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Cristina Tardáguila

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Manual para manipular eleitor se repete no Brasil. Hora de conhecê-lo

Pessoa votando em urna eletrônica - SOPA Images/LightRocket via Gett
Pessoa votando em urna eletrônica Imagem: SOPA Images/LightRocket via Gett
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Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é jornalista formada pela UFRJ, fundadora e sócia da Agência Lupa. Dirigiu a empresa de novembro 2015 a abril de 2019, quando se licenciou para assumir o cargo de diretora adjunta da International Fact-Checking Network (IFCN), na Flórida, onde atuou até março de 2021.

Colunista do UOL

19/05/2022 04h00

Talvez você não saiba que mais de 50% da população mundial vive hoje em regimes autoritários, sem eleições livres. Talvez não imagine que, no Brasil, 40% da população diz que "a democracia não é a melhor forma de governo" e que quase um quarto da população (22%) já afirma que "toleraria" a dissolução do Congresso Nacional. Mas o que você realmente precisa saber é que, assim como aconteceu com os americanos em 2020 e com os franceses há poucas semanas, há uma enorme chance de você estar sendo manipulado de forma a começar a duvidar da lisura do processo eleitoral. É hora, portanto, de ser mais esperto. Não se cale frente à insanidade. Rebata a desinformação com dados.

Comecemos, portanto, pelos mais óbvios. As urnas eletrônicas são usadas no Brasil desde 1996. Com elas, já foram realizadas 14 eleições municipais e gerais, além de centenas de pleitos suplementares em estados e municípios. Milhares de políticos foram eleitos por votos nelas registrados, e outras centenas de milhares se deram por vencidos, respeitando o resultado das urnas eletrônicas. Não há no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nenhum registro de ocorrência de fraude. Nem sequer de queixa.

Se essas informações não forem suficientes, mostre que as últimas eleições - feitas em vários países - também sofreram com ondas desinformativas semelhantes. O caso mais conhecido é - obviamente - o americano "Stop the Steal", que levou uma horda a invadir o Capitólio em 6 de janeiro de 2020. Mas, há poucas semanas, a vítima dessas teorias da conspiração de cunho eleitoral foi a França.

Os dados da aliança de checadores "Objectif Désinfox", que reuniu 23 meios de comunicação franceses para acompanhar o pleito vencido no último dia 24 por Emmanuel Macron, detectaram ao longo da campanha ao menos quatro grandes ondas desinformativas tentando sabotar a confiança nas eleições.

Em sua imensa maioria, os franceses votam em papel (cédulas que não podem ser rasuradas, rasgadas ou manchadas). O documento, com o nome de um único candidato, é inserido num envelope que vai para dentro da urna). Neste ano, no entanto, 66 municípios franceses apostaram em urnas eletrônicas. O resultado? Nenhum dos dois modelos de votação ficou livre das teorias conspiratórias. Nem papel nem bits eletrônicos parecem suficientemente bons para os que querem interditar o voto.

Houve quem dissesse na França que as urnas eletrônicas estavam previamente programadas para privilegiar Macron. Os checadores desmentiram a informação.

Depois, houve um rebuliço em torno do QR code inserido por primeira vez na "carte électorale" (documento que comprova que o francês se inscreveu para participar no pleito e que está apto a votar). Os desinformadores espalharam que o QR code roubaria os dados pessoais e que isso permitiria a alteração do voto (feito em papel! Como?). Más lá estavam os fact-checkers. E eles mostraram que o QR code apenas remetia o eleitor ao site do Ministério do Interior, página onde era possível confirmar, por exemplo, o local de votação.

As mentiras sobre o voto em papel foram igualmente grotescas. Uma teoria da conspiração, baseada em apenas duas fotos, espalhou pelo Twitter a ideia de que as cédulas com o nome do direitista Éric Zemmour estavam marcadas/danificadas e que, portanto, não seriam aceitas pelos mesários. Quem compara as imagens que deram origem a esse rumor com as dos votos que costumam ser rejeitados nas eleições (sim, a França arquiva esse material) chega a gargalhar alto. Vale a pena clicar nos links anteriores e verificar com seus próprios olhos.

Por fim, a França teve que enfrentar as publicações em redes sociais que falsamente alardeavam que um alto grau de abstenção levaria à anulação das eleições. Essa mentira eu aposto que você já ouviu ou viu por aqui. Haja paciência.

Agora, adivinhe o que está acontecendo na Colômbia, que realiza o primeiro turno de suas presidenciais no próximo dia 29? Claro! Está imersa no debate sobre a lisura de seu processo eleitoral. Lá também há quem não acredite nos entes eleitorais, na contabilização dos votos e avente a possibilidade de fraude.

Assim sendo, fica o convite. Sempre que tiver a oportunidade, enfrente a desinformação sobre as eleições com duas certezas. A primeira é a de que o que se vê no Brasil hoje em dia é o reflexo de um modus operandi mundial. Os ataques ao TSE e às urnas eletrônicas seguem um cardápio que está sendo servido internacionalmente e não têm nenhuma relação com a maneira como se vota.

A segunda certeza - mais importante ainda - é de que, se os que ainda acreditam na democracia (eu e você), não saírem em sua defesa, ela pode mesmo acabar nesse cantinho do planeta.

Cristina Tardáguila é diretora sênior de programas do ICFJ e fundadora da Lupa