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Nada a ver: não confundam "Direitos Já" com "Diretas Já"

Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

25/06/2020 17h36

A ideia do movimento "Direitos Já" era fazer um revival da campanha das "Diretas Já", que foi o divisor de águas entre a ditadura e a democracia, em 1984.

Mas tudo deu errado nesta tentativa grandiosa de montar um palanque virtual suprapartidário, com os ex-presidentes da República, além dos principais líderes da oposição e da sociedade civil.

Para começar, em 1984 havia um grande líder, Ulysses Guimarães, o "Sr. Diretas", e uma luta unificada pela volta das eleições para a presidência da República, já nos estertores do regime militar.

Ao lado de Brizola (ou Doutel de Andrade) e Lula, doutor Ulysses comandou comícios de ponta a ponta do país.

Fui testemunha ocular desta história, que está contada no meu livro "Explode um Novo Brasil _ Diário da Campanha das Diretas" (Editora Brasiliense).

Ninguém mais defendia a ditadura àquela altura, a não ser os militares que estavam no governo do general Figueiredo e os deputados do Centrão da época, o que restou da velha Arena.

Agora, o presidente eleito Jair Bolsonaro ainda mantém em torno de 30% de apoiadores fiéis e furiosos, acaba de adquirir o novo Centrão de porteira fechada, e também está cercado de generais no governo, a maioria de pijama.

De outro lado, temos uma oposição partidária completamente fragmentada, sem nenhum líder capaz de juntar os pedaços e que não se entende nem sobre qual deve ser a bandeira do movimento "Direitos Já", criado por um dissidente tucano, o cientista social Fernando Guimarães, de quem eu nunca tinha ouvido falar.

Trata-se de um fórum de debates que jamais saiu às ruas, nem antes da pandemia.

O objetivo era criar um espaço "onde pudéssemos deixar as diferenças, as disputas, os projetos eleitorais de lado, para nos concentrarmos na defesa do estado democrático de direito, dos valores que estão na nossa Constituição".

Até aí, estamos todos de acordo, assim como somos a favor da energia elétrica e da água encanada.

E daí?, como indagaria o capitão Bolsonaro, que não foi nem citado no texto de apresentação da live programada para esta sexta-feira, às 19 horas, na página do Facebook do movimento "Direitos Já".

Dos ex-presidentes convidados, só Fernando Henrique Cardoso confirmou presença.

Michel Temer chegou até a mandar um vídeo, mas desistiu por achar que no ato "há um tom crítico a Bolsonaro", no que foi acompanhado por José Sarney. Lula e Dilma agradeceram, mas dispensaram o convite.

Como é que se pode imaginar um ato em defesa da democracia sem criticar quem mais a ameaça, com a escalada autoritária e anti-civilizatória do presidente da República, que está destruindo o país, tijolo por tijolo, acabando com os direitos dos trabalhadores e desafiando as instituições, com a fúria de um exército de ocupação?

Cada um dos 100 participantes confirmados terá direito a uma fala entre um e dois minutos "para apresentar suas visões de país".

Pelo jeito, não devem ter visões muito profundas. Mais fácil seria cada um mandar sua mensagem pelo Twitter.

Os organizadores preveem que o evento deverá durar 4 horas. Melhor fariam se gastassem esse tempo exibindo um documentário sobre a campanha das "Diretas Já", para mostrar aos mais jovens como se lutava por democracia na época da ditadura.

Vida que segue.

Balaio do Kotscho