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Relação 'madura' e 'sem tuítes' do Brasil com EUA é importante para toda região, diz ex-presidente do Uruguai

Julio María Sanguinetti avalia que foi um erro o presidente Jair Bolsonaro ainda não ter saudado Biden pela vitória - Raul Martinez/EPA
Julio María Sanguinetti avalia que foi um erro o presidente Jair Bolsonaro ainda não ter saudado Biden pela vitória Imagem: Raul Martinez/EPA

Marcia Carmo

Da BBC News Brasil, em Buenos Aires (Argentina)

17/11/2020 10h22

O ex-presidente do Uruguai, Julio María Sanguinetti, acredita que a eleição do democrata Joe Biden para a Casa Branca deveria resultar em uma "relação madura" do governo do presidente Jair Bolsonaro com os Estados Unidos e com os países vizinhos, na América Latina, deixando de lado a política externa através das redes sociais e do personalismo.

"Espero que o Brasil procure estabelecer com o governo americano uma relação madura. Isso é importante para todos. Não só para o Brasil, mas para a América Latina inteira. O peso do Brasil é muito relevante", disse.

Para ele, a "relação madura" envolve a retomada dos canais diplomáticos e, ao mesmo tempo, a expectativa de que o Brasil se aproxime dos seus sócios do Mercosul e da América Latina como um todo.

Para o ex-presidente e ex-jornalista uruguaio, é "um erro" que o presidente brasileiro ainda não tenha saudado Biden.

Na opinião de Sanguinetti, que governou o Uruguai em dois mandatos - entre 1985 e 1990 e de 1995 a 2000 -, as palavras de Bolsonaro, como "pólvora", que usou ao se referir a Biden, tendem a se diluir com o tempo.

"Até agora foram temas pessoais, personalistas, de tuítes... E a relação entre os países requer canais formais de trabalho. Não é possível que as relações exteriores sejam feitas desta forma", afirmou.

A seguir a entrevista de Sanguinetti à BBC News Brasil. Ele foi um dos fundadores do Mercosul e é secretário geral do Partido Colorado, que integra a coalizão governista do presidente Lacalle Pou.

BBC News Brasil - O Brasil teve tradicionalmente, através do Itamaraty, uma política de aproximação com os vizinhos. Como o senhor vê a política externa brasileira, hoje, em relação à região?

Julio María Sanguinetti - O Brasil teve uma aproximação importante com os Estados Unidos. E na região uma atividade muito menor. Nós gostaríamos de ver um Brasil muito mais ativo na América Latina.

BBC News Brasil - De que maneira?

Sanguinetti - Cooperação, diálogo, processo de integração. De trabalhar por questões comuns, comércio, meio ambiente e etc.

BBC News Brasil - Bolsonaro tinha uma relação com Trump, apesar de o Brasil ter tomado medidas, como o fim do visto para os americanos, que não tiveram reciprocidade. O presidente ainda não saudou Joe Biden. O que o senhor acha que pode mudar com a chegada do democrata à Casa Branca?

Primeiro, a saída de Trump do governo é um avanço. Além do que ele representa no âmbito interno, no âmbito externo ele tinha um estilo populista, contraditório em relação as soberanias (dos países), em relação à política interna dos países. Agressividade e contradição permanente.

O que esperamos agora é que exista maior normalidade nas relações entre os Estados Unidos e o resto do mundo e que, inclusive, o que poderíamos chamar de competição entre a China e os Estados Unidos passe para o terreno da negociação, do diálogo e não o que estávamos vendo até agora e que produz dano a todos.

Para nós, a relação entre a China e os Estados Unidos é muito importante. A China tem grande presença na América Latina. É importante, para nós, que exista um caminho de diálogo construtivo entre Estados Unidos e China. Precisamos de um Estados Unidos que administre essa relação com maturidade.

BBC News Brasil - A China tem uma presença forte na região, com comércio e investimentos. Mas o que poderia mudar com Biden? Qual é sua expectativa?

Sanguinetti - Acho que, pelo menos, vamos ter uma diplomacia mais tradicional. Acho que os Estados Unidos podem estabelecer o diálogo com a China, de forma normal.

BBC News Brasil - O senhor acha que com Biden pode se esperar maior diplomacia, maior aproximação do Brasil com seus vizinhos?

