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Cristina Tardáguila

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Já há imagens e vídeos falsos da explosão no aeroporto de Cabul

16.ago.2021 - Homem puxa uma criança para dentro dos muros do aeroporto internacional de Cabul, Afeganistão - Stringer/Reuters
16.ago.2021 - Homem puxa uma criança para dentro dos muros do aeroporto internacional de Cabul, Afeganistão Imagem: Stringer/Reuters
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Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

26/08/2021 12h43

A explosão registrada nesta quinta-feira (26) nas redondezas do aeroporto de Cabul, no Afeganistão, deixou um número ainda indefinido de mortos e amplificou - de forma imensurável - a desinformação que rodeia esse assunto nas redes sociais e aplicativos de mensagem. Atenção extra às imagens e gravações falsas (muitas delas extremamente delicadas) que já viralizam por aí.

É antiga, por exemplo, a imagem que diversos canais de televisão da Índia estão compartilhando na internet como sendo do momento exato da explosão. Segundo os checadores da AFP na Ásia, a foto que está sendo disseminada hoje foi feita no dia 16 deste mês - e, portanto, não tem qualquer relação com o triste evento desta quinta-feira. É urgente, portanto, lembrar - inclusive comunicadores e jornalistas - sobre a importância de verificar as imagens e as gravações que passarão a difundir nas próximas horas, quando forem tratar do mais novo capítulo dessa crise.

Desde o dia 15 de agosto, quando o grupo fundamentalista islâmico do Talibã retomou o governo do Afeganistão, fact-checkers de todo o mundo lutam contra as notícias falsas e manipuladas relativas a este assunto.

É antigo e foi gravado na Síria vídeo que circula pelo WhatsApp e que mostra supostas execuções feitas plo Talibã. A Agência Lupa informou esta semana que a gravação não mostra o início dos "julgamentos coletivos" no Afeganistão. Na verdade, ela foi feita no início de 2014, meses depois de grupos rebeldes extremistas islâmicos tomarem o hospital Al-Kindi, em Aleppo, na Síria.

Também foi gravado na Síria, em 2015, o vídeo que mostra a execução de uma mulher pelo grupo terrorista Al-Qaeda. Ou seja, não tem qualquer relação com o atual momento vivido pela sociedade afegã.

Os checadores do Aos Fatos mostraram que também não é nova - nem do Afeganistão - foto que supostamente mostra um avião de carga lotado de passageiros que estariam fugindo do Talibã. A fotografia data de 2013, foi feita nas Filipinas e mostra uma operação de resgate feita pelos EUA por conta da passagem de um tufão.

As notícias falsas sobre a crise política no Afeganistão também abriram portas para ataques à reputação - e o principal alvo tem sido a ativista paquistanesa e Prêmio Nobel da Paz, Malala Yousafzai. É falso que ela esteja calada ante a situação imposta às mulheres no Afeganistão, como tentam difundir blogs e publicações em redes sociais.

E, como se não bastasse, é urgente alertar leitores para a criação de páginas e perfis falsamente conectados a grandes empresas de comunicação. Há alguns dias, o Poynter Institute demonstrou que perfis de Twitter como @CNNAfghan, @MSNBCAfghan e @BBCAfghanNews não têm qualquer conexão com CNN, MSNBC e BBC. As três contas passaram dias difundindo a informação falsa sobre o suposto assassinato de um jornalista chamado Bernie Gores. Fato é que Gores jamais existiu e que o Twitter já bloqueou esses perfis. Mas a desinformação corre solta sobre o Afeganistão.

Cristina Tardáguila é diretora sênior de programas do ICFJ e fundadora da Agência Lupa

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL