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Camilo Vannuchi

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Jair Bolsonaro tem até o dia 15 para se tornar candidato a deputado

O presidente Jair Bolsonaro (PL) participa de evento do agronegócio em São Paulo - ETTORE CHIEREGUINI/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO
O presidente Jair Bolsonaro (PL) participa de evento do agronegócio em São Paulo Imagem: ETTORE CHIEREGUINI/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO
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Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

04/08/2022 04h00

Atenção

  • Este texto é uma crônica. Pela lei eleitoral, Bolsonaro já não pode ser candidato a deputado nesta eleição; apenas a presidente.

Vai por mim, presidente. Pensa nos teus filhos. Pensa na tua esposa. A melhor opção que você tem, talvez a única, é disputar uma vaga na Câmara. E você só tem dez dias para bater o martelo. O prazo para registrar a candidatura acaba no dia 15.

Não vou dizer que é conselho de amigo, porque estaria mentindo. Mas, cara, é só analisar os dados. Coisa de vagabundo da USP? Não! Analisar dados é tipo inspecionar o terreno, reconhecer o exército inimigo, saca? Estratégia, capitão!

Bom, em primeiro lugar, tem o fator Lula. Ele é foda. O cara ia ganhar de você quatro anos atrás, você sabe, sem nem pôr os pé pra fora da superintendência da Polícia Federal. Agora, rodando o país, não tem escapatória. A campanha nem começou e ele já bateu nos 47 pontos. O recorde de intenção de votos que você teve no primeiro turno de 2018 foi 36 pontos, lembra? Tanto no Ibope quanto no Datafolha. Percebe o enrosco?

E não é só o Lula, não. Os caras se uniram, capitão. Tá tudo armado. Tem assinatura pra dedéu naquela carta pela democracia. Fora um monte de partidos e uma cambada de artista apoiando. A propósito, acho que você bobeou. Devia ter esculhambado menos a Lei Rouanet. E a Anitta também. Acabou se queimando também entre os mais jovens. Sem falar no Nordeste. Ali, tá tudo dominado. Só proibindo essa galera de votar? Que é isso, capitão? Não fala um troço desse nem de brincadeira. As paredes têm ouvidos.

Presidente, tô falando essas coisas pro seu bem. Minha vó dizia que, quanto maior a queda, pior o tombo. A Janja que me desculpe, mas o cara é sedutor demais. Só falta conquistar os votos dos ciristas. E olha que eu não duvido nada. Mas é aí que entra o segundo fator para ser analisado: o xadrez.

Não, presidente, eu sei que você não joga xadrez. Me refiro à cadeia, prisão, xilindró. Você sabe que, sem o foro privilegiado, pode rolar um indiciamento, um pedido de busca e apreensão, uma condução coercitiva e até uma prisão preventiva. Já pensou? Imagina você sem cargo nenhum, nem no Parlamento. São 32 anos com mandatos ininterruptos e, de repente, cataploft. Vai arriscar? Pensa nos meninos. Pensa na patroa.

Olha, capitão, eu até consigo entender que você, no fundo, esteja doido para ficar sem mandato. Imagina, que maravilha! Passeio de moto todo dia, churrasco no Vivendas da Barra, sem aquele bando de jornalista pegando no seu pé. Convenhamos que você nem trabalhou tanto assim nesses últimos anos - desde o primeiro mandato como deputado, na real -, mas não dá para exigir que todo político tenha o pique dos caras da esquerda. De qualquer forma, cara, acho melhor não bobear. Não é hora de querer descansar. Não agora.

O melhor que você tem a fazer é garantir um mandato, pelo menos mais um, não importa o cargo. Em pouco tempo, o brasileiro vai voltar a comer, a economia vai voltar a girar, os preços vão baixar e logo essa gente vai se esquecer de você. Até o Alexandre de Moraes vai se esquecer de você, tenho certeza. Mas, nesses próximos quatro anos, você não pode baixar a guarda. Por isso insisto: volta pra Câmara, presidente.

Os gabinetes no Legislativo não são tão espaçosos e aconchegantes quanto o do Palácio do Planalto, eu sei. Também fazem falta os cartões corporativos da Presidência da República. E nenhum apartamento funcional chega aos pés do Alvorada. Mas logo você se acostuma.

Cara, foram 28 anos circulando por ali, não é possível que você não sinta saudade. Nenhuma? Aliás, tem muito parlamentar que vai ficar feliz em ver você de volta. Talvez não sejam tantos, mas certamente haverá alguns. Bom, pelo menos o Zero Três.

Não, presidente, ninguém vai dizer que você amarelou. Nem que você deu uma fraquejada. É só você falar que existe um complô contra você, que o STF é o maior partido de esquerda do Brasil, tudo isso que você tem feito. Já sei: compara com o Trump. Você vai sair aplaudido, um mártir da liberdade de expressão e contra isso tudo que está aí. E ainda por cima com a glória de ser o deputado mais votado do país.

Ah, capitão, tive um insight! Não, presidente, eu sei que você não fala inglês. O que eu quis dizer é que tive uma ideia, me acorreu um pensamento. Sabe aquela parede em que você exibia os retratos de todos os presidentes da ditadura, todos os militares? Pois é, agora você também vai poder pendurar um retrato seu ali! Não é o máximo?

Vai por mim, presidente. Bolsonaro pra deputado federal! Já reserva o número 2222 antes que alguém pegue. Esse é bom de decorar. São quatro patinhos na lagoa. Você ainda pode encomendar uma vinheta com cinco patos de verde-e-amarelo fazendo arminha no espelho d'água do Congresso. Olha que genial. Quem precisa de Steve Bannon? Ah, também pode tirar foto pra campanha fazendo o número 2. Não, presidente, não é pra tirar foto cagando. É pra mostrar dois dedos pra foto, tipo o V da vitória. Eu, hein.

Pensando bem, será que não é mais prudente concorrer à Assembleia Legislativa?