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Interdição já! Capitão insano não pode desafiar o país

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

29/03/2020 13h51

Em claro desafio ao seu ministro da Saúde, que na véspera defendeu o confinamento, às recomendações da OMS, às leis e à saúde pública, o capitão Jair Bolsonaro saiu às escondidas do Palácio da Alvorada e foi às ruas de Brasília neste domingo, para abraçar e tirar fotos com devotos da sua seita, visitar comércios e um hospital, fazer propaganda de um remédio milagroso para a Covid-19 e publicar tudo no seu Twitter, o meio que ele encontrou para desgovernar o país.

Não pode passar de segunda-feira: o Congresso e o Supremo Tribunal Federal precisam tomar providências urgentes para interditar o presidente da República, antes que ele leve o país a uma catástrofe sanitária sem precedentes na nossa história republicana.

Se Bolsonaro não for contido a tempo, fica decretado o "liberou geral" para todo mundo voltar às ruas e o comércio reabrir as portas, acabando com o isolamento social, que foi adotado em todo o mundo civilizado para segurar o avanço da pandemia.

O gesto irresponsável do presidente já foi imitado hoje por milhares de pessoas que voltaram a passear pelas ruas de São Paulo, mesmo com os parques e cinemas fechados por ordem do governo paulista.

O espírito de manada parece ter sido inspirado pela monumental carreata de motocicletas e carrões que percorreu a cidade no sábado, fechou ruas e viadutos, desfilando com um caminhão fake do Exército e que foi acompanhada por carros de polícia, em flagrante exemplo de desobediência civil.

"Agora, em Taguatinga DF", "Agora, Ceilândia DF" foi tuitando o capitão, para avisar por onde estava passando, como quem diz: "venham para a rua me ver, esse ministro da Saúde não manda nada".

Não disse, mas deve ter pensado, enquanto ouvia um vendedor de churrasquinho se queixar da perda de freguesia.

No meio do passeio, resolveu dar uma parada de 20 minutos no Hospital das Forças Armadas, mas seus assessores não informaram o motivo.

Como tudo agora é mistério em torno do presidente, tanto ele pode ter feito um novo exame ou apenas visitado um amigo.

Nunca saberemos, como também não vimos até hoje o resultado dos exames anteriores que, segundo o presidente, deram negativo para o coronavírus.

De roupa esporte e sem máscara de proteção, com os seguranças sempre grudados nele, foi cumprimentando e abraçando quem encontrava pela frente, sem se preocupar que poderia contaminar ou ser contaminado pelos transeuntes, como se fosse prefeito de uma cidadezinha do interior, sem ter o que fazer na manhã de domingo.

Na tensa reunião de sábado com Mandetta e outros ministros, Bolsonaro insistiu no discurso de que "o Brasil não pode parar", campanha já abortada pela Justiça.

Indagado pelo ministro da Saúde se estava preparado para ver caminhões do Exército carregando os mortos, como aconteceu na Itália, ele não se abalou nas suas certezas.

Seguiu-se um ríspido diálogo em que Mandetta disse ao presidente que seria obrigado a criticá-lo, se ele fosse mesmo entrar num metrô em São Paulo ou numa barca no Rio, como chegou a ameaçar.

"Nesse caso, eu seria obrigado a te demitir", teria respondido o presidente, segundo fontes disseram a Eliane Cantanhede, que relatou o diálogo em sua coluna do Estadão.

É assim que a cúpula do desgoverno enfrenta a mais grave crise humanitária deste século.

Na mesma reunião, foi discutida a reabertura das escolas, como quer o presidente, mas o ministro da Educação não estava presente.

Abraham Weintraub sumiu do mapa desde que eclodiu a pandemia, mas continua ativo nas redes sociais.

Às 23 horas de sexta-feira, o ministro mostrou como está preocupado com a educação brasileira, ao publicar esta inacreditável mensagem no Twitter:

"Fiz uma coisa feia: assisti o JN/Globo. Fiquei com medo! Independente da gravidade da doença, o coronavírus será o pretexto para que destruam nossas liberdades. Nunca mais sua empresa, sua profissão, sua casa, sua família serão suas, como antes".

Neste clima de fim de feira, o Brasil vai entrar nos próximos dias na fase mais aguda da contaminação por coronavírus, com um ministro da Saúde desmoralizado e um presidente aloprado que dá uma banana para a ciência e para os fatos.

Interdição já!

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