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Trump institui toque de recolher em Washington e ameaça mobilizar militares para conter protestos

Presidente norte-americano citou "desordem" e quer que governos locais "dominem as ruas" - Mandel Ngan/AFP
Presidente norte-americano citou "desordem" e quer que governos locais "dominem as ruas" Imagem: Mandel Ngan/AFP

Ligia Hougland, correspondente da RFI em Washington

02/06/2020 07h26

Depois de várias noites de protestos em reação à morte de George Floyd, o presidente americano, Donald Trump, instituiu toque de recolher em Washington e anunciou o envio de forças de segurança às cidades onde os governos locais não conseguem controlar o caos. Para democratas e opositores, o líder republicano está usando os militares contra a própria população.

Trump declarou ser o presidente da "lei e da ordem" e afirmou que é preciso que os governos locais "dominem as ruas". O presidente ameaçou enviar tropas armadas para conter as manifestações. Também deixou claro que apoia protestos pacíficos e condenou a morte de George Floyd.

"O que aconteceu na cidade ontem à noite é uma desonra absoluta", disse Trump em discurso proferido na Casa Branca, ao mesmo tempo em que a polícia dispersava um protesto a poucos metros da sede do Executivo americano. "Estou enviando milhares e milhares de soldados fortemente armados", reiterou.

O presidente americano vinha sendo alvo de críticas até mesmo dos seus mais leais apoiadores por, até então, não ter se manifestado de modo significativo quanto ao caos em que o país se encontra e ter apenas "se escondido no bunker da Casa Branca", conforme alguns diziam. Por isso, um pronunciamento demonstrando liderança era especialmente importante nesse momento.

Trump aproveitou a oportunidade para caminhar até a igreja Saint John, que foi alvo de vândalos na noite de domingo (31). Em uma cena insólita, o presidente posou para câmeras,, enquanto exibia uma bíblia sob vários ângulos. Mas o presidente, sem dúvida, sabe se comunicar com seus eleitores, e muitos americamos comentaram nas redes sociais que se comoveram com o ato.

Depois do pronunciamento do seu rival, o candidato democrata à presidência, Joe Biden, repetiu a crítica de toda a oposição, ou seja, que Trump estava usando a força militar contra a própria população. Trump invocou a Lei de Insurreição, utilizada pela última vez em 1992, também devido a protestos violentos como reação à brutalidade policial contra o jovem negro Rodney King, em Los Angeles.

Tucker Carlson, âncora do programa de maior audiência da TV a cabo americana, que tende a ser mais simpático aos republicanos, fez duras críticas a Trump depois do pronunciamento. Segundo ele, o presidente só pensa em si mesmo e que segue as péssimas recomendações do seu genro, Jared Kushner, marido de Ivanka Trump.

O jornalista declarou que Kushner tem imenso desprezo pelos eleitores de Trump e não tem interesse em protegê-los. Nos bastidores de Washington, comenta-se que Trump presta atenção ao que Carlson diz, pois sabe que sua base tem o jornalista como mentor intelectual. Ou seja, o líder republicano pode correr um risco maior de não se reeleger se continuar tendo o genro como um dos seus principais assessores.

Protestos ameaçam reeleição de Trump

No início do ano, o presidente americano se encontrava em uma posição favorável à sua reeleição, com uma economia forte e pesquisas indicando que os americanos, de modo geral, se sentiam satisfeitos com suas vidas. Mas a situação mudou drasticamente com a pandemia do coronavírus causando enormes prejuízos à economia e, agora, com dias seguidos de protestos violentos.

Neste momento, os Estados Unidos passam por uma séria crise de falta de liderança em todos os níveis governamentais. O sentimento de revolta contra a brutalidade policial que causou a morte de Floyd é praticamente unânime, independentemente de afiliação partidária. Também é disseminada a frustração com a incapacidade de os governos locais conterem os atos de violência e vandalismo que estão acontecendo pelo país.

