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Jamil Chade

No novo confinamento europeu, bares e comércio fecham e escolas abrem

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Imagem: FILIPE JORDãO/JC IMAGEM
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

29/10/2020 06h48

Diante de uma nova onda de contaminações e de um número sem precedentes de casos da covid-19, a Europa foi obrigada a voltar a colocar em quarentena milhões de pessoas. Mas, desta vez, um princípio norteou as decisões em Paris, Roma, Dublin e Berlim: fechar as escolas apenas como último recurso e depois que todas as medidas já tenham sido adotadas.

Emmanuel Macron e Angela Merkel, por exemplo, anunciaram nesta semana novas medidas de restrições e que irão entrar em vigor a partir de sexta-feira e fim de semana. Bares, restaurantes e o comércio não essencial serão fechados ou funcionarão apenas para entrega. O "home office" é incentivado e, no caso francês, cada deslocamento terá de ser justificado.

Mas a ordem é a de preservar a escola. As universidades, porém, passarão ao modelo virtual de ensino. Depois de meses da eclosão da pandemia, estudos em diferentes partes do mundo confirmaram que, ainda que existam casos de contaminação entre crianças, o número é relativamente baixo.

Assim, a percepção das autoridades é de que o fechamento dos estabelecimentos de ensino em março e abril teve um impacto desproporcional. No mundo, mais de 1,3 bilhão de alunos foram afetados, com consequências para a programação de cursos e programas de ensino.

Ainda hoje, a Unesco estima que mais de 580 mil alunos pelo mundo continuam fora das salas de aula em 31 países.

Num informe publicado nesta quinta-feira, a ONU e o Banco Mundial defenderam que as escolas permaneçam abertas, destacando os danos que a pandemia tem infligido à educação das crianças. "Priorizar a reabertura de escolas é fundamental", disse Robert Jenkins, chefe de educação da UNICEF.

Para milhões dessas crianças, inclusive nas periferias das grandes capitais europeias, a escola é o local de segurança e de alimentação adequada.

Outros pontos pesaram. Mesmo nos países ricos, foi evidenciado que nem todas as famílias tiveram como garantir o ensino virtual aos filhos, diante de uma conexão de internet abaixo do espero ou simplesmente da falta de computadores suficientes em casa.

Fontes no governo suíço, por exemplo, revelaram à coluna que, na elaboração de planos de confinamento, a suspensão das aulas foi colocado no grupo de medidas a serem tomadas apenas no "cenário mais pessimista possível".

Na OMS, a percepção é de que, diante da incerteza sobre o que ocorrerá nas próximas semanas, governos não devem excluir completamente a possibilidade do fechamento de escolas. Mas a orientação aos países é para que, se alguém tiver de ser sacrificado, que não sejam as escolas. Suspender as aulas, portanto, seria uma das medidas de "última instância".

"Sociedades precisam decidir se querem bares abertos ou escolas abertas", disse Mike Ryan, diretor de operações da OMS, numa cobrança clara em defesa do ensino.

Adaptar aulas

Manter os alunos no ensino público ou privado, porém, não significa abandonar medidas de adaptação. Na Alemanha, todos os alunos precisarão usar máscaras e professores terão de se manter a uma distância de 2 metros. Apenas em poucos locais com uma situação crítica é que as escolas foram suspensas.

Na Irlanda, as restrições tampouco afetaram as escolas. Os dados para sustentar essa decisão é de que o número de casos positivos nos estabelecimentos foi de apenas 2% dos testes, contra 7% na média nacional.

"A experiência irlandesa, até agora, reflete a atual posição internacional de que as escolas não são os principais motores da covid-19 na comunidade e que as escolas não são ambientes de alto risco para o Covid", disse a vice-chefe médica Heather Burns.

"A Organização Mundial da Saúde e o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças declararam recentemente sua posição de que o fechamento de amplas escolas deveria ser um último recurso absoluto", explicou.

Na França, os horários da cantina das escolas serão adaptados para que apenas uma parcela do colégio se encontre no local da refeição. Na Suíça, os horários de início das aulas e fim do dia dependem da idade do aluno, justamente para evitar a aglomeração de pais nos portões. Cursos de esporte, competições entre escolas, teatro e outras atividades foram canceladas.

Estudos realizados pela Unicef indicaram ainda que, entre os países que optaram por manter as escolas abertas na primeira onda da pandemia, os resultados foram mais positivos para a saúde mental dos alunos. Mas o apelo é para que governos optem por adotar medidas estritas para também proteger professores e funcionários.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL