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PT e PSDB têm 'pacto dos afogados' para desacreditar STF, diz filósofo

Roberto Romano, filósofo e professor de ética - Flávio Florido/UOL
Roberto Romano, filósofo e professor de ética Imagem: Flávio Florido/UOL

Fernanda Calgaro

Do UOL, em Brasília

11/02/2014 06h00

Adversários nas eleições presidenciais deste ano, o PT e o PSDB, ambos atingidos por esquemas de corrupção julgados pelo STF (Supremo Tribunal Federal), os chamados mensalão petista e mensalão mineiro, agem como se tivessem um “pacto dos afogados” ao defenderem lideranças dos seus partidos com o objetivo de “desacreditar a opinião pública, a imprensa e a Justiça”, segundo o filósofo Roberto Romano, professor titular de ética na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

“A tática de um partido de sair em defesa de uma liderança importante, mesmo que esta esteja a dever, é ligada a esse pequeno cálculo eleitoral. A visão dos partidos não vai além das urnas. Eles pensam naquilo que é bom para ganhar nas urnas e não no que é certo ou errado”, afirmou Romano em entrevista ao UOL.

Nesta segunda (10), o presidente do PSDB e pré-candidato do partido ao Planalto, Aécio Neves, saiu em defesa de Azeredo ao dizer que ele “era um homem de bem”. Da sua parte, o PT sempre considerou o julgamento no STF como “político” e apoiou, inclusive, campanhas de arrecadação de dinheiro para pagar a multa dos ex-dirigentes petistas condenados por corrupção no processo.

O filósofo vai ainda mais além na sua análise: afirma ver uma certa “trégua” entre as duas legendas para se pouparem mutuamente diante de tema tão desgastante em ano eleitoral.

Segundo ele, quando o deputado federal Eduardo Azeredo (PSDB-MG), a ser julgado pelo STF, diz ser tão inocente quanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no caso do mensalão petista, Azeredo tenta se eximir de responsabilidade e, ao mesmo tempo, fazer uma defesa de Lula.

Da mesma forma, avalia Romano, quando o presidente do PT, Rui Falcão, afirma esperar que Azeredo tenha direito à ampla defesa e um “julgamento justo” no STF, Falcão “aproveita para alfinetar o Supremo”.

Em entrevista à “Folha de S.Paulo”, Azeredo se comparou a Lula, que sempre negou saber do mensalão e acabou não sendo denunciado, e disse que nada sabia das irregularidades em sua campanha eleitoral de 1998 em Minas Gerais e, portanto, não deveria ser responsabilizado.

“Azeredo faz um apelo a um princípio, ou a falta de princípio, que impera nos homens públicos, que é a recusa em assumir responsabilidades”, avalia Romano. “É um fogo de artifício para que ele diga à cidadania que é tão igual ao Lula, ou seja, que é inimputável.”

Segundo o filósofo, dizer que não sabia sobre “algo que acontecia na cozinha da sua campanha” é igualmente grave: “É uma confirmação da falta de responsabilidade e de competência”.

Acusado dos crimes de peculato (desvio de dinheiro público) e lavagem de dinheiro, Azeredo responde na Justiça pelo desvio de R$ 3,5 milhões (cerca de R$ 9,3 milhões em valores atualizados) do banco estatal Bemge e de empresas públicas para financiar a sua campanha à reeleição em 1988, que acabou perdendo.

O deputado diz que não autorizou os repasses que alimentaram o caixa de sua campanha. No entanto, para a Procuradoria Geral da República, ele teve "participação direta, efetiva, intensa e decisiva" nos crimes e, "além de beneficiário dos delitos cometidos, também teve papel preponderante em sua prática". Por conta disso, defende pena de 22 anos de prisão para Azeredo.