'É perigoso considerar o Hamas como sinônimo do povo palestino', diz especialista

Natália Calfat, doutora em ciência política e pesquisadora do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano da USP, disse à RFI que os ataques do Hamas vieram num momento em que países árabes de peso, como a Arábia Saudita, caminhavam para uma normalização das relações com Israel.

Essas tratativas não acabam, mas "sobem no telhado", por enquanto. Ela diz que ainda é cedo para avaliar o novo jogo de forças na região e também prever até quando se estenderá o conflito.

"Há uma diferença de forças importante entre Israel e Hamas, mas há também uma possibilidade de abertura de diferentes fronts. A gente viu as tensões aumentando na fronteira norte de Israel com o sul do Líbano. Então há possibilidade de que essa escalada aumente e o Hezbollah, que atua no Líbano, eventualmente participe disso. E há a possibilidade de abertura de um front nas colinas de Golã com a Síria", explicou Calfat.

"Eu lembraria que Israel ainda bombardeia a Síria para atacar alvos iranianos, numa espécie de guerra velada. O Oriente Médio é um palco bastante frequente de 'guerras por procuração'. Isso, claro, fortaleceria o pleito do Hamas, mas, como em qualquer guerra, a abertura de fronts também pode ser custosa. O Irã tem apoiado indiretamente, fornece armas e treina milícias em vários países, mas não parece que irá participar diretamente e abertamente do conflito", acrescenta.

Impacto em outras regiões

O analista Luís Renato Vedovato, doutor em Direito Internacional e professor da Unicamp afirma que a instabilidade no Oriente Médio pode se refletir em outras regiões.

"Esse conflito já existe há muito tempo. Mas com os ataques mais explícitos, nessa situação de guerra que estamos vendo agora, desta vez o confronto tende a ser mais longo. Eu não consigo agora imaginar quanto tempo vai durar, mas eu diria que ele durará bastante, o que pode prejudicar inclusive planos da Ucrânia. É que a Ucrânia, como sendo a única vítima da vez, levava todos os holofotes, conseguia angariar recursos para se defender contra Rússia", analisa.

Umas das perguntas é se a pressão internacional poderia amainar o contra-ataque israelense e mesmo fazer o governo de Netanyahu recuar no avanço de suas colônias sobre terras palestinas. Analistas consideram improvável esse curso, mesmo diante das cenas trágicas envolvendo civis de ambos os lados. O pensamento predominante na região é de que mostrar força é questão de sobrevivência.

Luis Vedovato avalia que um processo de pacificação pressupõe a desidratação de grupos terroristas como o Hamas, mas não enxerga disposição das partes para um quadro menos bélico.

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"Esse cenário vai ser menos pautado pela busca de paz e mais pautado pela busca por vingança. E fora da região, penso que o mundo ficará mais inseguro pela possível atuação desses grupos, que estão tendo grande visibilidade, em outras partes do mundo".

"O Brasil talvez possa ajudar atuando de forma equilibrada no Conselho de Segurança da ONU, mas certamente a China pode ter um papel mais eficaz. Se a China conseguir evitar que outros países continuem a dar apoio ao Hamas, ela poderá minar o fluxo de recursos para esse grupo", disse o professor da Unicamp.

Hamas e os palestinos

Natália Calfat disse que a comunidade internacional está dividida e ressalta o perigo de considerar o Hamas como sinônimo do povo palestino. "De fato, parte da comunidade internacional vê essa situação como absolutamente insustentável e enxerga essa ação radical num contexto em que as reivindicações foram ignoradas anos após anos. Mas há uma outra parcela da população que não enxerga dessa forma", avalia a especialista.

"Os palestinos vivem sem infraestrutura em Gaza, com nível de pobreza bastante alto. Claro que as ações do Hamas de forma nenhuma respondem ao desejo da maioria da população palestina, mas sim respondem a um anseio que não está sendo respondido de outra forma. Isso não significa justificar a violência, de jeito algum, mas responde a uma necessidade que, de outra forma, não está sendo atendida", acrescenta.

"Então, por um lado isso pode demonstrar a necessidade de que Israel retroceda a ocupação e o regime de segregação que existe, mas, por outro lado, isso também fortalece a narrativa de desumanização do outro, porque, se a única forma de enxergar o outro é enquanto violento, enquanto terrorista, isso é bastante perigoso, porque o Hamas não representa a maioria da população palestina. E isso também é perigoso porque essa narrativa inviabiliza várias outras formas de resistência palestina, quer seja pacífica, cultural, política, e assim por diante", completou a pesquisadora da USP.

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