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Pela 1ª vez, brasileiro que mora no Brasil assume cadeira no Senado italiano

Arquiteto e urbanista brasileiro Fausto Longo, 60, eleito com cerca de 30 mil votos  - Arquivo pessoal
Arquiteto e urbanista brasileiro Fausto Longo, 60, eleito com cerca de 30 mil votos Imagem: Arquivo pessoal

Eduardo Schiavoni

Do UOL, em Americana (SP)

15/03/2013 15h29

O arquiteto e urbanista brasileiro Fausto Longo, 60, nascido em Amparo (133 km de São Paulo), tomou posse hoje como senador na Itália. Eleito com cerca de 30 mil votos, Longo assume uma das duas cadeiras a que o Parlamento Italiano oferece aos ítalo-descendentes da América do Sul no Senado italiano --somente os habitantes do continente com cidadania italiana têm direito a voto para escolher o ocupante do cargo. Da mesma forma, somente pessoas com cidadania italiana podem ser votados. É a primeira vez que um brasileiro que mora no Brasil ocupará o posto.

Eleito por um partido de centro-esquerda, o PD (Partido Democrático), Longo apoiou Pier Luigi Bersani para ocupar o cargo de primeiro-ministro da Itália, que recebeu a maioria dos votos na Câmara e no Senado. No entanto, como o PD não conseguiu maioria absoluta dos votos, a composição do governo ainda depende de acordos com outros partidos.

Longo assume o mandato –-de quatro anos-– com a missão de representar a colônia italiana na América do Sul. Vivendo atualmente em Piracicaba (160 km de São Paulo) –-cidade da qual é cidadão e na qual já foi vereador - estão a promoção de intercâmbio entre jovens brasileiros e italianos, eliminar a fila para obtenção da cidadania italiana no Brasil e aprovar uma lei que introduz nas escolas italianas o estudo obrigatório das migrações e presenças italianas no mundo.

“A responsabilidade que estamos assumindo amplia nosso comprometimento com as causas nas quais acreditamos e que são necessárias para recolocar a Itália no caminho”, afirmou Longo.

Além da experiência legislativa, o ítalo-brasileiro é formado em arquitetura e urbanismo pela PUC-Campinas (Pontifícia Universidade Católica de Campinas), já foi secretário de Turismo de Piracicaba, coordenador de comunicação do Ministério da Ciência e Tecnologia e delegado da Embratur (Empresa Brasileira de Turismo).

"Minha vida é Piracicaba. Toda a minha formação política e a maioria da minha vida profissional foram na cidade. Se você abre uma lista telefônica de Piracicaba hoje, 70% dos nomes são italianos. É Gianetti, Vitti, Stênico, Dedini, um monte de nomes que construíram e participaram da construção da história da cidade", disse.

Eleições

A Itália é o único país que reserva vagas em seu parlamento para representantes fora de seu território. No Brasil, os cidadãos italianos inscritos no AIRE (Anagrafe dos Italianos Residentes do Exterior) votam por correspondência. Os consulados enviam a cédula por correio, a cada eleitor, um envelope contendo um documento explicativo e o material necessário para a votação.

Por meio do voto, os italianos residentes na América do Sul participam ativamente da vida democrática da Itália, podendo eleger quatro deputados e dois senadores. São cerca de 60 mil ítalo-descendentes vivendo na América do Sul, a maior comunidade italiana do mundo. O UOL conversou com o senador italiano. Leia abaixo.

UOL - Qual será a sua prioridade no Parlamento?

Fausto Longo - Meu objetivo é compreender e dominar os processos legislativos que permitam a maior eficiência e eficácia possível na obtenção de resultados para as demandas que deveremos encaminhar enquanto porta-voz dos italianos e descendentes da América do Sul, considerando, logicamente, as orientações emanadas pelas lideranças da coalizão de centro-esquerda pela qual disputamos e obtivemos os votos necessários para conquistarmos o mandato de senador.

UOL- Qual sua primeira ação como senador?

Longo - Sentar com as lideranças da coalizão de centro-esquerda. Este não é um mandato só meu, é um mandato do partido, então quero ouvir deles quais serão os comprometimentos. Precisamos tentar achar soluções para as demandas na América do Sul, das pessoas que nos elegerem.

UOL- A Itália vive uma crise sobretudo política, além de financeira. É um tema que receberá atenção especial?

Longo - Importante ressaltar que, dentre os princípios que pautarão esse mandato, serão inegociáveis a ética, o empenho e o comprometimento assumidos publicamente durante nossa campanha na permanente busca por soluções que possam nos conduzir à construção de uma sociedade mais justa e generosa, bem como o resgate da confiança dos italianos em suas instituições republicanas, nos processos democráticos e naquela parcela saudável de sua classe política.

UOL- O senhor é o primeiro brasileiro a ocupar um cargo no parlamento italiano. Como se sente?

Longo - Animado e estimulado! A responsabilidade que estamos assumindo amplia nosso comprometimento com as causas nas quais acreditamos e que são necessárias para recolocar a Itália no caminho, na direção e no sentido de um desenvolvimento sustentável, que possa garantir a cada cidadão equivalência de oportunidade de acesso ao futuro que todos almejamos, ou seja, com dignidade, trabalho, esperança e confiança na estabilidade social e econômica do país. Existe uma Itália que não cabe mais dentro da própria Itália, somos perto 60 milhões de almas no território insular e peninsular, mas somos outros 80 milhões de almas italianas que vivem, trabalham, geram riqueza e renda fora dessa dimensão geopolítica, resgatando o sentido da Roma antiga, hoje o "mare nostrum" italiano é formado por todos os mares e oceanos que unem os cinco continentes do planeta.