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Garimpo ilegal cresce e cerca os yanomami em sua própria terra, aponta relatório

Isolados Yanomami em registro feito em 2019 pela Funai - CGIRC/Funai
Isolados Yanomami em registro feito em 2019 pela Funai Imagem: CGIRC/Funai

Lisandra Paraguassu

11/04/2022 10h26

Ilegal, mas estabelecido, o garimpo na Terra Indígena Yanomami cresceu 46% em 2021, depois de já ter aumentado 30% no ano anterior, em um avanço desordenado que leva à criação de vilas inteiras, com direito a mercados, pousadas e internet, e traz destruição, doenças e violência para dentro da maior terra indígena do país.

Os dados são do relatório "Yanomami sob Ataque!", preparado pela Hutukara Associação Yanomami, com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), e que traz relatos de medo, dor e desespero dos indígenas.

Entre 2016 e 2020 o ataque à terra indígena já havia explodido: um aumento de 3.350% nos registros de operações ilegais em apenas quatro anos, seguindo a crise orçamentária e de desinteresse na proteção das terras indígenas que deixou agências ambientais sem recursos e sem pessoal e enfraqueceu os postos de atendimento aos indígenas dentro das terras yanomami.

O relatório, que mostra fotos aéreas e de satélites das ocupações, aponta que 273 das 350 comunidades indígenas e 16 mil indivíduos dentro das terra yanomami estão sendo afetadas pela invasão do garimpos, que se profissionalizam, com apoio de transporte aéreo, internet e cidades criadas a beira dos rios.

Até dezembro do ano passado, eram 3.272 hectares de destruição, quase três vezes o registrado em 2018, quando o monitoramento do ISA foi iniciado.

Na busca pelo ouro, os acampamentos garimpeiros passaram de um amontoado de barracos para estruturas que contam com casas, mercados, bordéis, consultórios de dentistas e até internet.

Uma dessas vilas foi alvo de uma operação da Polícia Federal em março de 2021, no garimpo conhecido como "Fofoca de Cavalo". Ali, os policiais encontraram cerca de 2 mil pessoas em um território com toda essa estrutura, além de lanchas e até um helicóptero. Ao longo do ano, mais três operações destruíram a estrutura de outros garimpos e chegou-se a aprender 11 aeronaves.

Cinco dias depois da última delas, próximo ao encontro dos rios Auaris e Parima, aviões e helicópteros traziam de volta garimpeiros, material, motores e chapas de metal para construção de novas balsas para o lugar das destruídas pela polícia.

"A deflagração destas operações são passos importantes para o controle da atividade ilegal. Entretanto, a persistência do garimpo e a sua ampliação em 2021 atestam que este tipo de ação, realizada de maneira esporádica e isolada, é insuficiente para conter o avanço da atividade", diz o relatório.

"O garimpo de ouro é hoje uma atividade empresarial que depende de altos investimentos. Portanto, a lógica por trás da atividade é uma lógica essencialmente econômica: enquanto os retornos forem maiores do que os riscos, sempre haverá quem queira investir."

A lógica econômica faz com que os garimpeiros invistam em estrutura para manter sua ação nas terras yanomami, apontando para uma ação que está longe de ser o garimpo artesanal e individual. Um dos indícios é o investimento em internet.

"Atualmente todos os acampamentos, não só no Uraricoera, contam com antenas de internet, seja ela via rádio ou via satélite. O serviço é oferecido livremente nas redes sociais, e é comercializado por empresas de Boa Vista que chegam inclusive a oferecer seus funcionários para realizar a instalação nos acampamentos", contam os pesquisadores.

A distribuição farta de antenas nos acampamentos garimpeiros leva a uma situação insólita: os próprios indígenas não conseguem adquirir os pacotes de internet para instalarem em escolas ou postos de saúde porque estão todos instalados nos garimpos.

A internet atende uma necessidade de comunicação além do dia a dia: serve para que os garimpeiros, e suas conexões fora dali, alimentem uma rede de informações, via WhatsApp e outras redes sociais, para avisar sobre a iminência de operações policiais.

"Helicóptero do Exército circula o Uraricoera", e "carro do Ibama passou pela rodovia 332" são algumas das mensagens trocadas pelos garimpeiros, de acordo com o documento.

As investigações da Polícia Federal em decorrência das operações apontam para uma lógica empresarial que sai das entranhas do garimpo e chega à capital de Roraima, Boa Vista. O dinheiro obtido com a venda de ouro ilegal abastece o comércio legalizado de Boa Vista, segundo o relatório.

"O garimpo dos dias atuais é uma atividade financiada por empresários com alta capacidade de investimento e que concentram a maior parte da riqueza extraída ilegalmente da floresta yanomami. Investigações da Polícia Federal revelaram que estes empresários são membros da elite econômica local ou figuras de outros Estados com operações em Roraima", diz o estudo.

O dinheiro ilegal é lavado na criação de mercados, restaurantes e outros negócios legais na capital do Estado.

A falta de fiscalização, a legislação falha e alto preço do ouro atraem para o garimpo grupos criminosos organizados. Investigações na região dão conta da atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) no fornecimento de equipamentos, armas e segurança para os garimpos, segundo o relatório.

Há indícios de que uma lavra no lado venezuelano da reserva, operada por grupos criminosos venezuelanos, seria abastecida com mercadorias por empresários brasileiros, afirma o documento.

Doenças, desnutrição e miséria

Enquanto o garimpo alimenta a riqueza dos homens brancos de Roraima, dentro da reserva yanomami sobra miséria.

Boa porte dos postos de saúde que existem dentro da reserva hoje estão sem atendimento. A circulação de garimpeiros aumenta o contato dos índios com doenças como malária, Covid-19 e outras contra as quais eles tem pouca capacidade de resistência.

Apenas em uma das regiões foram registrados, em 2020, 1800 casos de malária — a comunidade é formada por 900 indígenas, mostrando que houve em média duas contaminações por pessoa.

A desnutrição infantil passa de 60% em uma das comunidades e chega a quase 80% em outra.

As doenças que acometem os pais os impedem de atender adequadamente as necessidades alimentares das famílias. Somado à poluição dos rios e a ocupação de terras tradicionais, a alimentação de adultos e crianças é atingida duramente.

"Os yanomami fadigam em cultivar suas roças, mas os (garimpeiros) desejosos de ouro devastam suas roças. É verdade. Se houver ouro onde tem uma roça, eles não perguntam primeiro para os yanomami: 'Quem abriu aquela roça?'. Eles, depois de instalar suas dragas sem perguntar, eles devastam as roças com os alimentos plantados, por isso os yanomami ficam angustiados", mostra o relato de um yanomami citado no relatório.

Estupros de jovens e crianças e "casamentos" forçados em troca de comida também desestruturam a vida dos indígenas, com o aumento de doenças sexualmente transmissíveis e mortes de adolescentes.

"À medida que os núcleos garimpeiros ilegais se proliferam e crescem nas diferentes regiões da TIY, as comunidades vizinhas sentem a perda do controle sobre o seu espaço de vida. Isso porque a insegurança os dissuade de circular pela região, seja em razão de ameaças explícitas de garimpeiros contra suas vidas, seja em razão da simples presença hostil de não-indígenas", conclui o relatório.

Donos da maior terra indígena do país, com 9.664.975 hectares —um fato constantemente criticado pelo presidente Jair Bolsonaro— os yanomami perdem a liberdade dentro do seu próprio território.