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Cristina Tardáguila

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mulher? Famosa? Com opinião política? Dá-lhe 'fake news' nela...

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Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

20/01/2022 14h40Atualizada em 20/01/2022 17h10

Ivete Sangalo não anunciou que "deixará o Brasil" depois de puxar coro contrário ao presidente Jair Bolsonaro em show realizado no fim do ano passado. Ela também não "foi fotografada cheirando cocaína" nem sabidamente "sustenta o narcotráfico". Ivete tampouco "perdeu mais de 100 mil seguidores no Instagram" por revelar suas opiniões políticas.

Ivete é apenas mais uma das diversas atrizes, cantoras e produtoras culturais que, nos últimos meses, foram vítimas de intensas campanhas difamatórias criadas em redes sociais e aplicativos de mensagem. Usando fotos manipuladas, fora de contexto e informações inverídicas, milícias digitais parecem buscar o óbvio: silenciar vozes femininas que têm alcance e estão prontas para falar de política.

E quem se dedica à checagem de fatos no Brasil já percebeu que esses ataques viraram uma tendência. Outra preocupação para o ano eleitoral que se inicia.

No fim de 2021, a vítima foi a atriz Paolla Oliveira. Depois de se posicionar de forma crítica às manifestações convocadas por Bolsonaro em 7 de setembro, Paolla virou alvo, com acusações de que ela teria dito que "as atrizes da Globo teriam que se prostituir caso o presidente fosse reeleito". Paolla percebeu a tentativa de silenciamento e foi ao Instagram reclamar:

"Mais uma narrativa tentando intimidar quem se posiciona ou se opõe a esse governo. Dessa vez fui eu a vítima", escreveu. "Não vão me calar sobre absolutamente nenhum dos meus posicionamentos, porque eles são meus e sou livre pra fazê-los".

Demorou semanas para que a atriz deixasse de ser pauta em canais de Telegram e grupos de WhatsApp.

Susana Vieira e Maria Flor vieram antes dela e engrossam a lista de mulheres que têm destaque no mundo das artes e foram crucificadas com mentiras na internet por anunciarem de forma clara sua posição política.

Em maio, Susana disse que não aprovava "nada do governo de agora", em referência à atuação de Bolsonaro. Passou a ser chamada de traidora por desconhecidos que afirmavam - sem qualquer evidência - que ela havia declarado apoio a Bolsonaro nas eleições de 2018. Susana (com razão) não gostou.

"Recebi várias mensagens sobre declarações minhas no Facebook que eu nem tenho, que eu NUNCA falei e que eu NÃO concordo, inclusive!!! Estejam atentos!", protestou a atriz em seu perfil no Instagram.

Maria Flor, por sua vez, precisou colocar a boca no trombone em janeiro do ano passado para defender seu trabalho. Ao contrário do que afirmavam centenas de posts que viralizavam em apps de mensagem e redes sociais abertas, a atriz não "abocanhou R$ 10 milhões da Ancine em governos petistas". Uma simples consulta à base de dados da agência mostrou todos os projetos apresentados pela produtora da qual a atriz é sócia e deixou claro: são apenas oito e somam R$ 924 mil. Cinco deles foram aprovados no governo Michel Temer. Três, no de Dilma Rousseff. Mas os desinformadores não estavam - nem nunca estiveram - preocupados com fatos.

Maria Flor, Susana, Paolla e Ivete parecem ser vozes que precisam ser caladas. Bom saber que não silenciarão.

*Cristina Tardáguila é diretora sênior de programas do ICFJ e fundadora da Agência Lupa