jesuítas em um dos melhores colégios de Havana, influenciaram decisivamente em sua personalidade.

Foi na Universidade de Havana onde Fidel Castro se formou como líder estudantil enquanto concluía os estudos de Direito e começava suas andanças políticas.

Após o fracasso do ataque em Moncada, ficou preso por quase dois anos e depois se exilou no México. Lá, conheceu Che Guevara, com quem voltou para Cuba a bordo do navio Granma com outros 82 expedicionários para começar a luta guerrilheira de Sierra Maestra (1956-1959). Derrotou Batista em uma guerra desigual, aproveitando o descontentamento social de um país muito jovem como estado independente e que viu no chefe dos "barbudos" um líder capaz de reinventar a identidade nacional.

Fidel Castro criou em Cuba um "comunismo caribenho" com base marxista-leninista, mas sobretudo muito influenciado pelo legado nacionalista do herói da independência, José Martí, e recheado com receitas próprias, resultando em um singular modelo "fidelista".

Foram determinantes para perpetuação desse sistema seu eficaz aparato de segurança e o constante controle social através de organizações de massas, como os Comitês de Defesa da Revolução (CDR), "olhos e ouvidos" do regime para que os próprios cubanos vigiassem os movimentos de seus vizinhos.

A dimensão política de Fidel Castro não se entende sem seu principal inimigo: os Estados Unidos, o "império" que, segundo Havana, tentou se livrar dele cerca de 600 vezes com os métodos mais diversos.

Com Cuba sob o embargo econômico de seu poderoso vizinho desde início dos anos 60, Fidel Castro sobreviveu a 11 presidentes americanos e não deixou de criticar suas políticas, alimentando um forte sentimento patriótico na ilha.

Fidel também viu seu país, sob o mandato de seu irmão Raúl, restabelecer as relações diplomáticas com os EUA, após mais de meio século de inimizades, no dia 17 de dezembro de 2015.

Durante as primeiras décadas da revolução, a Cuba de Fidel Castro foi uma referência para a esquerda internacional: a resistência da pequena ilha, a apenas 140 quilômetros da principal potência mundial, reeditou o mito de Davi e Golias.

O país promoveu reformas sociais sem comparação na América Latina da época, se transformou em uma potência esportiva e promoveu uma importante vanguarda cultural e artística, com a ressalva de que tudo cabia dentro da revolução, mas nada contra ela, como amargamente aconteceu com muitos críticos em relação ao regime e que acabaram exilados ou mortos.

Em 1961, às vésperas de derrotar a invasão anticastrista da Baía dos Porcos, Fidel declarou o caráter socialista de sua revolução e começou com a URSS uma longa aliança que teve altos e baixos, incluindo a tensa "crise dos mísseis" com os EUA em 1962, que colocou o mundo à beira de uma guerra nuclear.

Três décadas depois, a profunda dependência da URSS foi revelada em toda sua magnitude com a queda do bloco soviético. Cuba precisou declarar um "período especial", uma economia de guerra em tempos de paz, onde a revolução teve que se abrir ao dólar e ao turismo.

Cuba não voltou a ser a mesma após aqueles duros anos de escassez, blecautes de 16 horas e traumáticos episódios como a crise migratória dos "balseiros", o aprofundamento da corrupção cotidiana, a reaparição da prostituição ou o chamado problema da "perda de valores".

No século XXI, Fidel encontrou uma tábua de salvação na aliança política e amizade pessoal que teve com Hugo Chávez e a Venezuela, cujo petróleo foi e continua sendo fundamental para o sustento de Cuba, inclusive depois da morte do líder bolivariano, em 2013.

Pouco antes de completar 80 anos, Fidel Castro delegou o poder na prática ao irmão Raúl, após admitir uma grave doença intestinal que ele mesmo declarou segredo de Estado e que o deixou entre a vida e a morte.

Ele se afastou da vida pública e começou a escrever suas famosas "Reflexões" ou artigos de imprensa enquanto Raúl assumia o poder focado na "batalha econômica" e na "atualização do socialismo".

Em seus últimos anos, Fidel Castro, que reapareceu esporadicamente em alguns atos públicos, dedicou-se a analisar questões de índole internacional como o perigo de uma guerra nuclear, o problema da alimentação mundial ou a crise do sistema capitalista.

Nesse período, os cubanos assumiram sua saída do poder e, mais ocupados em resolver o difícil dia a dia do país, se acostumaram a viver sem sua supervisão direta.

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