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Internacional

Família de cadete morto tenta acabar com abusos no exército da Tailândia

25/02/2018 10h01

Noel Caballero.

Bangcoc, 25 fev (EFE).- A morte do cadete Pakapong Tanyakan enquanto participava de um treinamento militar deixa como legado um processo judicial, aberto pela família, que pretende terminar com a cultura de castigos físicos e abusos no exército da Tailândia.

"É raro quando denúncias de abuso militar se tornam públicas e o Tribunal Penal é o órgão mais competente para estudar estes casos, ao invés da corte militar regida por eles mesmos", disse à Agência Efe Pornpen Khongkachonkiet, diretora da Cross Cultural Foundation, que presta assistência jurídica a vítimas e familiares.

Desde outubro, quando o jovem de 18 anos morreu, os relatórios das duas autópsias feitas não foram divulgadas. Enquanto o exército diz que o rapaz - sem problemas de saúde conhecidos - morreu por um "problema cardíaco repentino", a família suspeita do tratamento brutal que ele recebia no acampamento onde ele estava em Nakhon Nayok, no nordeste de Bangcoc.

A polícia informou no início de fevereiro que a família, que tenta evitar um circo midiático, vai dar continuidade ao processo que move contra os supostos responsáveis pela morte de Pakapong, mas não deu detalhes.

Dias antes da morte, o militar tinha relatado aos pais a violência física à qual era submetido na academia e os abusos que sofria dos veteranos.

Esse não é primeiro caso de castigos corporais que acabaram em morte na academia.

"O corpo militar sabe o número exato de mortos e denúncias, já que cada vítima tem direito a receber uma indenização, mas é um órgão pouco transparente e a maioria das vezes esse valor é dado em acordos privados mediante a intimidação de familiares", disse Pornpen.

Em todos os casos o exército negou qualquer envolvimento, mas após a morte de Pakapong pelo menos quatro oficiais foram transferidos do alojamento.

O general Prawit Wongsuwan, ministro de Defesa da Tailândia e membro da junta militar que tomou o poder com um golpe de Estado em maio de 2014, admitiu que ele também sofreu abusos quando estava na academia, há mais de 50 anos, mas que não morreu por causa disso.

Mas para Angkhana Neelaphaijit, representante da Comissão Nacional para os Direitos Humanos, a força excessiva dos castigos disciplinares pode ser constituído como ato de tortura.

Recomendações que o primeiro-ministro, Prayut Chan-ocha, ignorou ao questionar à imprensa: "Que mal tem nisso? Eu passei pelo mesmo!", em referência aos castigos.

De acordo com a versão militar, Pakapong desmaiou em 16 de outubro durante uma prática rotineira e foi levado a uma unidade médica. Após receber alta um dia depois, o jovem desmaiou outra vez e morreu a caminho do hospital.

Os militares entregaram os restos mortais à família no final de outubro para a cremação, como orienta o rito budista, mas diante das suspeitas, o corpo foi tirado secretamente do crematório para uma nova análise forense que informou sobre o desaparecimento de vários órgãos vitais - entre eles o cérebro e o coração -, fraturas ósseas e marcas de golpes.

O escândalo fez o exército recuar e devolver as partes, alegando tê-las guardado para futuros exames médicos.

Em meados de dezembro, a família concluiu o ritual fúnebre e disse que preferia não anunciar os resultados da segunda autópsia, que também aconteceu entre numerosos problemas por falta de recursos médicos.

Desde então, os familiares, que não falam com a imprensa desde novembro, se reuniram em várias ocasiões com representantes militares e insistem em levar o caso aos tribunais.

"Quando as famílias nos procuram elas sempre querem que seu parente 'seja a última vítima', mas os casos continuam. As famílias querem justiça, não dinheiro. Espero que a decisão sobre a morte de Pakapong marque um precedente", concluiu a especialista.

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