Sanguinetti - O Brasil, com Bolsonaro, tinha uma aproximação muito forte com o governo Trump. É um erro não reconhecer a vitória eleitoral de Biden.

E a atitude de Trump de não reconhecer o resultado da eleição é muito triste, lamentável. Os fatos são claros, os votos são claros. Espero que o Brasil procure estabelecer com o governo americano uma relação madura. Isso é importante para todos. Não só para o Brasil, mas para a América Latina inteira. O peso do Brasil é muito relevante.

Precisamos de um Brasil que tenha uma relação madura com Estados Unidos e que, ao mesmo tempo, se aproxime do Mercosul e da América Latina.

BBC News Brasil - Com Trump na Presidência, pessoas ligadas ao presidente Bolsonaro falaram em 'vírus chinês' e ele mesmo também tem atacado a China, principal sócio comercial do Brasil. (O que foi repetido na última semana com a polêmica que envolveu a vacina CoronaVac, do Instituto Butantan e do laboratório chinês Sinovac). Como o senhor vê essa atitude?

Sanguinetti - Acho que essa relação tem que decantar, essa intensidade tem que diminuir. Que essas declarações pessoais passem e que volte o amadurecimento e a relação diplomática.

Até agora estivemos em temas pessoais, personalistas, de tuítes... E a relação entre os países requer canais formais de trabalho. Não é possível que as relações exteriores sejam feitas desta forma.

BBC News Brasil - Em um dos debates com Trump, Biden criticou o desmatamento da Amazônia. E Bolsonaro disse, nesta semana, que existe um momento em que a diplomacia e a saliva acabam e abre-se lugar para a pólvora. Qual a sua opinião?

Sanguinetti - O assunto da Amazônia está sendo questionado pela Europa, pelos Estados Unidos, de alguma forma.

Acho que o Brasil tem que dar uma explicação convincente à comunidade internacional. O Brasil precisa dar explicações sérias. Até agora, o Brasil fez declarações de rejeição às críticas. Acho que precisa dar uma explicação convincente e conclusiva para que o mundo possa olhar a Amazônia com mais objetividade.

BBC News Brasil - O fato de o presidente Bolsonaro ter usado, nesta semana, a palavra "pólvora" ao responder sobre Biden...

Sanguinetti - Espero que essas palavras se diluam com o tempo. Que possamos administrar isso não com adjetivos, nem com tuítes, mas sim por canais mais formais.

BBC News Brasil - Quando o Brasil se afasta ou não se aproxima dos seus vizinhos, quais são os efeitos?

Sanguinetti - Com o Brasil temos que ter sempre uma relação de cooperação. Isso sempre ocorreu com o Uruguai. Mas para nós também é importante que o Mercosul funcione e isso requer um Brasil que trabalhe com a Argentina de forma mais próxima. Nós sentimos que o afastamento do Brasil nos prejudica. O contrário seria, então, que possamos ter liberdade comercial para fazer acordos de livre comércio, fora do Mercosul. Esse é o tema principal. Não podemos estar com um corset que nos amarra. O Mercosul tinha que avançar. E nisto existe uma responsabilidade que pensamos que deve ser do Brasil por sua liderança natural, por seu peso.

BBC News Brasil - O que o senhor diz é que o fato de o Brasil não estar dialogando com a região com a intensidade de antes e de os presidentes Bolsonaro e Alberto Fernández, da Argentina não se falarem, afeta o andamento do Mercosul e ninguém do bloco pode avançar em seus próprios acordos independentes?

Sanguinetti - É isso o que vem acontecendo hoje. Seria melhor se tivéssemos maior clareza, mais sinceridade sobre o que queremos do Mercosul. Qual é nosso real e verdadeiro interesse? Aprofundá-lo? Abrir mais? Hoje estamos em uma situação de indefinição, como resultado do estancamento.

BBC News Brasil - O Brasil estava em possíveis conversas com Estados Unidos para se chegar ao livre comércio. Isso ajudaria ou atrapalharia?

Sanguinetti - Se fosse uma relação somente por parte do Brasil, seria, sem dúvida, uma preocupação. O que nós queremos é que todo o Mercosul possa estabelecer este relacionamento comercial mais livre. Nós queremos ampliar nossa liberdade comercial. E se hoje não temos maior margem para isso é pela proteção à indústria brasileira.

