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Atitudes de Bolsonaro aprofundarão isolamento do país, alertam estrangeiros

Militares prestam continência a Bolsonaro - Presidência da República
Militares prestam continência a Bolsonaro Imagem: Presidência da República
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

10/08/2021 04h19

Resumo da notícia

  • Questão eleitoral brasileira já desembarcou nos radares da Comissão Interamericana de Direitos Humanos e na ONU
  • Governos europeus veem com "preocupação" ato militar de Bolsonaro
  • Acenos ao ex-presidente Donald Trump também foram considerados como "constrangedores"

Nos organismos internacionais, capitais europeias, nos EUA e mesmo em vizinhos do Brasil, a atitude do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de questionar a eleição e recorrer de forma constante aos militares tem sido recebida com "preocupação".

Se o assunto é considerado como um tema doméstico do país, a instabilidade de uma eventual ruptura democrática no país já passou a entrar no radar de governos estrangeiros e a tendência é de um maior isolamento do presidente no palco internacional, caso mantenha essas atitudes.

Nesta terça-feira, o presidente indicou que irá realizar um desfile militar em Brasília, no mesmo dia em que o Congresso vota uma proposta de modificação nas urnas, para 2022.

Embaixadores estrangeiros ouvidos pela coluna admitiram que a notícia mobilizou as diplomacias estrangeiras, que informaram suas capitais sobre a "crescente tensão" no país. Os postos estrangeiros em Brasília indicaram que o Brasil é hoje assunto internacional por conta do "tsunami" que uma eventual ruptura democrática pode representar para a região latino-americana. "Se o Brasil cai, a América Latina sai dos trilhos", admitiu um negociador de assuntos de desarmamento, na ONU.

Na semana passada, enviados do governo de Joe Biden deixaram claro ao presidente brasileiro que não existem problemas, na avaliação deles, no sistema eleitoral brasileiro. O recado foi recebido no Itamaraty como um alerta: não haverá um apoio se a opção for a do confronto.

O tema também desembarcou na Comissão Interamericana de Direitos Humanos e na ONU, que passaram a monitorar a situação brasileira.

Em 2018, a própria OEA enviou uma delegação internacional para monitorar as eleições no Brasil. Em 2020, uma vez mais, houve um acordo com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luis Roberto Barroso, para que as votações municipais contassem com o acompanhamento de observadores internacionais.

Com 14 especialistas de nove nacionalidades, o grupo fez uma análise substantiva sobre aspectos técnicos da votação. Um capítulo inteiro foi destinado à tecnologia eleitoral. Em seu informe final, a OEA constatou que "o calendário eleitoral prevê vários mecanismos para testar e auditar o sistema de votação eletrônica". "Entre eles está o Teste de Segurança Pública, para o qual o TSE convida especialistas externos em tecnologia a testar as barreiras de proteção do sistema", constatou a OEA.

O desafio, segundo a missão da OEA, seria a falta de publicidade sobre as atividades realizadas durante a fase de a auditoria do dia da eleição. Outro problema destacado pela OEA é a "crescente circulação de notícias falsas, em particular as que visavam desacreditar e minar a credibilidade do sistema eleitoral brasileiro durante os períodos eleitorais".

Isolamento

Na Europa, deputados apontam que as imagens de tanques num desfile em Brasília vão tornar uma ratificação do acordo entre Mercosul e UE uma realidade ainda mais distante. "Quem é que vai conseguir vender a ideia de que estamos fechando uma aliança com um governo que respeita os valores democráticos?", questiona um dos parlamentares, na condição de anonimato.

Mesmo dentro do Itamaraty, a constatação é de que o caminho adotado pelo presidente brasileiro pode afastá-lo ainda mais da comunidade internacional.

Nos últimos dias, o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Souza, foi criticado ao retornar ao seu país por ter prestado uma visita a Bolsonaro, durante sua passagem pelo Brasil. A comitiva do português se esforçou em minimizar o encontro, indicando que não se tratava de uma visita de estado e insistindo que ele também havia estado com ex-presidentes brasileiros.

"A viagem do presidente de Portugal mostrou como é delicado, hoje, um encontro de um líder europeu com Bolsonaro", destacou uma fonte diplomática europeia.

Outro fator que chamou a atenção de diplomatas estrangeiros foi a manutenção de ligações entre a família Bolsonaro e o ex-presidente americano Donald Trump. Nesta semana, o deputado Eduardo Bolsonaro publicou fotos de sua família com o ex-mandatário da Casa Branca, tecendo amplos elogios ao americano que, hoje, é alvo de críticas duras por parte de grande parte da comunidade internacional e do próprio governo Biden.

Membros de governos estrangeiros qualificaram de "constrangedora" as imagens do deputado com o polêmico ex-presidente americano.