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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Para acabar com a pandemia, precisamos falar sobre desigualdade

Dados apontam que você tem 257 mais chances de se internar que ter reação da vacina - Lucas Silva/Governo do Amazonas
Dados apontam que você tem 257 mais chances de se internar que ter reação da vacina Imagem: Lucas Silva/Governo do Amazonas
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

02/12/2021 10h06

Não é preciso ser muito inteligente para reconhecer que vivemos em um mundo absolutamente desigual. Os sinais estão em toda parte e são cada vez mais gritantes. Manifestam-se nas obviedades da realidade periférica e no coração dos centros mais desenvolvidos. Estamos falando de instabilidade econômica, desemprego, pobreza, fome e falta de acesso a serviços básicos que salvaguardem o mínimo da dignidade humana.

Segundo o "Relatório Social Mundial", publicado pela ONU no começo de 2020 a desigualdade é crescente para mais de 70% da população global, incluindo em países ricos e de renda média. De acordo com o estudo, quem ocupa o 1% do topo da pirâmide no quesito renda ficou ainda mais rico nas últimas décadas. Os dados apontam, por exemplo, que a renda média na América do Norte é 16 vezes maior do que na África subsaariana.

Essas notícias vão na mesma linha do "Time do Care", publicado pela Oxfam também em 2020. Segundo o documento, para se ter uma ideia das proporções do problema, basta ter em mente que a riqueza combinada dos 22 homens mais ricos do mundo é superior a de todas as mulheres do continente africano somadas.

Quando pensamos na realidade pandêmica, mais especificamente, temos um cenário ainda mais dramático. De acordo com o "Global Wealth Report" de 2021 elaborado pelo banco Credit Suisse, apesar do coronavírus, o mundo terminou o ano anterior com 56,1 milhões de pessoas somando riqueza superior a US$ 1 milhão, cerca de 10% mais do que as 50,9 milhões verificadas anteriormente.

A informação é corroborada pelo relatório "O Vírus da Desigualdade" da Oxfam, que mostra que, enquanto as 1.000 pessoas mais ricas do mundo recuperaram todas as perdas que tiveram durante a pandemia de covid-19 em apenas nove meses, os mais pobres levarão pelo menos 14 anos para fazê-lo. Estamos falando de um sistema internacional no qual 75% dos trabalhadores do planeta não têm acesso a quaisquer programas de proteção social.

Quando o assunto é cobertura vacinal, finalmente, os dados da OMS sugerem que enquanto países pobres conseguiram vacinar completamente apenas pouco mais de 3% de sua população, nos países ricos quase 60% completou o esquema de imunização. O problema não está, agora, na capacidade de produção, como era o caso em outros momentos, mas no acesso e monopólio de compra. Trata-se de um debate que passa por preços, por logística de transporte e por quebra de patentes, como já discutimos aqui em colunas anteriores.

Enquanto vemos não só a Covid-19 avançar ferozmente em algumas regiões do planeta, também testemunhamos o aumento de outras doenças, como sarampo, por exemplo, já que é preciso dividir os recursos disponíveis para lidar com tantos problemas simultâneos. Paralelamente, apesar das promessas, verificamos que os programas de ajuda internacional e de doação têm sido lentos e muito ineficazes.

Essa é uma questão moral e também pragmática: se queremos virar a página da pandemia, precisamos parar de olhar apenas para o nosso próprio umbigo e reconhecer que o mundo é um só, e que precisamos falar sobre desigualdade. Do contrário, estaremos todos, como humanidade, cada vez mais frustrados, desmotivados, ressentidos e doentes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL