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Como bactéria cultivada em laboratório ajuda o Brasil a controlar epidemia de dengue

O Brasil enfrenta uma epidemia de dengue sem precedentes: mais de 2 milhões de casos já foram registrados desde o início do ano, e o Ministério da Saúde estima que o número chegará a 4,2 milhões até o final de 2024. Nesse cenário, em que uma vacina continua em estágios iniciais, a bactéria Wolbachia poderia ser uma solução.

Ela é "cultivada" no Instituto Fiocruz, no Rio de Janeiro. Quando transmitida aos mosquitos Aedes aegypti, transmissores da dengue, ela inibe a disseminação do vírus. No laboratório de criação de mosquitos do Programa Mundial de Mosquitos, o biólogo Diogo Chalegre explica: "Como você pode ver, está bastante quente nesta sala. Essa alta temperatura simula a temperatura ambiente ideal para o melhor desenvolvimento das larvas".

As espécies Aedes aegypti, portadoras da bactéria Wolbachia, ou "wolbitos", como são conhecidas, são cultivadas em grandes gaiolas de mosquitos. Para essas espécies, que transmitem os vírus da dengue, chikungunya e zika, a presença da bactéria impede a transmissão dos vírus.

"Essa bactéria está presente na natureza, em mais de 50% dos insetos, como abelhas, formigas e borboletas, mas o Aedes aegypti não a possui", explica Diogo Chalegre.

Os cientistas retiraram essa bactéria da mosca-das-frutas, a Drosophila, e a inseriram nos ovos do Aedes aegypti. A bactéria é integralmente transmitida da fêmea para sua prole, o que torna o método permanente.

Essa manipulação, que teve origem na Austrália, está sendo aplicada atualmente no Brasil. Em parceria com o Ministério da Saúde, cinco cidades fazem experiências com ele e outras sete começarão em 2024.

Trata-se de uma escolha política, já que o investimento é considerável para as prefeituras brasileiras. "Hoje, calculamos que o método custa entre R$ 30 e R$ 50 por habitante. Mas esse não é um valor a ser pago por ano. O gasto é feito de uma vez por todas", acrescenta Diogo Chalegre.

Niterói, cidade coberta pela Wolbachia

A cidade de Niterói foi a primeira a ser 100% coberta pelo método Wolbachia, em 2023. O experimento começou em 2015, bairro a bairro.

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Os números são positivos: os casos de dengue caíram 70%. Para que a cidade seja coberta, os Wolbitos precisam ser liberados nas ruas da cidade - o que às vezes pode assustar os moradores.

Raíssa Vieira é agente comunitária de saúde na favela Atalaia, em Niterói, e tem trabalhado para informar os moradores locais. Nas favelas, o risco de propagação da dengue é ainda maior: "As casas são muito próximas umas das outras e praticamente não há rede de esgoto. Há esgotos a céu aberto, água estagnada e buracos na rua onde a água pode se acumular. Essas são áreas em que o governo precisa redobrar a atenção", diz.

"No início, houve um pouco de resistência", explica Vieira. "Os moradores acharam estranho, dizendo 'já tem muito mosquito aqui, vocês vão trazer mais ainda?' Mas explicamos que os mosquitos que iríamos liberar nos permitiriam acabar com a dengue", afirma.

Medidas preventivas e campanhas de conscientização

Ela ressalta que a presença da bactéria Wolbachia não significa que não devam ser tomadas medidas preventivas para evitar a proliferação de mosquitos.

Aos 73 anos, Bertoldo e sua esposa, Rita, mantêm a casa em perfeita ordem. "Depois da chuva, temos muito trabalho doméstico devido à dengue. Limpo os ralos e as calhas. Já estou com a escada pronta para ir limpar a calha", conta Bertoldo.

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Mas esses moradores lamentam a irresponsabilidade de seus vizinhos, que têm cisternas abertas que podem se tornar criadouros de mosquitos. Na opinião deles, cabe às autoridades estaduais e municipais investir mais em uma campanha de informação e conscientização, uma vez que a dengue é um assunto que "interfere na vida de todos".

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