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A Cara da Democracia

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Paradoxos do Negacionismo

A Terra na concepção dos terraplanistas - Divulgação UOL
A Terra na concepção dos terraplanistas Imagem: Divulgação UOL
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A Cara da Democracia

A Cara da Democracia é um espaço de análise que apresenta contribuições de estudiosas e estudiosos do campo da ciência política sobre a democracia no Brasil. Partimos da defesa da democracia e da formulação de opiniões a partir de dados e informações cientificamente embasadas em pesquisas de opinião pública, entrevistas com atores e estudos comparados com outras experiências democráticas. Diante da ascensão do bolsonarismo e da percepção de que a nossa democracia está em crise, apresentamos para o debate público análises sobre a relação entre estes dois fenômenos. Aqui, você encontrará semanalmente discussões sobre temas relevantes para a política e democracia no país, em artigos de leitura dinâmica e compreensível. Convidamos leitoras e leitores a se juntarem às discussões mais promissoras da ciência política e pensar junto com a gente: qual é a cara da nossa democracia?

Colunista do UOL

02/06/2021 04h00

Fabiano Santos*

Resultado marcante oriundo da mais recente rodada da pesquisa nacional “A Cara da Democracia” é o alto contingente de negacionistas entre os respondentes. Negacionistas são definidos como aqueles que negam teses há muito comprovadas, consensuais ou quase consensuais no meio científico, como, por exemplo, que a terra é redonda ou que existe uma ameaça à vida devido às mudanças climáticas em curso. Seriam também os que adotam hipóteses um tanto quanto estapafúrdias, contraintuitivas para a emergência e disseminação da COVID-19 – que seriam resultado de uma ação deliberada do governo da China, que a cloroquina funcionaria como tratamento precoce ou que a vacina causaria efeitos deletérios e irremediáveis à saúde dos pacientes.

De fato, causa espanto constatar como afirmações tão absurdas encontram-se disseminadas, levando-se em consideração o padrão de respostas encontrado na pesquisa. Não obstante, é curioso observar o grau de quase consenso entre as pessoas entrevistadas quando as perguntas se referiam às providências recomendadas para evitar a contração e propagação do vírus. Tanto a vacinação quanto o uso de máscara receberam apoio amplamente majoritário.

Esse aparente paradoxo nos leva a refletir um pouco mais sobre os resultados e tentar capturar seu significado mais profundo, assim como potenciais consequências políticas. Em primeiro lugar, é preciso discernir entre os diferentes tipos de negacionismo. Respostas afirmativas a qualquer uma das questões sobre a terra ser plana, existir uma conspiração de esquerda para dominar o mundo, terem sido fraudadas as eleições estadunidenses e ameaças climáticas à vida na terra não passarem de invenção de cientistas mal-intencionados parecem fazer parte de um estado permanentemente paranoico, acossada por propaganda de cunho político ideológico que independe da crise sanitária. Por outro lado, respostas contrárias (pelo menos uma delas) às hipóteses mais plausíveis sobre a emergência da doença e de sua profilaxia dizem respeito à conjuntura mais imediata da pandemia, contexto ainda cercado de muitas dúvidas e incertezas.

A distinção entre os dois grupos e a exploração de relações entre suas respostas e questões de cunho político, bem como de aspectos socioeconômicos acabam gerando resultados interessantes dignos de nota. O primeiro grupo (negacionistas permanentes) tende a ser politizado e com viés favorável ao governo Bolsonaro. Em particular os que consideram haver uma conspiração de esquerda e que as eleições nos EUA resultaram de fraude preponderam no conjunto dos negacionistas e demonstram muito boa vontade com o presidente. Se é comum encontrarmos respondentes que concordam com as duas afirmações, é muito raro, uma boa notícia, os que assumem posição negacionista em todas as quatro questões. O estado de permanente e total paranoia ainda é pouco usual na sociedade brasileira.

O cruzamento dos respondentes do segundo grupo com suas atitudes face à vacinação e uso de máscara nos permite, por sua vez, isolar um conjunto bastante particular de habitantes – os negacionistas inconsistentes, isto é, na mesma medida em que recusam crédito às descobertas científicas sobre a doença e sua profilaxia, não encontram maiores problemas em recorrer à vacina como meio de se proteger ou apoiar o uso da máscara tendo em vista evitar sua propagação. Se chamarmos estes de inconsistentes e verificarmos sua inserção socioeconômica constata-se que estamos lidando com pessoas sobretudo de baixa renda e baixa escolaridade.

Como resumo, podemos dizer que, embora incomodativo o grau de disseminação dos “negacionismos”, é preciso separar os que possuem raízes mais estruturais e de natureza política daqueles que se referem mais à conjuntura específica da pandemia. Além disso, vale ressaltar que o negacionismo relacionado ao COVID-19 não impede uma adesão maciça na sociedade e majoritária entre os negacionistas à vacina e uso da máscara – dando origem ao estranho caso dos inconsistentes. Estes por seu turno, parecem se concentrar nos entrevistados de extratos de renda mais baixos e de baixa escolaridade, grupo da população particularmente sensível a mensagens ambivalentes e contraditórias, tal como, faz muito tempo, revelado pelos estudos de comportamento das massas nas democracias contemporâneas.

Nota metodológica: A edição de 2021 da pesquisa nacional "A Cara da Democracia" foi realizada pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação. Foram entrevistados 2031 brasileiros de todas as regiões do país entre 20 e 27 de abril. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais considerando um intervalo de confiança de 95%. A amostra representa a população eleitoral brasileira de 16 anos ou mais distribuída proporcionalmente à população eleitoral existente em cada uma das cinco regiões do Brasil: Norte, Centro-Oeste, Sudeste, Nordeste e Sul. Os municípios foram selecionados probabilisticamente através do método PPT (probabilidade proporcional ao tamanho) tomando como base o número de eleitores de cada município. A amostra obedeceu ainda cotas de sexo, idade, escolaridade e renda familiar dentro de cada setor censitário. Esta edição da pesquisa foi realizada presencialmente, seguindo os protocolos de segurança conforme orientação dos órgãos competentes, tais como uso de máscaras e álcool em gel e distanciamento seguro.

*Fabiano Santos é cientista político, professor do IESP-UERJ, coordenador do Observatório do Legislativo Brasileiro e membro do Conselho Gestor do Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL