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Carta aos líderes da COP28: o fracasso de vocês será imperdoável

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Prezados senhores e senhoras,

Constrangedor. Foi esse o sentimento que tive ao acompanhar, na sexta-feira, a abertura da Conferência da ONU sobre o Clima, a COP28. Ao fundo, uma trilha sonora cafona e, acima de tudo, desconectada dos desafios que o planeta enfrenta.

No palco, o chefe da 12ª maior empresa de petróleo do mundo presidindo os trabalhos para se encontrar um caminho para, no fundo, descarbonizar o planeta.

Quem desenhou o roteiro parece não ter tido limites. Talvez fosse mais honesto ter o dono de uma empresa de cigarros liderando a OMS. Ou um vendedor de armas como responsável por negociar a paz.

Horas antes, a ONU havia publicado seu relatório anual revelando o "colapso climático" no planeta — 2023 terminará com as mais altas temperaturas registradas em 125 mil anos. Temos um recorde de concentração de emissões e, em muitas regiões, o futuro distópico já é uma realidade.

Enquanto isso, ano após anos, o que vemos são discursos vazios quando vocês se reúnem. Escrevo esta carta para que fique registrado algo que vocês já sabem.

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Se não houver uma mudança, a história não os poupará. Nossos netos não vão perguntar o que vocês disseram em 2023. Vão condena-los por não ter agido.

Escrevo também para exigir que o evento em Dubai não repita às dezenas de cúpulas, com conclusões tímidas, avanços insuficientes e negociadores satisfeitos por terem defendido seus respectivos interesses nacionais — e egoístas.

Vivemos um desafio existencial, e mesmo que o "crash planetário" ainda possa ser evitado, ele fica ainda mais difícil diante de um mundo dividido e onde forças da extrema direita e negacionistas ganham espaço.

Há dez anos, no relatório do IPCC, um dos cenários desenhava o que seria o mundo se a cooperação global fracassasse e se o nacionalismo — sim, aquele de nossos patriotas de verde e amarelo pelas portas dos quartéis — fosse uma realidade.

Os resultados seriam devastadores, com a explosão da pobreza, aumento da população global, elevação ainda maior das temperaturas, eventos extremos ainda mais constantes e a submersão de cidades costeiras.

Hoje, vivemos esse cenário e vocês estão sendo confrontados com maior teste de liderança de nossa geração. Seu fracasso não lhes custará a próxima eleição. A cobrança será imposta de forma inegociável nos ombros de seus netos.

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Não adianta achar que basta dizer que "todos estamos nessa juntos". Isso é eximir de responsabilidade aqueles que, por décadas, foram os principais responsáveis pelas emissões. Também é desconsiderar a injustiça que é fazer com que agora todos pagem pelos danos.

Os dados são claros: a camada de 1% mais rica do planeta emite mais gases de efeito estufa que 5 bilhões de pessoas, 66% dos habitantes do planeta. Em algumas décadas, essa elite será responsável por 1,2 milhão de mortes.

No fundo, precisamos de uma nova forma de pensar para lidar com esse desafio. Os parâmetros pelos quais nos guiamos são insuficientes. O que significa interesse nacional quando é o planeta que está nos colocando numa encruzilhada? O que são lucros imediatos se não sabemos onde viver em algumas décadas?

A emergência climática é também uma emergência de significados, de paradigmas, de como olhamos para nossa presença no planeta.

Edgar Morin defende que deixemos de ver o homem como um ser sobrenatural. "A divinização do homem no mundo deve cessar", escreveu. Para ele, chegou a hora de "abandonar o projeto formulado por Bacon e Descartes, e depois por Marx, de conquista e posse da natureza".

"Esse projeto tornou-se ridículo a partir do momento em que percebemos que o imenso cosmos, em sua infinitude, está além de nosso alcance", disse. "Ele se tornou louco a partir do momento em que percebemos que isso tudo leva à ruína da biosfera e, consequentemente, ao suicídio da humanidade".

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Ousar uma nova resposta, neste momento, não é revolucionário. É uma questão de sobrevivência.

E não existe outra opção. O fracasso de vocês será imperdoável.

Saudações democráticas,

Jamil Chade

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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