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André Santana

BBB21 vai mostrar, para quem ainda não sabe, que nem "todo preto se parece"

TodaTeen
Imagem: TodaTeen
André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

23/01/2021 04h02

Uma das máximas dor racismo brasileiro é considerar que "todo preto se parece".

Daí nascem os apelidos logo na infância, especialmente na escola, relacionados às poucas personalidades negras destacadas na mídia. Chamar crianças pretas de "Mussum" ou "Vera Verão" funcionava como tentativa de gozação, ao invés de homenagem a estes grandes artistas.

Também vem dessa ideia de que os negros são uma massa homogênea a expectativa de comportamentos semelhantes, aceitação das mesmas piadas e tratamentos e o posicionamento político único entre todos os negros.

Sérgio Camargo, da Fundação Cultural Palmares, e o vereador Fernando Holliday estão aí para provar que não é bem assim.

Em um país onde a população ainda considera a África um país, difícil esperar que saiba a diversidade de povos e culturas do continente africano que formaram o povo brasileiro que, miscigenado com indígenas, europeus e asiáticos, possibilitaram gerações de negros diferentes em fenótipos (traços físicos) e em hábitos e costumes.

Maior presença de participantes negros em 21 edições do programa

Uma pequena mostra dessa diversidade será, finalmente, apresentada pela televisão brasileira a partir desta semana, com a estreia do Big Brother Brasil. O reality show mais popular do país não escapou às exigências por representatividade e reconhecimento das pessoas negras. A 21ª edição terá a maior quantidade de negros em seu elenco em toda história do programa.

Dos vinte participantes, pelo menos nove podem ser reconhecidos como negros. 'Podem' porque no país que ainda não consegue resolver seus conflitos raciais a partir da compreensão das suas origens africanas (portanto diversas) perceber alguém como negro ainda não é fácil.

Principalmente quando esta pessoa está em um espaço de destaque positivo. Se for para desqualificar é bem rápido.

Para fazer justiça ao Brasil, podemos dizer que esse "conflito" não acontece apenas aqui. Quando a seleção francesa conquistou a Copa do Mundo de 2018 e a comunidade negra internacional destacou a ascendência africana de boa parte dos jogadores, os franceses trataram de ressaltou que todos tinham nascido na França. Sabemos bem que na hipótese do fracasso essa origem africana seria valorizada e apontada como justificativa. Aqui não seria diferente.

Participantes são de lugares, profissões e experiências diferentes

Voltando ao BBB21, a quantidade de participantes negros, mesmo ainda não sendo proporcional à presença na sociedade brasileira, revelará uma diversidade até então negada pela mídia em geral, mais especialmente pela televisão. O principal meio de comunicação de massa do país sempre restringiu a presença negra em sua programação, escolhendo a dedo totens representativos e contribuindo para essa percepção estereotipada de uma massa homogênea.

Será uma oportunidade para o país reconhecer como são diversos em histórias, culturas e opiniões. Muita gente vai descobrir, ainda que tardiamente, que tem preto se tornando doutor, preto ativista bem posicionado, preto já cancelado por declarações polêmicas, preto gay, preta lésbica, preto de pele clara, preta de cabelo liso, enfim, poderá aprender que a luta por igualdade de direitos não pressupõe a eliminação das diferenças individuais.

Para quem torce pelo entretenimento, a edição promete. Afinal, não é por acaso que a maior presença negra é no Camarote, ala da casa onde se concentram celebridades consolidadas ou em ascensão, que já gozam de certo prestígio do público.

Esta edição trará também um certo alívio para os ativistas negros que acompanham o reality show e que, nos últimos anos, tiveram que relevar certas atitudes e escolhas dos únicos negros da casa para manter o apoio em nome da representativa. Desta vez, poderão julgar, de certo modo, de forma mais justa.

Temas que atravessam o racismo cotidiano terão destaque

Para quem achou que 2020 já foi o suficiente em debates sobre racismo e os conflitos raciais neste país, a expectativa é que, a partir desta segunda-feira, 25, o tema seja ainda mais evidenciado no horário nobre da televisão e em todas as horas nas redes sociais.

Estarão em evidência pautas transversais urgentes como colorismo, palmitagem, feminismo negro, machismo do homem negro, racismo na comunidade LGBTQIA+ e outras questões cotidianas. Assuntos já tratados em rodas e conversas e que agora poderão ser compartilhados na sala de estar.

O mais interessante é que será debatido por diferentes perspectivas. Afinal, nem todo preto se parece, nem pensa igual.