Organização não quer candidatos independentes nos debates nos EUA

Jorge Ramos

Jorge Ramos

  • Richard Perry/The New York Times

    "Em uma eleição com dois dos candidatos menos populares da história moderna dos EUA seria recomendável ter mais opções"

    "Em uma eleição com dois dos candidatos menos populares da história moderna dos EUA seria recomendável ter mais opções"

São festas a que todo mundo quer ir, digamos assim. Mas o problema é que os sujeitos na entrada têm fama de durões e só deixam passar as pessoas que já conhecem. As festas a que me refiro são os três debates presidenciais nos EUA, o primeiro dos quais ocorrerá na segunda-feira, 26 de setembro.

Os sujeitos na entrada são os da Comissão de Debates Presidenciais, que desde 1987 se encarrega de organizar, com bastante êxito e autonomia, a logística para o confronto dos aspirantes à Casa Branca. Esses debates costumam ser decisivos, e diferenciam os improvisados dos que têm caráter e preparo para ocupar o emprego mais difícil do mundo.

Entretanto, a preocupação é que, por tradição e inércia, tal comissão defenda os interesses dos partidos Democrata e Republicano. Assim, outros partidos ou um candidato independente têm um obstáculo quase intransponível para participar dos debates: e necessário ter 15% de apoio entre os eleitores em uma média de cinco pesquisas.

Em uma eleição como a de 8 de novembro, com dois dos candidatos menos populares da história moderna dos EUA, seria recomendável ter mais opções. Donald Trump, o candidato republicano, tem 63% de opinião negativa e Hillary Clinton, 55%, segundo uma pesquisa Gallup. As opções existem, mas o problema é que poucos sabem quem são.

"Setenta por cento dos americanos não sabem quem somos", disse-me em um fórum o candidato presidencial do Partido Libertário, Gary Johnson. "Nos últimos dias arrecadamos vários milhões de dólares que servirão para que as pessoas conheçam nossos nomes." Por enquanto, os libertários alcançam apenas 10% em algumas pesquisas.

Jill Stein, candidata presidencial do Partido Verde, está em uma situação ainda mais difícil. As pesquisas lhe dão 4% ou 5%. No entanto, "lá estarei", disse ela ao jornal "USA Today". Stein afirmou que está disposta a ser presa se não a deixarem participar. "Eu me sentirei péssima se Donald ganhar, e igualmente mal se Hillary for eleita", acrescentou.

E o candidato independente Evan McMullin, que trabalhou na CIA, disse-me em uma entrevista que Trump é um homem muito "frágil" e que poderia se retirar antes da eleição. Seu plano é evitar que Hillary ou Trump ganhem os 270 votos eleitorais e que o Congresso escolha o novo presidente (o que não acontece desde 1824).

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Stein, McMullin e Johnson não foram convidados à festa. Os jornalistas latinos também não.

Os latinos são o grupo de eleitores de crescimento mais rápido nos EUA. Este ano haverá 27 milhões de latinos aptos a votar. O voto latino é fundamental em Estados chaves como Colorado, Nevada e Flórida. Não exagero ao dizer que sem os latinos ninguém pode chegar à Casa Branca. Mas nunca quiseram convidar um jornalista latino para moderar um dos debates presidenciais.

Por quê? Não sei.

Há uma longa lista de jornalistas latinos extremamente capazes que poderiam fazer um trabalho extraordinário nesses debates, desde María Elena Salinas, da Univisión, e José Díaz-Balart, da Telemundo, até os jornalistas da rede ABC Cecilia Vega e Tom Llamas, e María Hinojosa, da NPR.

Mas minha suspeita é que os dois candidatos têm medo das perguntas que lhes fariam. Sim, é verdade que esses repórteres --e muitos outros-- fazem parte de um grupo do qual não se fala o suficiente, e suas perguntas poderiam ser pouco convencionais.

Mas já está na hora. O país está mudando. Em 2044, segundo o Departamento do Censo, os brancos se transformarão em minoria nos EUA, e os debates presidenciais devem refletir a crescente diversidade do país.

Os debates presidenciais foram uma espécie de festa entre conhecidos com uma boa equipe de segurança na porta. As novas crianças no bairro nem sempre são bem-vindas. Entretanto, os debates não devem ser organizados com as mesmas regras de um clube privado. Este país também é nosso, e deve incluir todas as cores e sotaques.

Até o momento, nem os libertários nem os verdes, nem os jornalistas latinos foram convidados. Mas este é o momento para que a Comissão de Debates Presidenciais revise suas listas e faça novos convites.

Abram os debates! Afirmo-lhes que, se o fizerem, sua festa servirá para renovar esta democracia em um momento de crise (e também será muito mais divertida). Não queremos ser desmancha-prazeres. Mas se não nos convidarem podem esperar muitos gritos na porta de entrada.

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Jorge Ramos

O jornalista Jorge Ramos é um dos mais conceituados analistas da questão hispânica nos Estados Unidos.

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