Apesar de o sentimento de revolta quanto a violência policial e injustiça social ser generalizado e se traduzir em protestos pacíficos durante o dia, é uma minoria que invade as ruas à noite para saquear estabelecimentos comerciais, causar incêndios e violência. Nessa segunda, Terrence Floyd, irmão da vítima dos policiais de Minneapolis, fez uma apelo pedindo o fim das manifestações que não eram pacíficas, dizendo que os atos de desordem e violência não representavam seu irmão.

As cidades que mais têm sofrido nos últimos dias são cidades com líderes do partido democrata - como Nova York, Los Angeles, e Filadélfia, além de Minneapolis. Na segunda (1), o governador democrata de Nova York, Andrew Cuomo, disse que não precisava da ajuda da Casa Branca e que os protestos eram apenas manifestações de jovens idealistas. Isso não foi recebido bem por quem viu seu negócio destruído ou está trancado em casa assistindo ao caos. No entanto, muita gente sonha com uma volta ao "normal", com políticos de carreira na Casa Branca e livre da força disruptiva representada por Trump.

Quem está por trás do vandalismo

Ainda não foi definido quem está liderando os grupos responsáveis pelo caos generalizado, nem mesmo se há realmente uma liderança específica. Há vídeos em redes sociais mostrando ativistas negros confrontando vândalos, que são jovens de todas as etnias, e pedindo que parem com a desordem, pois além de serem contra esses atos, temem que a sua comunidade negra culpada por isso.

Os democratas aproveitam para dizer que os vândalos e saqueadores são membros de grupos de supremacia branca que apoiam Trump. Já os republicanos dizem que a desordem está sendo promovida por democratas que querem que o país fique no pior estado possível até as eleições de novembro. Além disso, nas redes sociais muitos promovem a teoria de que o caos esteja sendo incentivado pelo bilionário George Soros por meio de suas fundações Open Society, que financiam ativistas no mundo todo.

Um grupo que tem presença nesses protestos violentos é o Antifa, que diz combater o fascismo, mas há alguns anos se manifesta de forma frequentemente intimidadora e violenta. Nesta semana o Antifa foi designado pelo governo americano como uma organização que promove terrorismo doméstico.

Bill Barr, procurador-geral da república, anunciou que vai investigar quem financia o grupo. Em algumas cidades, vândalos estavam recebendo remessas de tijolos, garrafas de vidro e materiais para causar incêndio, o que mostra uma certa organização por trás do caos.

Sentimento unânime de revolta

Há uma revolta enorme da população, principalmente minorias, contra o uso de violência desnecessária da polícia americana. Além disso, os meses de confinamento - que resultou em 40 milhões de desempregados - fizeram que a frustração dos americanos aumentasse. Também houve uma mudança na opinião pública quanto às autoridades policiais. Até recentemente, os eleitores conservadores eram sempre a favor da polícia, mas agora esse apoio não é mais tão grande.

Na noite madrugada desta terça-feira, apesar dos toques de recolher e a situação estar mais contida pelas autoridades, ainda confrontos entre polícia e manifestantes foram registrados em cidades como Washington, Nova York e Seattle. As tensões raciais que pareciam ter diminuído nos anos 1990, aumentaram bastante na última década, mesmo com os americanos tendo duas vezes dado a presidência a Barack Obama, o primeiro presidente americano negro.

Alguns acreditam que uma maneira de atenuar essa tensão seria por meio de reparações monetárias aos afro-americanos, enquanto que outros defendem que a única maneira de chegar a um convívio positivo é se todos apenas passarem a se ver como americanos, ignorando diferenças étnicas e injustiças passadas. Apesar de ser um país relativamente jovem, os Estados Unidos, em quase 250 anos de história, já sobreviveram a muitas crises e devem superar mais essa. Mas nos próximos cinco meses, até as eleições presidenciais em novembro, a tensão não deve diminuir.

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