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Indignados, familiares de vítimas exigem respostas à tragédia de Brumadinho

28/01/2019 16h02

Carlos Meneses Sánchez.

Brumadinho (MG), 28 jan (EFE).- A comoção inicial começa a se transformar em indignação na cidade de Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, onde os familiares das vítimas exigiram nesta segunda-feira respostas à tragédia cujos números estão até agora em 60 mortos e 292 desaparecidos.

"A Vale só olha para o dinheiro, para eles a vida não tem valor", disse à Agência Efe Paulo Renato Oliveira, de 29 anos, às portas do centro de assistência para as vítimas, onde colaboram diariamente cerca de 150 voluntários, entre médicos, psicólogos e integrantes de organizações não-governamentais.

Ali a informação é passada a conta-gotas e hoje os familiares demonstraram sinal de esgotamento. "Quatro dias para entrar em uma lista de desaparecidos", reclamava entre lágrimas uma senhora a um policial.

"Minha família acabou, como querem que eu reaja?!", gritava desesperada, enquanto o agente tentava deixar a sala entre os protestos de outros afetados pela tragédia.

"É um absurdo, uma vergonha!", exclamava outra mulher ao longe.

Oliveira está, no seu caso, desde sexta-feira neste centro de assistência - só vai em casa para dormir e tomar banho - na busca de alguma informação sobre o paradeiro do seu irmão de 27 anos, que trabalhava temporariamente como soldador no complexo de mineração da Vale, hoje sob uma espessa camada de lama.

A ruptura de um dique de contenção que continha água e resíduos minerais destruiu totalmente as instalações que a Vale tinha nessa área, e com ela a vida de centenas de famílias.

A poucos quilômetros do centro, os bombeiros continuam a árdua e complexa tarefa de resgatar vítimas e possíveis sobreviventes sob a camada de lama, que em alguns pontos chega a 20 metros de profundidade. Cada operação leva horas.

Durante esta segunda-feira, um grupo de 15 bombeiros identificou uma espécie de caminhonete no meio da lama e conseguiu desenterrar uma parte dela para depois cortar o chassi do veículo e resgatar possíveis vítimas.

As autoridades brasileiras contam a partir de hoje com o apoio de 136 soldados israelenses para auxiliar nos trabalhos de resgate, fruto da nova aliança entre o presidente Jair Bolsonaro e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

No âmbito judicial, a procuradora-geral, Raquel Dodge, autorizou a atuação de peritos do Ministério Público no terreno e ressaltou a necessidade de "promover a persecução penal de pessoas e indivíduos que precisam ser responsabilizados".

Além disso, a Justiça do Trabalho ordenou o bloqueio de outros R$ 800 milhões da Vale, que já acumula cerca de R$ 12 bilhões em embargos como consequência de ações interpostas pelo governo de Minas Gerais e pelo Ministério Público.

As ações da companhia chegaram a desabar mais de 20% durante o pregão de hoje na bolsa de São Paulo e a empresa anunciou que suspendeu o pagamento de dividendos e de bônus a executivos.

"O mínimo que podem fazer é prender o presidente (da Vale, Fabio Schvartsman)", disse à Efe Natália Farina, gerente do Hotel 70, no centro de Brumadinho.

Hoje, nesta cidade arrasada emocionalmente, é muito difícil não encontrar com alguém afetado pelo desastre. No caso de Natália, ela procura seu cunhado.

Wilson Joaquim da Fonseca, de 48 anos, segue sem notícias da sua filha, que trabalhava na pousada Nova Estância, apagada completamente do mapa após a passagem do rio de lama. A estimativa é que, no momento da catástrofe, havia 35 pessoas no hotel.

"Tudo é uma irresponsabilidade. Era algo que estava anunciado e ninguém fez nada, ninguém fez nada", lamentou Fonseca.

"A Vale só faz cagada, para ele (Schvartsman) as pessoas são uma coisa que se repõe a toda hora. Morreu um, eles contratam outro e o colocam lá", criticou indignado.

A Efe solicitou uma entrevista com algum porta-voz da Vale que se encontrasse no centro de assistência às vítimas, mas a assessoria informou que, por enquanto, não havia ninguém disponível para falar.

Esta tragédia aconteceu três anos depois da ocorrida perto da cidade de Mariana, também em Minas Gerais e onde o rompimento de diques da empresa Samarco, da qual a Vale possui 50%, provocou a morte de 19 pessoas e o maior desastre ambiental da história do Brasil.

Schvartsman é presidente de Vale desde 2017 e um de seus lemas ao assumir o cargo foi "Mariana nunca mais". EFE