Polônia e Israel aceitam dialogar sobre lei polêmica relativa ao Holocausto

Nacho Temiño.

Varsóvia, 29 jan (EFE).- Polônia e Israel apostaram nesta segunda-feira pelo diálogo diante da polêmica gerada pelo projeto de lei promovido pelo governo polonês que contempla penas de prisão para o uso do termo "campos de extermínio poloneses", uma iniciativa na qual está em jogo, segundo as duas partes, a "verdade histórica" sobre o Holocausto.

Os chefes de governo dos dois países, Mateusz Morawiecki e Benjamin Netanyahu, trataram do assunto em uma conversa telefônica ontem à noite e decidiram estabelecer contatos imediatos após a troca de declarações públicas durante o fim de semana.

Morawiecki insistiu hoje na mensagem que enviou a Netanyahu: "a Polônia foi atacada e ocupada durante a Segunda Guerra Mundial, por isso não há dúvida de que os poloneses não foram responsáveis pelo Holocausto".

"Os países com experiências dolorosas como Polônia e Israel deveriam se preocupar pela difusão de uma narrativa histórica verdadeira e não falsa", disse Morawiecki, que é formado em História.

Há décadas as autoridades polonesas se esforçam para transmitir a mensagem de que o Holocausto aconteceu, mas que os poloneses foram vítimas, não responsáveis.

O projeto de lei que gerou controvérsia pune com multa e até três anos de prisão o uso do termo "campos de concentração poloneses" e foi aprovado na sexta-feira no Sejm, a Câmara dos Deputados, mas ainda deve passar pelo crivo do Senado.

A iniciativa está especialmente voltada para jornalistas, já que artistas e acadêmicos não poderão ser perseguidos, e afeta todas as pessoas "independentemente das leis vigentes no local onde for cometido o ato", segundo o texto.

São comuns os protestos do governo polonês quando veículos de imprensa estrangeiros usam a expressão "campos de concentração poloneses" para se referir a Auschwitz, um centro de extermínio localizado na Polônia, mas aberto e operado pelos nazistas, onde morreram milhares de poloneses, principalmente judeus, mas também de outras religiões.

Israel mostrou seu mal-estar tanto pela medida como pelo momento escolhido para aprová-la, "particularmente surpreendente e infeliz, na véspera do Dia Internacional do Holocausto ".

Para as autoridades israelenses, o projeto de lei "não ajudará a expor a verdade histórica e pode prejudicar a liberdade de pesquisa, assim como evitar o debate sobre as mensagens históricas e o legado da Segunda Guerra Mundial".

O presidente do Instituto para a Memória Histórica da Polônia, Andzej Pozorski, assegurou hoje que o projeto de lei não dificulta a ação dos pesquisadores e o vice-primeiro-ministro polonês, Jaroslaw Gowin, indicou que não vê necessidade de modificar o texto, já que "a Polônia é um Estado soberano que pode tomar suas próprias decisões".

O presidente do Senado, Stanislao Karczewski, concordou com Gowin ao opinar que a Câmara deveria aprovar a norma sem emendas, sem que isso afete as relações com Israel.

O certo é que a questão é espinhosa e não são poucos os historiadores, entre eles o controverso polonês-americano Jan Gross, que analisaram o papel, às vezes ativo, dos poloneses no assassinato de judeus durante a ocupação nazista, algo que ainda gera muita polêmica no país.

Gross relatou em seu livro "Neighbors: The Destruction of the Jewish Community in Jedwabne, Poland" ("Vizinhos: A Destruição da Comunidade Judaica em Jedwabne, Polônia", em tradução livre) um dos episódios mais vergonhosos da história da Polônia, quando os habitantes "gentis" do povoado de Jedwabne trancaram em um palheiro seus vizinhos judeus, mulheres e crianças incluídos, e os queimaram vivos diante do olhar impassível dos ocupantes nazistas.

Segundo este historiador, até 1.600 judeus morreram queimados em Jedwabne.

No entanto, milhares de poloneses arriscaram suas vidas para ajudar judeus perseguidos, como a família Ulma, cujos oito integrantes foram assassinados pelos nazistas em 1944 por tentarem salvar um grupo de judeus.

O diretor do museu dedicado à família, Mateusz Szpytma, explicou à Agência Efe que, graças aos poloneses gentis que se arriscaram, "entre 30 e 40 mil poloneses de religião judaica conseguiram escapar da perseguição nazista".

"Os alemães assassinavam os judeus e os poloneses que os ajudavam e, apesar disso, houve poloneses que arriscaram suas vidas para ajudá-los, mas também não se pode esquecer que houve situações contrárias e cruéis, e isso não temos motivos para negar", reconheceu Szpytma.

Em meio ao debate e no contexto da proposta bilateral de diálogo, a presidência polonesa convocou hoje a embaixadora israelense em Varsóvia, Anna Azari, para aproximar posições.

"Israel, assim como a Polônia, quer corrigir os erros históricos e falar só de campos de concentração alemães nazistas, mas está triste porque a polêmica gerada supõe uma espécie de triunfo da ideologia nazista", disse Azari aos veículos de comunicação poloneses.

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