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A Cara da Democracia

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Olimpíadas, desigualdade e políticas públicas

Ginasta brasileira Rebeca Andrade posa com as duas medalhas conquistadas nos Jogos Olímpicos de Tóquio - Laurence Griffiths/Getty Images
Ginasta brasileira Rebeca Andrade posa com as duas medalhas conquistadas nos Jogos Olímpicos de Tóquio Imagem: Laurence Griffiths/Getty Images
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A Cara da Democracia

A Cara da Democracia é um espaço de análise que apresenta contribuições de estudiosas e estudiosos do campo da ciência política sobre a democracia no Brasil. Partimos da defesa da democracia e da formulação de opiniões a partir de dados e informações cientificamente embasadas em pesquisas de opinião pública, entrevistas com atores e estudos comparados com outras experiências democráticas. Diante da ascensão do bolsonarismo e da percepção de que a nossa democracia está em crise, apresentamos para o debate público análises sobre a relação entre estes dois fenômenos. Aqui, você encontrará semanalmente discussões sobre temas relevantes para a política e democracia no país, em artigos de leitura dinâmica e compreensível. Convidamos leitoras e leitores a se juntarem às discussões mais promissoras da ciência política e pensar junto com a gente: qual é a cara da nossa democracia?

Colunista do UOL

08/08/2021 04h00

Leonardo Avritzer*

As Olimpíadas representam um momento de comparação entre os países no que diz respeito a sua performance na área de educação e políticas públicas. Como a maior parte das competições envolve a juventude, os jogos olímpicos mostram como um país trata sua juventude e o apoio que ele dá a ela nas mais diferentes áreas esportivas, desde os clássicos olímpicos como a natação e o atletismo, até o skate que estreou como modalidade olímpica neste ano.

Durante muito tempo, os Estados Unidos, que seguem tendo um bom sistema público de educação, competiram com a Rússia nas Olimpíadas. Hoje competem com a China, cujo destaque na economia, educação e, mais recentemente, no controle da Covid-19, a habilita para um novo lugar no pódio olímpico. Já no caso do Brasil, pode-se notar uma superação de um padrão histórico no qual a presença nas olimpíadas acontecia mesmo sem um sistema de educação e se contentava em vencer ou em esportes praticados pela elite sem apoio do Estado ou em esportes praticados nas ruas e nas praias pelos segmentos de baixa renda igualmente sem o apoio do Estado. É exatamente essa característica que a olimpíada de Tóquio mostra que o país vem superando. Mas como?

Por algumas décadas, o Brasil competiu nas Olimpíadas como Belindia - termo cunhado faz algumas décadas por dois economistas para descrever os dois países que convivem no interior do nosso: uma Bélgica bem-educada e de alto nível de renda que viaja para o exterior e uma Índia com baixíssimos níveis de renda e educação que não pode contar com o Estado para quase nada.

Quando olhamos o desempenho do Brasil em Olimpíadas vemos os dois países em ação. Historicamente, o Brasil ganhou poucas medalhas e o fez apenas em algumas áreas. No campo dos esportes das elites, ele historicamente ganhou medalhas na vela e no turfe. A família Grael, através dos irmãos Torben e Lars, conquistou oito medalhas olímpicas na vela, entre elas o ouro olímpico em Atlanta e Atenas. Nessa olimpíada, a nova geração da família ganhou uma nova medalha com Martine Grael. Já no hipismo, o Brasil teve Rodrigo Pessoa, medalhista de ouro em Atenas, de bronze em Atlanta e Sidney e filho de um importante cavaleiro que também disputou olimpíadas. Esses são representantes da Bélgica brasileira nas olimpíadas, praticantes de esportes caros e de elite, que requerem um alto investimento para o começo da prática, e expressam características das oligarquias brasileiras, o familismo e as relações com o exterior.

Existiram algumas exceções que vale a pena mencionar, como César Cielo na natação, mas em geral o Brasil competiu ao longo do tempo nas modalidades que exigem treino e políticas públicas, tais como atletismo, natação e ginástica com poucos atletas da elite que não conseguiram ser vencedores porque os atletas potenciais estão distribuídos na população em geral e prescindiram de apoio do estado. Tivemos também como exceção a modalidade do judô, que conta desde sua introdução no país com a presença da comunidade japonesa. O judô deu ao Brasil 12 medalhistas, os primeiros deles foram imigrantes japoneses ou treinados no Japão antes que a prática se generalizasse pelo país.

Do lado dos esportes coletivos, o Brasil esteve bem representado, a partir de 1984, apenas pelo futebol e vôlei. Os dois esportes têm características semelhantes em termos de estrutura da sociabilidade. São jogados ou na rua ou na área de praia, com pouquíssima estrutura e são organizados pelos próprios participantes, isso é, o desenvolvimento inicial do futebol e vôlei no Brasil não estão ligados a qualquer tipo de política pública, seja no campo do esporte seja no campo da educação. Eles se desenvolvem por iniciativas dos próprios jogadores e, nesse caso, o que conta para o desempenho é a enorme massa de jogadores nas duas modalidades que praticam o esporte. Aliás, quando o Estado se organiza para regular essas atividades, o que vemos no caso do futebol, em especial, é uma elite corrupta se apropriando dos clubes em benefício próprio apoiada pelas confederações.

Assim, tivemos dois padrões no caso dos esportes e que se expressam nas Olimpíadas: o padrão de esportes individuais de elite e o padrão dos esportes coletivos de massa. Faltava, evidentemente, os esportes organizados pela via do processo educacional e com apoio do estado. Natação, atletismo, ginástica, são esportes nos quais países muito menores e com menor população do que o Brasil, como a Itália ou a Hungria, se saem muito melhor.

Essa olimpíada expressa um padrão modificado: a ampliação das modalidades envolvendo esportes que não contam com políticas públicas no começo da carreira dos atletas, o skate e o surfe, e os resultados dos poucos projetos de apoio aos atletas de baixa renda durante a década passada que levaram, por exemplo, a ginasta Rebeca Andrade duas vezes ao pódio.

Tanto o skate quanto o surf produzem atletas esforçados que se beneficiam de condições que são públicas, a rua e a praia, assim como areia do vôlei de praia é a matéria que forma atletas que substituem as formas sistemáticas de treino pelo empenho individual em condições desfavoráveis. É isso que explica as medalhas de pessoas humildes e esforçadas como Raissa Leal, Ítalo Ferreira, Rebeca Andrade e Ana Marcela que ganhou a medalha de ouro em maratona aquática.

Ainda assim, ouvimos histórias de grandes privações individuais dos atletas vitoriosos. Ítalo Ferreira explicou à Folha de São Paulo que não tinha dinheiro para inscrições nos torneios mundiais e que nas primeiras competições dormia na capa da sua prancha . Rebeca Andrade relatou os inúmeros desafios que sua mãe com sete filhos teve que superar para que ela seguisse na ginástica. Ana Marcela começou a carreira sendo levada pelos avós de Lauro de Freitas para Salvador em viagens de mais de duas horas diárias. Nos dois primeiros casos, tal como os atletas explicaram, eles vêm de famílias chefiadas por mulheres negras. Nos três casos, todos contaram na primeira fase das suas carreiras com pouquíssimo apoio público e fortes sacrifícios familiares ainda que mais adiante tenham contado com o bolsa atleta. Os três casos expressam elementos da forte luta pela sobrevivência que a população pobre ou de baixa renda enfrenta todos os dias. Escolas públicas de baixa qualidade, treinamento em condições adversas. Apenas Rebeca Andrade é resultado de um projeto social, o da prefeitura de Guarulhos e fez questão de levar a favela às olimpíadas.

Ao mesmo tempo que o Brasil vê o resultado do esforço individual de atletas de baixa renda, a elite brasileira foi representada por Gabriel Medina, aquele que apareceu abraçado com Eduardo Bolsonaro no auge da pandemia, não se vacinou contra a Covid antes da competição e se tornou o barraqueiro oficial da olimpíada, posição que não dá direito à medalha. Gabriel achou que tinha o direito de levar a namorada para Tóquio, independentemente do fato da olimpíada se dar em um contexto de pandemia e com fortes restrições. Não conseguindo a autorização dos organizadores, tentou substituir o seu instrutor australiano pela namorada na equipe olímpica - mas, não conseguindo sucesso na empreitada, foi a público reclamar das regras. A eliminação esperada devido à falta de compromisso com o esporte imediatamente ensejou um protesto contra os juízes. Segundo ele e alguns dos seus defensores, ele foi roubado, apesar de sabermos que sete juízes avaliam a competição e notas díspares são eliminadas. Não é difícil perceber que aqueles que questionaram o resultado podem ser os mesmos que estão se preparando para questionar os resultados das eleições de 2022.

A olimpíada mostra que existe um país diferente emergindo das sombras de uma tradição de desigualdade e de falta de políticas públicas. Essa tradição ainda envolve fortes sacrifícios individuais, que são necessários para compensar a falta de políticas públicas que ou inexistem ou foram descontinuadas por esses governos, mas pode também indicar resultados sendo colhidos desde a implementação do Programa Bolsa Atleta, em 2005, que fez diferença na capacidade de competição de 12 entre os 15 medalhistas olímpicos (informação baseada no quadro de medalhas brasileiro em 4 de agosto). No entanto, o programa sofreu seus primeiros cortes, desde a sua criação, neste ciclo olímpico. No ano de 2020 e no de 2021, até o presente momento, não foram lançados editais do Bolsa Atleta. Não surpreende, portanto, que o responsável pelos ataques à educação e às políticas públicas não tenha tuitado sobre nenhuma vitória brasileira. Esse fato lembra um outro dirigente político que se retirou em protesto de uma olimpíada quando um indivíduo da raça negra venceu uma prova de atletismo.

*Leonardo Avritzer é é professor do Departamento de Ciência Política da UFMG, coordenador do INCT - Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação e autor de diversos livros, entre eles o recente Política e antipolítica: a crise do governo Bolsonaro, Pêndulo da Democracia e Participatory Institutions in Democratic Brazil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL