Corrupção, paternalismo e desemprego facilitam ação da Al Qaeda no Iêmen

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Em Sanaaa (Iêmen)

O ex-primeiro-ministro do Iêmen, Abdul Karim Al-Iryani, foi bem ao ponto quando eu cheguei a sua casa em Sanaa para jantar: “Então, Thomas, foi preciso Abdulmutallab para você finalmente vir para cá?” 

Sim, é verdade, admiti, foi por causa daquele jovem nigeriano treinado no Iêmen pela Al Qaeda que tentou explodir um jato da Northwest no Dia de Natal que decidi que tinha que conhecer o Iêmen. E confessei mais a Iryani: “Fiquei com certo medo de vir para cá. Achei que seria recebido ao pé da escada do meu voo da Qatar Airways pelo próprio Osama Bin Laden.” 

  • The New York Times

    Crianças pobres brincam perto de uma mesquita em Sana, no Iêmen, que foi construída pelo presidente Ali Abdullah Saleh por cerca de US$ 120 milhões. Um mês após o plano frustrado de um militante da Al-Qaeda de explodir um avião que rumava para os EUA, os norte-americanos se juntam a outros 20 países para tentarem ajudar da crescente instabilidade do Iêmen

Felizmente, porém, vi que Sanaa não é Cabul, e o Iêmen não é o Afeganistão –ainda não. A Cidade Velha murada de Sanaa, um Patrimônio Mundial da ONU, com suas construções de barro adornadas de formas geométricas, tem vendedores de dia e cafés cheios à noite. Quando estava passeando por suas ruas com um amigo iemenita, encontramos quatro senhores idosos barbudos –com as adagas tradicionais nos cintos- discutindo um cartaz colado em um muro, pedindo que “pais e mães” enviassem suas filhas à escola. Quando perguntei o que achavam da ideia, o mais velho disse que estava disposto a dar parte de sua refeição diária para que suas filhas aprendessem a ler. Além disso, acrescentou, o cartaz tinha acabado de cair e ele o tinha colado novamente para que outros o vissem. Não o que eu esperava. 

Tampouco esperava encontrar organizações da sociedade civil com jovens voluntários norte-americanos –e, no caso do jornal de língua inglesa “The Yemen Observer”, uma sala de imprensa cheia deles. Só o que pude fazer foi olhar para esses universitários americanos e perguntar: “Seus pais sabem que vocês estão aqui?” Eles apenas riram. Todos os comerciantes com quem conversei cuspiram as palavras “Al Qaeda” e culparam a organização por matar o turismo. Quem sabia que o Iêmen tinha turistas? Não, isto não é o Afeganistão. 

Tampouco é a Dinamarca. 

A Al Qaeda é como um vírus. Quando aparece em massa, indica que algo está errado com o sistema imune do país. E algo está errado com o do Iêmen. Um governo central fraco em Sanaa domina uma colcha de retalhos de tribos rurais, usando um sistema ad hoc de paternalismo, cooptação, corrupção e força. Amplas áreas do campo continuam fora de controle do governo, particularmente no Sul e no Leste, onde 300 a 500 combatentes da Al Qaeda encontraram um porto-seguro. Este “jeito iemenita” de governar conseguiu segurar o país e movê-lo adiante em velocidade geológica, apesar dos movimentos separatistas no Norte e no Sul. Mas esse jeito e ritmo antigos de fazer as coisas não consegue mais acompanhar as tendências negativas. 

Considere os seguintes números: o crescimento populacional do país está próximo a 3,5%, um dos mais altos do mundo; 50% dos seus 23 milhões de habitantes têm menos de 15 anos e 75% têm menos de 29. O desemprego é de 35 a 40%, em parte porque a Arábia Saudita e outros Estados do Golfo expulsaram um milhão de trabalhadores iemenitas após o Iêmen ter defendido Saddam Hussein na Guerra do Golfo em 1990. 

Graças à falta de planejamento e ao crescimento da população, o Iêmen poderá ser o primeiro país a ficar sem água em 10 a 15 anos. Muitos iemenitas já têm o serviço de água interrompido, como também constantes blecautes de luz. No campo hoje, as mulheres algumas vezes têm que caminhar quatro horas por dia para encontrar um poço de água. O lençol freático caiu tanto em Sanaa que é preciso um equipamento de perfuração de petróleo para encontrá-la. Isso não é ajudado pela tradição iemenita de mascar o “qat”, uma folha levemente alucinógena, cujo cultivo consome 40% da água do Iêmen por ano. 

Quase 65% dos professores escolares têm apenas o ensino médio. A maior parte das pessoas vive com menos de US$ 2 (em torno de R$ 4) por dia –exceto os que não têm nem isso. Um Rolls Royce foi recentemente vendido em Sanaa pela primeira vez. Mais de 70% da renda do governo vem das exportações decrescentes de petróleo, enquanto 70% dos iemenitas são analfabetos e 15% das crianças não estão na escola. 

Ainda assim, ao mesmo tempo, este país tem alguns dos mais interessantes jornalistas, ativistas sociais e políticos que eu conheci no mundo árabe. Passei uma manhã no Fórum Feminino da Mídia, uma ONG que treina jornalistas mulheres e promove a liberdade de imprensa –parte da “jovem guarda” de reformistas idealistas iemenitas que querem servir seu povo, mas, até agora, não foram reconhecidos pela antiga liderança. Fundado por uma defensora iemenita da liberdade de imprensa, Rahma Hugaira, o escritório estava cheio de meninas, cuja fome de dizer o que pensava era filtrada pelas vestes negras que cobriam tudo fora os olhos. 

O conserto para este país não é segredo, argumentou Mohammed Al-Asaadi, consultor da mídia que estava sentado conosco: “Precisamos de uma revolução contra o <i> status quo </i>. Precisamos construir capacidade, institucionalizar o Estado de direito e construir uma cultura de propriedade e responsabilidade”. E, acrescentou o diretor local da Al Jazeera, Murad Hashim: “Precisamos de mais educação, mas não usamos nosso povo educado.” De fato, o Iêmen tem os recursos para se salvar, mas precisa se mobilizar para ter melhor governança. Sem isso, as tendências regressivas eventualmente vão ganhar força e o vírus da Al Qaeda, que ainda é controlável, vai se espalhar.

Tradutor: Deborah Weinberg

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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