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Cristina Tardáguila

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mentiras sobre título mostram que WhatsApp ainda assombra eleições

Pessoa segurando título de eleitor - SOPA Images/LightRocket via Gett
Pessoa segurando título de eleitor Imagem: SOPA Images/LightRocket via Gett
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Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

05/05/2022 10h33Atualizada em 05/05/2022 16h39

Depois de termos passado semanas discutindo o uso e o bloqueio do Telegram no Brasil, vimos, nesta semana, que o que realmente nos assombra ainda é o velho e bom WhatsApp.

Foi colossal a avalanche de mentiras relativas ao título de eleitor que tomou o aplicativo de mensagens mais popular do Brasil. Algo que serviu para chamar atenção não só dos checadores de fatos e das demais redes sociais, mas também do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Se não iniciarmos uma discussão sobre possíveis melhorias no produto WhatsApp, mudanças que - sem colocar a criptografia em risco - possam tornar o aplicativo mais informativo, corremos o risco de ver em 2022 uma repetição de 2018.

E permita-me aqui lembrar como foi o primeiro semestre daquele ano, o período que antecedeu a campanha eleitoral. No cenário internacional, o mundo investigava a possível interferência dos russos na eleição americana de 2016 e ainda reverberava o impacto do caso Cambridge Analytica na eleição do republicano Donald Trump.

No Brasil, em maio de 2018, os checadores se preparavam para que uma batalha de narrativas tomasse lugar no Facebook (hoje Meta). A rede social tinha acabado de lançar seu programa de verificação de notícias no Brasil (Third Party Fact-Checking Program) e prometia que ela teria um grande impacto no universo eleitoral.

Em junho, no entanto, veio a greve dos caminhoneiros, um evento totalmente organizado via WhatsApp. E a avalanche de notícias falsas naquele momento se estendia para além do movimento em si. Versava também sobre seu impacto na rotina dos brasileiros. Foram inúmeras as mentiras sobre rodovias fechadas e desabastecimento de supermercados. Dali em diante, os checadores nunca mais tiraram os olhos do WhatsApp.

E, de lá para cá, o produto avançou bem pouco no que diz respeito ao combate à desinformação. É verdade que o número de encaminhamentos foi reduzido, que as mensagens virais receberam setas duplas para se diferenciarem das demais e que há uma lupa que permite que o usuário faça buscas sobre um assunto online. Mas, em linhas gerais, a interface do aplicativo mudou muito pouco e os desinformadores sabem disso.

É com certa tranquilidade que aposto que, nos últimos dias, você (assim como eu) recebeu no WhatsApp ao menos uma mentira sobre o título eleitoral. Por conta do fim do prazo dado para a regularização desse documento, grupos pouco democráticos (que insistem em antever uma fraude nas eleições deste ano sem apresentar prova) entraram em ação.

Teve vídeo de WhatsApp insinuando que a Justiça Eleitoral havia cancelado os títulos de eleitores com mais de 70 anos. Sete unidades de fact-checking do país demonstraram que não, que a informação é falsa. Teve mensagem que afirmava que o eleitor sem biometria não poderia votar em outubro. Também falso, segundo oito checadores. E ainda teve ataques ao e-Título, aplicativo lançado e mantido pela Justiça Eleitoral que não é nem atua como "um espião", roubando dados dos eleitores.

E pouco - ou nada - foi feito dentro do próprio WhatsApp para conter essa enxurrada de mentiras. Não fosse pela ação de outras redes sociais, que viram o problema reverberar em seus feeds, a situação poderia ter acabado mal.

Puxado pelo TSE, o Facebook colocou no ar um "megafone" com a mensagem "Prepare-se para a eleição deste ano" e um link sobre como regularizar ou emitir o título eleitoral. O Google também se mexeu e enviou um alerta a toda sua base Android, distribuindo conteúdo semelhante. O Twitter fez uma série de "moments", difundindo as checagens feitas sobre o título eleitoral.

O WhatsApp, por sua vez, ficou inerte.

É óbvio que mudar a interface de um produto não é fácil, mas é hora de imaginar (e testar) como seria, por exemplo, um alerta enviado pelo próprio WhatsApp para todos seus usuários num momento de crise. Ou algo semelhante aos "pushes" feitos pelos aplicativos de meios de comunicação quando os jornalistas têm notícias quentes para difundir. E que tal colocar ao lado das setas duplas que sinalizam conteúdo viral um texto como "Quer saber sobre o título de eleitor? Vá ao site da Justiça Eleitoral".

Imaginem o impacto disso.

Seria ingênuo da nossa parte imaginar que o episódio do título será a última crise desinformativa relacionada às eleições de 2022. É preciso aceitar que muitas outras ainda virão e traçar processos claros de reação. Fora isso, é preciso reconhecer que o WhatsApp continua sendo um canal que merece extrema atenção (mais do que o Telegram). É um espaço para muita desinformação.

Cristina Tardáguila é diretora sênior de programas do ICFJ e fundadora da Lupa