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Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O vento virou: Lula ressuscitado pelo STF muda todo o cenário para 2022

Com a devolução dos seus direitos políticos pelo STF, Lula voltou com a corda toda para viajar pelo país e devolver a esperança ao povo - Reprodução / Internet
Com a devolução dos seus direitos políticos pelo STF, Lula voltou com a corda toda para viajar pelo país e devolver a esperança ao povo Imagem: Reprodução / Internet
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

02/04/2021 16h26

Nem Lula esperava a virada do vento que, de uma hora para outra, o devolveu ao protagonismo do cenário político, após os recentes julgamentos favoráveis no STF, mas o velho guerreiro já voltou com a corda toda.

Emendou uma entrevista atrás da outra aos principais veículos da mídia internacional, e não saiu mais do celular e do computador, para conversar com todo mundo, de todos os setores da sociedade, sobre os rumos do país e seus projetos de reconstrução nacional, no pós-pandemia e a hecatombe bolsonarista.

Nunca vi Lula tão animado com a vida em mais de 40 anos de convívio. Tenho falado com ele quase todos os dias e o encontro sereno, centrado, refeito do trauma da prisão, disposto a começar tudo de novo, mas ele sabe que não é hora de falar sobre eleições agora.

De posse novamente dos seus direitos políticos, em meio à grande tragédia brasileira, o ex-presidente tem como prioridade absoluta se empenhar na luta pela vacinação em massa da população para salvar vidas e o que resta da economia esfacelada.

A partir de agora, qualquer conjectura sobre a sucessão presidencial de 2022, de um jeito ou de outro, vai ter o ex-presidente no centro das discussões políticas sobre o futuro do país.

É isso que explica os movimentos desesperados de Bolsonaro para retomar as rédeas do seu governo, ao sentir que o projeto de reeleição _ o único que o capitão tem _ está indo para o ralo, com inesperada celeridade, como mostram todas as últimas pesquisas.

Foi também o que mobilizou rapidamente os presidenciáveis do chamado "centro", o nome de fantasia da nova direita, que se apressou esta semana em lançar um manifesto em defesa da democracia para formar uma aliança contra Bolsonaro e Lula, a chamada "terceira via", que naufragou em 2018.

Curioso é que dos seis signatários Doria, Ciro, Huck, Amoedo e Eduardo Leite (quem?) _ cinco votaram em Bolsonaro e fizeram a campanha de 2018 aliados a ele contra o PT.

A novidade foi a inclusão neste bloco do nome de Ciro Gomes, que votou nele mesmo, e agora desitiu de disputar a hegemonia na esquerda com o PT, caminho que lhe foi fechado com a volta de Lula. Ex-tucano, ex-socialista e agora neo-brizolista, o ex-ministro dos governos Itamar e Lula decidiu fazer uma opção preferencial pela direita em busca de um novo nicho de mercado.

Ex-juiz e ex-ministro de Bolsonaro, Sergio Moro não entrou no bloco porque agora é um homem de negócios e não quer prejudicar a empresa multinacional americana onde trabalha.

De repente, todos querem se livrar de Bolsonaro, que virou uma espécie de Geni da política, mas sabem que o único capaz de derrotar o capitão é Lula, por um motivo muito simples: o povo vivia muito melhor nos governos dele e tem saudades daquele tempo. Isso ninguém tem como negar.

Lula sente que o astral das pessoas com quem conversa já mudou. Elas voltaram a ter uma fresta de esperança de que o país possa novamente sair do buraco em que se meteu dois anos e pouco atrás.

Podem tirar tudo do povo, menos a esperança e o direito de sonhar com dias melhores após todas essas desgraças que se abateram sobre nós.

Antes, as pessoas podiam trabalhar, estudar, comer, viajar, fazer planos, sem medo do amanhã. Agora, não podem nem morrer porque não há mais vagas nos cemitérios.

Uma pequena amostra da diferença do sentimento e do interesse em relação a Bolsonaro e Lula foi dada na quinta-feira.

Enquanto Lula falava para 271.435 ouvintes em entrevista a Reinaldo Azevedo na BandNews FM, apenas 13.031 devotos assistiam à inacreditável live semanal do capitão.

Apesar do chega pra lá que levou esta semana dos generais, Bolsonaro voltou a falar em "meu Exército brasileiro", defendeu o tratamento precoce e atacou os governadores e o isolamento social, em sua campanha suicida a favor do vírus.

"Estamos vivendo um genocídio causado pela irresponsabilidade de um único homem, que brinca com a doença, que zomba da doença, que inventa remédio", disse o ex-presidente a Azevedo. E deu um conselho ao presidente em exercício:

"Fecha a boca, Bolsonaro.. Não adianta ficar falando bobagem. Deixa o médico falar por você. Da mesma forma que você não sabe falar de economia, não sabe falar de saúde. Deixa de ser ignorante, presidente. Para de brigar com a ciência. Para de falar para seus milicianos, fale para 212 milhões de brasileiros".

Com o discurso bem afiado, em poucos dias Lula tomará a segunda dose da vacina e logo irá começar a fazer outra vez o que mais gosta: viajar em caravanas pelo país para ver de perto como os brasileiros estão vivendo, ouvir suas queixas e seus sonhos, animar os desalentados, falar de planos para o futuro.

Aos 75 anos, Lula já foi dado várias vezes como morto politicamente, mas sempre ressurgiu mais forte, calejado pelas derrotas e pelos tombos da vida, com o ânimo redobrado, até para casar de novo com a namorada Janja, assim que a pandemia permitir.

Lula ainda é o maior animador deste grande auditório chamado Brasil.

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL