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O que a morte do último pediatra de Aleppo revela sobre a situação catastrófica da Síria

Ameer Alhabi/AFP
Imagem: Ameer Alhabi/AFP

Da BBC Mundo -

29/04/2016 05h07

"Ele sempre estava ali. Preocupava-se com as necessidades das pessoas. Era honesto e muito comprometido. Trabalhava em condições que você não pode imaginar".

Assim foi descrito o médico Mohammed Wasim Moaz, que morreu em um ataque nesta semana a um hospital em Aleppo, na Síria. Quem conviveu com o médico e fez a descrição foi Aitor Zabalgogeazkoa, ex-chefe da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) na cidade síria.

Wasim, de 36 anos, não era apenas um médico. Era o último pediatra na zona de Aleppo controlada pela oposição, segundo Rami Abdurahman, chefe da ONG britânica Observatório Sírio para os Direitos Humanos.

"O doutor Wasim era um pediatra extremamente dedicado, que optou por arriscar sua vida para continuar ajudando a população de Aleppo. Sua morte é uma tragédia terrível que terá um impacto devastador numa situação que já é crítica", afirmou a ONG Médicos sem Fronteiras à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

Ao menos 14 pessoas morreram na quinta-feira no ataque ao hospital Al Quds, considerado o principal centro de referência em pediatria na região.

A ONG Médicos sem Fronteiras prestava apoio ao hospital desde 2012, ao lado do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, fornecendo material médico, combustível e formação médica.

O centro contava com oito médicos e 28 enfermeiros que trabalhavam em tempo integral. No ataque, segundo a ONG, morreram dois médicos, dos enfermeiros, um segurança, um funcionário de manutenção e oito pacientes.

O hospital, reduzido a escombros, tinha 34 leitos, setor de urgência, serviço de consultas externas, ambulatório e UTI, entre outros recursos.

Fontes locais atribuíram o ataque a forças leais ao governo de Bashar Al-Assad, mas o governo negou responsabilidade.

Ajuda em perigo

O responsável pela assistência humanitária da ONU à Síria, Jan Egeland, se disse alarmado pelo ataque e que a ajuda dessa natureza para grande parte do país está em risco.

"Quando a população está sangrando por essa guerra, é catastrófico que médicos, enfermeiros e ajudantes estejam sendo bombardeados e assassinados. O último pediatra no leste de Aleppo morreu. Isso não pode continuar. Agora é quando precisamos de trabalhadores em saúde", disse.

A disponibilidade de pessoal médico na Síria foi impactada pelos cinco anos de guerra civil que deixaram mais de 270 mil mortos e deslocaram milhões de moradores.

Aleppo é uma cidade dividida desde 2012, por um conflito entre forças leais ao governo e opositores.

Segundo o MSF, em março deste ano restavam menos de 80 médicos na área da cidade controlada pela oposição, que abriga cerca de 250 mil pessoas. Havia, por exemplo, apenas dois ginecologistas.

O aumento das hostilidades nas últimas 48 horas causou a morte de ao menos 60 pessoas na região de Aleppo.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha disse que tais ataques colocam a cidade à beira de um desastre humanitário.

Fim da trégua?

Regiões da Síria que estavam em situação crítica por falta de remédios, alimentos e outros produtos básicos começaram a receber ajuda nas últimas semanas, graças à entrada em vigor de um cessar-fogo fechado por algumas das principais forças em conflito.

A trégua, apoiada pelos Estados Unidos e pela Rússia, permitiu a abertura de corredores humanitários para envio desses itens.

O enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, alertou que o frágil pacto poderia entrar em colapso "a qualquer momento".