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Jamil Chade

Mutações e salto em transmissão levam OMS a convocar reunião de emergência

A OMS alertou que apenas um esforço global coordenado será capaz de eliminar a ameaça do SARS-CoV-2 - Reuters
A OMS alertou que apenas um esforço global coordenado será capaz de eliminar a ameaça do SARS-CoV-2 Imagem: Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

14/01/2021 05h24

A Organização Mundial da Saúde (OMS) convocou para esta quinta-feira (14) uma reunião de seu comitê de emergência diante do salto sem precedentes no número de novos infectados pela covid-19 e do surgimento de diferentes mutações do vírus, com maior capacidade de transmissão.

O comitê se reúne apenas a cada três meses. Mas, numa carta, o diretor-geral Tedros Ghebreyesus, indicou que questões "urgentes" exigiam o novo encontro. A meta será buscar respostas sobre a situação das novas cepas e tentar desenhar novas medidas de combate à pandemia.

Num comunicado, a OMS indicou que a reunião iria "considerar problemas que precisam de uma discussão urgente". Entre eles estão as "recentes variantes e o uso da vacinação e certificados de testes para viagens internacionais".

A reunião ainda ocorre no momento em que a OMS registra um número recorde de casos por semana —5 milhões— e um total que se aproxima a 100 milhões de infectados e 2 milhões de mortes.

Os especialistas ainda promovem o encontro diante da identificação da nova mutação em cerca de 50 países e no momento em que governos europeus se apressam para ampliar medidas de restrição.

Mutações identificadas no Reino Unido e África do Sul estarão entre os temas avaliados pela OMS. Em seu último informe semanal, a OMS também mencionou o caso da variante registrada no Brasil e como ela teria sido identificada no Japão. Tóquio, porém, deixa claro que não existem sinais de que a mutação tenha deixado o vírus mais letal.

Mas, para a OMS, há uma possibilidade de um impacto na capacidade de transmissão. "Em 9 de janeiro, o Japão notificou a OMS sobre uma nova variante do SARS-CoV-2 dentro da linhagem B.1.1.28 detectada em quatro viajantes que chegavam do Brasil", indicou o informe da agência internacional. "Esta variante tem 12 mutações para a proteína, incluindo três mutações em comum com VOC 202012/01 e 501Y.V2, ou seja: K417N/T, E484K e N501Y, que podem impactar a transmissibilidade e a resposta imune."

"Pesquisadores no Brasil relataram adicionalmente o surgimento de uma variante similar também com uma mutação do E484K, que provavelmente evoluiu independentemente da variante detectada entre os viajantes japoneses. A extensão e o significado para a saúde pública dessas novas variantes requerem investigação adicional", alertou a agência.

Restrição de viagens no centro do debate

Hans Kluge, diretor da OMS na Europa, confirmou que as mutações identificadas são "muito preocupantes", mesmo diante da constatação de que as variantes não seriam mais severas e nem que teriam um impacto maior nas crianças. Segundo ele, a questão da proibição de viagens estará na agenda da reunião da entidade.

"Não vai gerar uma segunda pandemia e nem muda a forma de lutar contra o vírus. Mas estamos muito preocupados. A transmissão é muito maior. Países que já estão com problemas terão ainda mais", afirmou. "Haverá um maior impacto em sistemas de saúde já sob pressão."

Para ele, essas variantes revelam que sociedades terão de "fazer mais" em termos de medidas sociais e distanciamento. "Não existem evidências que vacinas não funcionam nessas variantes. Mas é um recado cruel que o vírus está conosco", disse.

Reino Unido poderá proibir voos do Brasil para conter nova mutação

A OMS ainda irá tentar estabelecer critérios e recomendações para determinar proibições de voos e exigências de certificados de vacinação ou de testes para quem quiser viajar.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, poderá anunciar ainda nesta quinta-feira uma proibição da chegada de voos do Brasil, num esforço de conter a nova variante do vírus da covid-19.

Numa reunião nesta quarta-feira (13), o chefe de governo em Londres indicou que novas restrições de viagem poderiam ser impostas. Seu país vive a mais intensa onda de contaminações desde o início da pandemia e, apesar de mais um lockdown, os dados revelam um número recorde de mortos nas últimas 24 horas.

A coluna confirmou com diplomatas brasileiros que, de fato, o governo acompanha com atenção o que ocorre em Londres e que está ciente da possibilidade de uma interrupção de voos.

Sob forte pressão diante de uma das piores crises em décadas, Johnson foi questionado pela deputada Yvette Cooper, da oposição, numa reunião no Parlamento. Ela insistiu em saber por qual motivo o governo mantinha a autorização de viagens ao Brasil, mesmo depois de uma variante do vírus ter sido identificada no país em brasileiros que desembarcaram no Japão.

"Você foi avisado sobre a variante do Brasil há três dias. Ainda não sabemos se essa variante poderia prejudicar o programa de vacinação. Por que você não está tomando medidas imediatas, com base na precaução?", perguntou Cooper.

O primeiro-ministro justificou que medidas já estão sendo tomadas. "Nós estamos: estamos colocando medidas extras para garantir que as pessoas vindas do Brasil sejam controladas. E de fato impedindo as pessoas vindas do Brasil", indicou, sem dar detalhes.

O comitê de especialistas do governo que lida com a pandemia, conhecido como Nervtag, se debruçou no tema da variante brasileira em sua última reunião, no início da semana.

Uma proibição poderia ocorrer apenas depois de uma decisão do comitê ministerial, com reunião marcada para esta quinta-feira.

Cooper insistiu se Londres estava considerando banir os voos. Mas Johnson apenas repetiu que o governo estava "tomando medidas".

"Estamos tomando medidas para deter a variante brasileira, pois tomamos medidas para impedir a importação da variante sul-africana para este país, como de fato os franceses tomaram medidas para impedir a importação da variante Kent para a França. Isso é o que os países fazem", completou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL