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Camilo Vannuchi

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nos 50 anos do Clube da Esquina, os sonhos ainda não envelheceram

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Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

17/03/2022 00h03

Ouvíamos muito Milton Nascimento lá em casa. Minhas lembranças mais remotas desse gigante são de 1985, 1986, por aí. Um quase presidente havia morrido e a TV passou a reproduzir versos bonitos que nos recomendavam cuidar do mundo e tomar conta da amizade. Amigo, aliás, era coisa para se guardar debaixo de sete chaves, do lado esquerdo do peito. Menino e moleque, como aquele que vinha dar a mão aos adultos toda vez que a bruxa lhes assombrava, enchia minha mãe de perguntas. O que era Pan-Air? E bonde? E motorneiro? O que era sentinela? E cálix bento? E travessia? Eu também precisava ter essa tal de gana ou apenas a Maria precisava?

Tínhamos uma vitrola e uma sala com carpete. Gostava de espalhar os LPs pelo chão e admirar as capas dos álbuns. Em algumas, o capricho era excepcional. Para além dos envelopes quadrados onde se enfiavam os discos, havia as capas com encartes, às vezes com todas as letras e os nomes dos músicos que executavam cada faixa. Havia também as capas que se desdobravam em duas ou três folhas. As capas dos discos do Milton eram, de longe, minhas preferidas. Numa delas, a mais linda de todas, havia umas montanhas, um sol e um trem de ferro impressos em tinta prateada sobre fundo ocre. Era o "Geraes", que àquela altura me parecia não apenas um nome pela metade como um erro de ortografia. Será que Milton não sabia escrever direito? Aí eu pegava outra capa, na qual despontava, como título, a metade que me faltava. Era o "Minas". Pronto: Minas Geraes. Sem as letras prateadas, esse segundo álbum exibia o close de um rosto negro, o mais preto que eu conhecia, com um olhar indolente, cansado, de alguém que parecia ter tanta história para cantar.

Até que encontrei as capas do "Clube da Esquina", volume 1 e volume 2. As vozes do álbum por certo deveriam estar ali. Não fazia sentido gravar um disco e colocar outra pessoa na capa, eu pensava. Espertalhão, imaginei ter matado a charada, como muitos ouvintes da minha geração e da geração anterior: se o disco era assinado por dois artistas e havia duas crianças na imagem, uma branca e uma negra, certamente se tratava de uma foto antiga de Milton Nascimento e Lô Borges. Nada a ver, eu descobriria tempos depois. Adotando a mesma lógica, deduzi que os dois, agora um pouco maiores, estavam entre os garotos trepados num muro na capa do segundo volume. Mas cadê o clube? Seria aquele o muro do clube? E seria aquele um clube para crianças, como um clube da Luluzinha ou do Bolinha, ou um clube voltado para brincadeiras e matinês? Por que tanta criança nas capas?

Até muito recentemente, eu nunca havia sido sócio de um clube. Nenhum, nem aquático, nem social, nem fã-clube, tampouco clube de livros. Isso fazia aumentar ainda mais minha curiosidade sobre aquele tal Clube da Esquina. Estranhava o fato de não haver nenhuma fotografia das dependências do clube naqueles encartes. Nada de piscina, sauna, vestiário, mesa de sinuca ou salão de baile. Eu, hein.

Conforme o tempo foi passando, e eu me tornava adolescente, passei a decifrar nas faixas de Clube da Esquina um universo em encanto, onírico, de luz e magia. Havia ali algo de Beatles, que eu já conhecia e cantarolava, e também de roda e batuque. Entre o cheiro do cravo e a cor de canela, havia algo de parlenda, algo de congada, de festa do Divino. Tudo que você podia ser, ou nada. Pronto, estava decidido: eu queria ficar sócio daquele clube.

Lançado em março de 1972, o primeiro Clube da Esquina era todo fora da caixa, avant la lettre, e talvez por isso tenha chegado tão enxuto aos 50 anos. Álbum duplo quando ninguém gravava álbum duplo. Vinte e uma faixas quando o normal eram dez. Muitos cantores e músicos, uma pletora deles, com parcerias, timbres e ritmos diversos. Tambor, piano e guitarra elétrica. Uma canção em espanhol, com pinta de trova revolucionária, composta por um veterano da Guerra Civil Espanhola, em tempos de golpe no Brasil, no Chile, na Argentina e no Uruguai. Um rodízio maluco de instrumentos: Milton fazendo backing vocal e tocando piano, Lô Borges e Beto Guedes cuidando da percussão, cada coisa que só vendo. Na ponte aérea Pampulha-Heathrow, sem tirar os pés do chão, o clube abalou estruturas falando em português e com a voz serena, sem muito alarde, fabulosos desbravadores.

Meio século depois, com uma série documental (para assinantes GloboPlay) e um podcast destrinchando aquele que é um dos álbuns mais espetaculares da música popular brasileira, inspiramo-nos com as histórias de um grupo de amigos que começou a tocar e a cantar meio por acaso, como quem não quer nada, numa casa de esquina prosaica, na confluência das ruas Divinópolis e Paraisópolis, em Belo Horizonte. Também adentramos os espaços de um casarão em Niterói, na região metropolitana do Rio, onde aqueles grandes amigos voltaram a se encontrar, e a morar juntos, alternando banhos de mar e jam sessions, e onde as músicas do álbum foram sendo escritas e arranjadas. Primeiro, Lô Borges, Milton Nascimento e Beto Guedes, com letras deles e de Márcio Borges, Fernando Brant e Ronaldo Bastos. Em seguida, Tavito, Wagner Tiso, Toninho Horta e Nelson Ângelo. Com as participações de Raul de Souza, Paulo Moura, Luiz Alves, Robertinho Silva e Rubinho, Eumir Deodato, Alaíde Costa (na voz) e Gonzaguinha (no backing). Vanguarda.

Hoje, meu filho tem 10 anos e pede para ouvir "Paisagem da Janela" quando entramos no carro. Cantarola de cor a maioria dos versos. "Cavaleiro marginal, lavado em ribeirão / cavaleiro negro que viveu mistérios / cavaleiro e senhor de casa e árvore / sem querer descanso, nem dominical." Eu, de minha parte, repito para mim mesmo que os sonhos não envelhecem, como uma espécie de mantra, talvez para me convencer das minhas próprias palavras. E busco refúgio no som e no sentido do Clube da Esquina para rejuvenescer esses sonhos.

Há muito sonho no Clube, por sinal. "Sonhos não envelhecem e, em meio a tantos gases lacrimogêneos, ficam calmos, calmos, calmos", diz a letra da canção "Clube da Esquina nº 2", de Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges. "Um dia, qualquer dia de calor, é sempre mais um dia de lembrar a cordilheira de sonhos que a noite apagou", dizem os versos de "Os povos", de Milton Nascimento e Márcio Borges. "Alguém que vi de passagem, numa cidade estrangeira, lembrou os sonhos que eu tinha e esqueci sobre a mesa, como uma pera se esquece, dormindo numa fruteira", ouvimos em "Um gosto de sol", de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos.

Num momento em que Milton Nascimento se aproxima dos 80 anos e se prepara para rodar o Brasil naquela que vem sendo anunciada como sua última turnê, é bom voltar ao Clube. Muitas vezes mais.