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Amaury Ribeiro Jr

Brumadinho: "Triste no Dia de Finados não ter túmulo para orar pelo filho"

Sem túmulo das vítimas de barragem em Brumadinho, entrada da cidade serve como memorial no Dia de Finados - Amaury Ribeiro Jr./UOL
Sem túmulo das vítimas de barragem em Brumadinho, entrada da cidade serve como memorial no Dia de Finados Imagem: Amaury Ribeiro Jr./UOL
Amaury Ribeiro Jr

Natural de Londrina (PR), Amaury Ribeiro Jr é jornalista, escritor e compositor. Formado pela Faculdade Cásper Líbero, trabalhou como repórter especial dos jornais O Globo, JB, Correio Brazilense. Trabalhou também como editor da revista IstoÉ e produtor executivo da Rede Record. Em trinta anos, ganhou os principais prêmios de jornalismo: Esso (três), Embratel (dois), Líbero Badaró (dois), Vladimir Herzog (quatro), Rei da Espanha entre outros. É autor dos livros "Privataria Tucana", "O Lado Sujo do Futebol" (junto om Luiz Carlos Azenha e Leandro Cipoloni) e "Poderosos Pedófilos".

04/11/2020 04h02Atualizada em 04/11/2020 18h44

Um ano e nove meses depois do desabamento da barragem da Vale que provocou, no dia 25 de janeiro de 2019, a morte de pelo menos 270 pessoas e deixou 11 desaparecidas, o pânico ainda acompanha parte dos cerca de 200 moradores do povoado de Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG).

O trauma é agravado, segundo os moradores, porque sirenes de emergência que estão sendo acionadas na região para supostos "treinamentos" pelo menos duas vezes ao dia — às 5 e às 10 da manhã.

De acordo com a Associação dos Moradores do Córrego, grande parcela dos moradores acredita que a tragédia possa acontecer novamente e passou a usar com frequência antidepressivos e ansiolíticos.

Procurado pelo UOL, a Vale confirmou o acionamento das sirenes, com utilização de "música instrumental", em conjunto com as defesas civil do Estado e do Município. Segundo a Vale, a prática ocorre apenas no dia 5 de cada mês, e tem como objetivo estabilizar o sistema sonoro da barragem. Ainda de acordo com a mineradora, os moradores foram previamente avisados dos testes.

A coluna ouviu os relatos sobre o trauma ao passar o Dia de Finados no povoado nesta segunda-feira (2). "Os moradores têm pesadelos principalmente quando as sirenes de alerta tocam. Os moradores, no seu inconsciente, não sabem que é treinamento", disse o presidente da associação Jeferson Custódio Santos Vieira, 21 anos, que perdeu sua avó, Diomar Custódio, 57 anos, durante a tragédia.

Córrego do Feijão, em Brumadinho, tem ruas desertas e movimento no dia de Finados ocorreu só durante missa - Amaury Ribeiro Jr./UOL - Amaury Ribeiro Jr./UOL
Córrego do Feijão, em Brumadinho, tem ruas desertas e movimento no Dia de Finados ocorreu só durante missa
Imagem: Amaury Ribeiro Jr./UOL
A tristeza dos moradores se reflete nas ruas do vilarejo, que ficam praticamente desertas durante boa parte do dia, e pelo comércio, que fechou suas portas desde o desastre na mina da Vale.

"Isso aqui está muito triste. Não tem uma única só alma viva para a gente conversar. Quando conseguir vender minha casa, vou embora", afirmou José Soares, 61 anos, conhecido na região como Zeca. Pedalando sem rumo sua bicicleta por volta das 14 horas da segunda-feira de Finados, Zeca era o único morador que circulava no centro do povoado.

O pior da pandemia já passou. Mas o dono do único bar que não fechou está em pânico, só entrega a bebida por uma janelinha sem mostrar a cara.

Trinta minutos depois surge o guarda florestal Willas Maciel, que trabalha uma empreiteira que presta serviços para companhia Vale. Maciel acabara de ajudar uma tia na mudança. A exemplo de muitos moradores, ela resolveu deixar o Córrego para se curar da depressão na cidade de Brumadinho.

"Não são só as sirenes que fazem o Córrego viver o clima de terror. O dia inteiro é um entra e sai de caminhão e trator removendo até hoje a lama, o que torna insuportável viver aqui", disse Maciel.

O clima de abandono do povoado só foi quebrado por volta das 8 horas da manhã, quando foi celebrada uma missa na igreja Nossa Senhora das Dores, que atraiu parentes de várias cidades de Minas Gerais. Depois, as ruas voltaram a ficar vazias.

Obras de reparação após barragem rompida na região do Córrego do Feijão, matando 259 pessoas e deixando 11 desaparecidos - Karime Xavier/Folhapress - Karime Xavier/Folhapress
Obras de reparação após barragem rompida na região do Córrego do Feijão, matando 259 pessoas e deixando 11 desaparecidos
Imagem: Karime Xavier/Folhapress

Pelos cálculos de Ana Paula Assis, 32 anos, conselheira da associação dos moradores, só restaram 200 dos 500 habitantes do Córrego do Feijão antes da tragédia. "Muitos ainda não foram embora porque, como não têm registro definitivo de escritura de suas casas, a Vale e o mercado imobiliário quer pagar muito pouco por esses imóveis", disse Ana Paula.

Para a conselheira, a situação dos moradores tende a piorar porque em outubro terminou a ajuda de cerca de R$ 1.000,00 mensais que, como forma de indenização, recebiam da Vale. Uma reunião na sede do Ministério Público em Belo Horizonte entre representantes das vítimas e da empresa, no próximo dia 17, vai definir se a ajuda vai ser estendida. "Mas o pior de tudo é ver que ninguém foi preso por causa dessa tragédia", disse Ana Paula. Um clima de tristeza e revolta também marca a entrada da cidade de Brumadinho, onde os familiares dos 11 desaparecidos levantaram uma espécie de santuário para rezar pelas vítimas.

"É triste, no Dia de Finados, não ter um túmulo para rezar pela alma de meu filho", lamentou o operário Arnaldo Nunes, 60, que veio de Contagem (MG) para orar pelo seu filho, Thiago Rabelo, desaparecido aos 31 anos, cujo corpo ainda não foi encontrado, e pelos demais mortos.

De acordo com a líder do grupo de familiares dos desaparecidos, Natália Oliveira, que perdeu um irmão no rompimento da barragem, hoje a luta principal do grupo é pela localização dos corpos.