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Covid-19: superlotados, crematórios na Índia incineram corpos a céu aberto

Parentes coletam os restos mortais de vítimas do coronavírus após cremação em massa em Nova Déli, na Índia - Tauseef Mustafa/AFP
Parentes coletam os restos mortais de vítimas do coronavírus após cremação em massa em Nova Déli, na Índia Imagem: Tauseef Mustafa/AFP

Sébastien Farcis

Correspondente da RFI em Nova Déli

30/04/2021 08h01

A Índia continua lutando contra o aumento de casos de covid-19. O país bateu um novo recorde mundial, com 379 mil novos casos nas últimas 24 horas e 3.600 mortes. O número de vítimas dobrou em dois dias. Em Nova Déli, a cidade mais atingida do país, os crematórios têm dificuldades para atender todas as famílias.

Cerca de quinze ambulâncias esperam há horas no estacionamento do crematório de Sarai Kale Khan, no sul de Nova Déli. Dentro do veículo, corpos são colocados em sacos plásticos herméticos de cor branca. Vikas Kumar Gupta, um dos motoristas, está cansado e exibe grandes olheiras.

"Transportamos poucas pessoas doentes agora em nossas ambulâncias. Somos chamados apenas para trazer os defuntos para cá. Trabalhamos sem parar 24 horas por dia, mal tenho tempo de ver minha família", diz.

Mukesh Kashyap acaba de incinerar sua esposa, de 38 anos, que havia morrido poucas horas antes, vítima da Covid-19. "Não achamos oxigênio", conta. "Fomos aos maiores hospitais particulares da cidade e finalmente um pequeno hospital me fez pagar 55 euros por uma hora de oxigênio. Com o oxigênio, ela melhorava, mas depois, os sintomas voltaram. Tentamos achar um leito, mas ela não resistiu. Os médicos não puderam salvá-la", conta, arrasado.

Número de cremações aumentou cinco vezes

Os crematórios não têm dado conta da demanda. Em duas semanas, o número de cremações aumentou cinco vezes. A prefeitura da cidade está tentando aumentar a capacidade, construindo incineradores na grama, do lado de fora dos estabelecimentos. "Temos quarenta funcionários que trabalham comigo. Faz 20 dias que começamos, trabalhamos sem parar", afirma.

No total, 50 incineradores de cimentos foram instalados debaixo das árvores, a céu aberto. "90% das pessoas são vítimas da covid-19", diz Sunil Kumar, responsável pelo local. "É complicado gerenciar esse aumento. Temos problemas para gerenciar a alta e dificuldade para achar tanta madeira. Também falta material por conta do lockdown. Apesar disso, conseguimos gerenciar tudo por conta da energia dos nossos funcionários."

Em 15 dias, mais de 3.700 pessoas morreram vítimas da doença na capital.