Hoje não existe liberdade e estamos precisando disso e isso tinha que ser o grande assunto a ser trabalhado para que essa situação seja superada.

BBC News Brasil - Quando o senhor diz que com Biden a diplomacia tradicional seria retomada, o senhor diz que os caminhos seriam as chancelarias? O Itamaraty ter a importância que teve?

Sanguinetti - Sim, naturalmente. Mas não só o Itamaraty, mas o Estado brasileiro. O Itamaraty é uma marca do Brasil. E que assim possamos alcançar os conteúdos modernos. O mundo mudou. Estamos em um mundo digitalizado. Mas os procedimentos entre os Estados devem ser os que de alguma maneira recuperem a capacidade de diálogo. Os conteúdos vão ser diferentes, mas os procedimentos têm que ser os mais tradicionais.

BBC News Brasil - O senhor foi presidente do Uruguai duas vezes. Quando no Brasil os presidentes eram José Sarney e Fernando Henrique Cardoso. Houve algum momento de distanciamento como agora?

Sanguinetti - Eu não falo de distanciamento, mas de uma certa falta de atividade.

Tanto com Sarney como na época de Fernando Henrique fazíamos coisas em comum e nos apresentávamos no exterior de forma conjunta e isso fortalecia a todos. Hoje isto está muito enfraquecido. E não foi só responsabilidade do Brasil, mas também de governos argentinos que tiveram atitudes muito particulares, muito nacionalistas e não contribuíram para o clima de diálogo. Hoje, esse clima (de diálogo), infelizmente, não existe entre os Estados e entre os governos.

BBC News Brasil - O que aconteceu?

Sanguinetti - A América Latina continua desvertebrada. Os mecanismos de integração não funcionaram suficientemente. O Mercosul está estancado. Muito paralisado.

Após alguns anos de progresso, foi ficando paralisado e hoje tem uma atividade muito baixa. A zona do Pacífico (Chile, Colômbia, Peru e México) avançou bastante em certo momento, mas hoje vive dificuldades, como o Peru, que enfrenta uma enorme instabilidade política. Teve três presidentes em quatro anos e estão são situações que realmente dificultam tudo.

Além disso, temos a Venezuela com sua linha ditatorial. E se olhamos, de forma mais ampla, a pandemia foi enfrentada de forma diferente por cada um. Os maiores países não tiveram sintonia. Não tiveram cooperação. Se estamos assim num assunto tão global, a região está dizendo que hoje a situação é de muito pouca afinidade.

Na pandemia, o México teve uma atitude, o Brasil teve outra atitude. E Argentina outra...

BBC News Brasil - Os presidentes Bolsonaro e Fernández nunca se falaram e Fernández vai completar um ano de mandato. Bolsonaro continua dizendo que os argentinos votaram mal, porque não reelegeram o ex-presidente Mauricio Macri. Qual é a sua opinião?

Sanguinetti - Acho que esse é um erro do presidente (Bolsonaro) porque não podemos nos meter na política interior de cada país. Todos temos que respeitar as decisões das urnas. Um governo pode nos parecer mais ou menos simpático, mas como Estado devemos respeitar as decisões de outros.

Não acho bom que não exista diálogo entre os presidentes e, principalmente, entre os presidentes dos maiores países do Mercosul.

BBC News Brasil - O fato de Biden ter vindo à região quando era vice de Obama pode contribuir para tornar a relação menos tensa?

Sanguinetti - Biden conhece bem a região, a América Latina. Alguma noção ele tem, mas esperamos que isso gere interesse maior dele para que se trabalhe em conjunto.

BBC News Brasil -Sua expectativa é que o Brasil também tenha uma atitude similar ao estilo Biden?

Sanguinetti - Espero, desejo e torço para que o Brasil tenha uma relação madura e construtiva. Essa é a esperança. Mas hoje, infelizmente, não é assim.

BBC News Brasil -Uma relação madura com Estados Unidos e com a região...

Sanguinetti - Naturalmente. E uma atitude mais fraterna com a região. No caso do Uruguai e do Brasil existe uma irmandade histórica. Não temos praticamente fronteira. É uma relação pacífica.

Por isso, desejamos que essa (fraternidade) também seja refletida na vida política e na vida política internacional. Como existe um sentimento de afinidade dos nossos países, das nossas sociedades, o desejo é que isto também se projete para a política internacional, como foi em outros tempos.