Cuba é uma ditadura

Jorge Ramos

Jorge Ramos

  • Anthony Behar/Xinhua/Zumapress

    Raúl Castro e Barack Obama firmam processo de reaproximação entre Cuba e Estados Unidos

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Nós que estamos fora nos esquecemos, mas Cuba é uma ditadura. É algo impossível de esquecer para os 11 milhões de cubanos que estão na ilha. Eles sofrem isso todos os dias.

O degelo de pouco mais de um ano entre os governos de Washington e Havana mudou a conversa. Em vez de falar da falta de liberdades, das enormes carências econômicas e de violações dos direitos humanos, as notícias são a reabertura de embaixadas, mais turismo e inclusive o possível fim do embargo. Os mais ousados imaginam também o regresso de Guantánamo às mãos cubanas.

Mas no fundo Cuba continua sendo uma ditadura. O ditador Fidel Castro legou o cargo a seu irmão Raúl, e lá só eles mandam. Não há eleições multipartidárias, não há imprensa livre, existem dezenas de presos políticos e o regime se sustenta à base de medo.

Não sou eu que digo; são os milhares de cubanos que estão fugindo. No dia de Natal apareceram às 4h da manhã 15 balseiros, ainda molhados, no estacionamento de uma farmácia em uma das ilhotas da Flórida, segundo informou o jornal "El Nuevo Herald".

Na Costa Rica há cerca de 8 mil refugiados cubanos parados. Por quê? "Porque a Nicarágua fechou a fronteira e impediu um trânsito que vinha se realizando com normalidade, embora nas mãos de coiotes", disse-me em uma entrevista o presidente costarriquenho, Luis Guillermo Solís (aqui está a entrevista pela televisão).

Tradução: os cubanos estão fugindo como podem de seu país. Milhares o fizeram recentemente através do Equador e depois, por estrada, cruzando a América Central e o México até chegar à fronteira dos Estados Unidos.

No ano fiscal de 2015 mais de 40 mil cubanos chegaram aos Estados Unidos, número recorde segundo a Agência de Alfândegas e Proteção de Fronteiras. A culpa desse êxodo, segundo os cínicos de Havana, é a política de "pés secos, pés molhados" --ou a lei de ajuste cubano--, que permite que um refugiado cubano se transforme em residente dos Estados Unidos um ano depois de pisar em território norte-americano. Mas se enganam. A verdadeira culpa é da ditadura que os obriga a fugir.

Há mexicanos e centro-americanos que se queixam constantemente de que os Estados Unidos tratam os refugiados cubanos de maneira privilegiada. Afinal, se um imigrante sem documento do México ou da América Central pisa em território norte-americano, é detido e deportado.

Mas eu creio que é preciso continuar protegendo os refugiados que vêm da ilha até que desapareça a ditadura cubana. Sempre é preciso proteger as vítimas das ditaduras. A metade dos cubano-americanos acredita nisso, segundo uma pesquisa da Bendixen e Amandi (34% são contra). Não se trata de retirar dos cubanos as proteções migratórias especiais. Trata-se de dar proteções semelhantes aos que vêm de outros lugares.

Uma ditadura é uma ditadura. Entendo os cubanos que nunca dariam a mão aos Castro e rejeitam a nova aproximação diplomática de Washington. Eu também não gostaria de dar a mão a alguém que tirou minha casa e meu trabalho, matou ou prendeu um parente meu e me obrigou a fugir de meu país. Mas desconfio de que por trás dessa aproximação diplomática haja um objetivo secreto.

O presidente Barack Obama não é ingênuo. Por isso não pode dizer que o objetivo de sua política de abertura e de maiores contatos é mudar o regime dos Castro. Se tivesse dito isso, não haveria acordo. Mas, quando a história mudar em Cuba e voltarem os ventos democráticos, tenho certeza de que se conhecerão os detalhes das reuniões a portas fechadas em que se tramou um novo destino para a ilha.

Só os cubanos podem mudar Cuba. Ninguém mais. Mas agora devem saber, como nunca, que não estão sós. Como a água que escorre pelas rachaduras, a internet está penetrando nos lugares mais recônditos da ilha. É caríssima para o cubano comum, é verdade. E mesmo assim souberam como a Argentina e a Guatemala mudaram, como a Venezuela está mudando e como eles são os próximos na lista. Não há nada que possa deter uma ideia quando seu tempo chega.

Não podemos esquecer de que Cuba é uma ditadura. E diante das ditaduras não se pode ser neutro. Delas, se foge ou se luta por dentro, com unhas e "cliques", até que caiam. 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Jorge Ramos

O jornalista Jorge Ramos é um dos mais conceituados analistas da questão hispânica nos Estados Unidos.

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