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Cristina Tardáguila

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Versão brasileira da invasão ao Capitólio já está nas ruas e deve crescer

Polícia investiga suposto tiro em janela com bandeira do PT - Reprodução/Redes Sociais
Polícia investiga suposto tiro em janela com bandeira do PT Imagem: Reprodução/Redes Sociais

Colunista do UOL

23/09/2022 04h00

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Haverá uma versão brasileira da invasão do Capitólio? As mentiras que circulam sobre as urnas e o processo de totalização de votos vão oxigenar o ódio? A violência política pode tomar as ruas do país?

Sim. Sim. E sim. E, para ter certeza disso, basta olhar ao redor. Nesta semana, o UOL noticiou que uma janela com a bandeira do PT foi atingida por tiros no Recife, que um candidato da Bahia teve a casa pichada com ofensas racistas e que um pesquisador do Datafolha foi agredido no interior de São Paulo. Nossa versão brasileira do Capitólio já está acontecendo — e tudo indica que vai crescer ainda mais.

Em 6 de janeiro de 2021, o mundo parou para assistir a uma horda de homens e mulheres entrarem — armados e aos berros — no emblemático edifício do Congresso americano, na cidade de Washington, D.C. Inflamado por inverdades que haviam viralizado pela internet e que tinham sido oxigenadas pelo então presidente Donald Trump, o grupo acreditava que a eleição presidencial dos Estados Unidos havia sido fraudada e que eles precisavam agir, impedindo a posse de Joe Biden.

Naquele dia, cinco pessoas morreram. Um policial foi atingido na cabeça com um extintor de incêndio. Uma invasora foi baleada e morta enquanto escalava uma janela quebrada do Capitólio.

Vamos ao Brasil. Entre janeiro e julho deste ano, ao menos 26 pessoas morreram em decorrência de disputas políticas. O dado vem do Monitor de Crimes Políticos mantido há quase uma década pelo jornal O Estado de S. Paulo e não deixa dúvidas: o Brasil já contabiliza pelo menos cinco vezes mais mortes por motivações políticas do que o 6 de janeiro americano. E as cenas de horror são bem parecidas.

Em Mato Grosso, um homem foi preso em flagrante no início do mês depois de matar — a facadas e machadadas — e tentar decapitar outro homem por conta de desavenças políticas. Semanas antes, no Paraná, um homem invadiu uma festa e disparou contra o aniversariante. O evento tinha como tema o ex-presidente Lula e o PT, e, segundo testemunhas, o assassino gritou fazendo referências ao presidente Jair Bolsonaro segundos antes de atirar.

Agora, o pior: no Brasil, a desinformação eleitoral, o ódio político e o horror derivado dessa combinação ainda têm muito espaço para crescer — antes mesmo da votação. Note.

Dados coletados pela comissão que investiga o ataque de 6 de janeiro de 2021 mostram que o então presidente Donald Trump começou a atacar a lisura do processo eleitoral americano em abril de 2020, ou seja, sete meses antes da votação. O presidente Jair Bolsonaro o faz há bem mais tempo. Nosso mandatário coloca o sistema brasileiro sob suspeita desde 2019. Chegou a ser convocado pela Justiça para apresentar provas de que teria vencido no primeiro turno em 2018, mas jamais o fez. O tempo de fala presidencial contra a lisura das eleições é ao menos três vezes maior aqui do que foi nos EUA. Há muita lenha na fogueira.

Nos Estados Unidos de 2021 (pós-eleição), 58% dos votantes acreditavam na vitória de Joe Biden e 42% tinham alguma dúvida sobre o resultado, mostrou pesquisa feita naquele ano pelo Axios-Momentive. No Brasil, levantamento divulgado pelo Ipespe neste mês (ou seja, antes das eleições) já indica que 40% da população acha possível haver fraude nas urnas. O espírito está armado.

E qual é o combustível dessa fogueira? As notícias falsas.

Do infundado "Datapovo" às deepfakes que alteram edições do Jornal Nacional, o brasileiro é alvo de insanidades. Por isso, deixo aqui algumas informações básicas para rebater o ataque às urnas. Não deixe de compartilhá-las com familiares e amigos antes do 2 de outubro.

  1. A urna eletrônica é - sim - auditável. O processo tem 10 etapas. Partidos, Ministério Público e Polícia Federal podem participar da auditagem.

A auditoria das urnas começa com o teste público de segurança. Passa pela abertura dos programas que são utilizados tanto para os partidos quanto para seus técnicos. Em seguida, há a assinatura digital. No momento em que o programa é inserido na urna, os partidos também estão lá, se quiserem, para fiscalizar junto com o Ministério Público e a Polícia Federal. Depois sai a zerésima (boletim impresso pelo mesário, antes do primeiro eleitor votar, para provar que a urna não carrega nenhum voto computado anteriormente). Temos ainda o boletim de urna (emitido no encerramento da jornada eleitoral, com o total de votos computados na seção). Há o teste de integridade, que é a seleção de urnas aleatórias para uma auditoria no dia da eleição. E temos o RDV, que é o Registro Digital do Voto, um arquivo que contém todos os votos, como se fosse uma urna de lona, só que não identificando o eleitor. Não há razão para que digam que a urna não pode ser auditada e que seu sistema é opaco.

  1. As urnas não podem ser violadas e não houve fraude em eleições passadas.

As urnas eletrônicas não estão conectadas à internet e, portanto, "não são passíveis de acesso remoto". Fora isso, desde 1996, quando o sistema eletrônico foi adotado, nunca se documentou nem se comprovou nenhum caso sequer de fraude. Em 2014, o PSDB chegou a solicitar uma checagem junto ao TSE e acabou concluindo que não houve qualquer problema no pleito. A urna é confiável.

  1. Mesmo que um hacker invada o TSE, a eleição não será afetada.

É claro que ninguém está imune a ataques. Se Nasa e FBI padecem com ameaças de hackers, o TSE possivelmente também enfrenta (ou enfrentará) uma guerra cibernética. Vale lembrar, no entanto, que ainda que hackers consigam derrubar o sistema eleitoral do Brasil, eles não terão como comprometer o resultado das eleições. As urnas eletrônicas jamais estão integradas a esse sistema e, como já dito, não estão ligadas à Internet. O voto computado na urna fica lá.

Cristina Tardáguila é diretora do ICFJ e fundadora da Lupa