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Jamil Chade

Sem citar 'guerra', Brics não condena Rússia e China critica 'hegemonias'

Putin e Xi Jinping - Alexei Druzhinin/AFP
Putin e Xi Jinping Imagem: Alexei Druzhinin/AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

19/05/2022 12h49

A declaração final da reunião de chanceleres dos Brics, realizada nesta quinta-feira, não condena os atos de Vladimir Putin na Ucrânia, evita até mesmo a palavra "guerra" e insiste apenas sobre a necessidade de que uma saída pacífica seja estabelecida.

Mas, num discurso na abertura do encontro, o presidente da China, Xi Jinping, fez um apelo para que o bloco de economias emergentes rejeite a "mentalidade de Guerra Fria" e confrontação. O tom foi interpretado como um recado contra a escala de tensão que, segundo Pequim, estaria sendo liderada pelas potências Ocidentais.

O grupo formado por Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul passou a estar no foco da atenção internacional, enquanto europeus e americanos tentam identificar se o bloco agirá de forma conjunta para defender os interesses do Kremlin.

Numa alusão à OTAN, Xi alertou contra tentativas de governos estrangeiros de "buscar a própria segurança às custas dos outros". Para ele, "isso só criará novas tensões e riscos, como a história e a realidade provaram".

Nos últimos meses, russos e chineses aprofundaram sua cooperação e passaram a agir de forma conjunta para questionar a postura de EUA e Europa diante da guerra na Ucrânia. Para o chinês, eles precisam acomodar os interesses e "respeitar a soberania".

A China ainda usou o evento para sugerir que governos de economias emergentes "fortaleçam a confiança mútua política e a cooperação de segurança, e manter uma estreita comunicação e coordenação sobre as principais questões internacionais e regionais".

De acordo com um comunicado do governo chinês, Xi ainda pediu que o bloco "também deveriam se opor ao hegemonismo e à política de poder, rejeitar a mentalidade da Guerra Fria e o confronto em bloco". Na diplomacia chinesa, os ataques contra um comportamento de "hegemonia" são maneiras de Pequim criticar as ações americanas pelo mundo.

Palavra "guerra" é omitida

Numa declaração conjunta, os países dos Brics mencionaram a Ucrânia e insistiram em rejeitar qualquer uso de armas nucleares. Mas o texto não cita qualquer condenação à invasão russa e sequer usa a palavra "guerra" para descrever os acontecimentos. Em Moscou, a imprensa local é proibida de usar o termo para descrever o que ocorre na Ucrânia.

O texto final, porém, apenas diz que "os ministros recordaram suas posições nacionais sobre a situação na Ucrânia, conforme expressas nos fóruns apropriados, nomeadamente o Conselho de Segurança e a Assembleia Geral da ONU". O Brasil foi representado pelo chanceler Carlos França.

Os governos ainda indicaram que os ministros "apoiaram as negociações entre a Rússia e a Ucrânia". "Discutiram também suas preocupações sobre a situação humanitária dentro e ao redor da Ucrânia e expressaram seu apoio aos esforços do Secretário-Geral da ONU, das Agências da ONU e do CICV para fornecer ajuda humanitária de acordo com a resolução 46/182 da Assembleia Geral da ONU", completaram os ministros.

Em nota, o Itamaraty esclareceu que o "Brasil defendeu a solução pacífica e negociada do conflito, clamou pela busca urgente de solução para a crise humanitária e ressaltou a necessidade de respeito ao Direito Internacional e aos princípios da Carta da ONU".

Ainda segundo o governo, os chanceleres "expressaram preocupação com a recuperação econômica e a estabilidade internacional". Eles "enfatizaram os efeitos adversos da interrupção de cadeias produtivas e de graves ameaças à segurança alimentar e energética e aos objetivos de desenvolvimento sustentável".

Brics manda recado ao governo Biden: G20 deve ficar "intacto"

Houve ainda um recado claro para governos, como o americano, que manobraram para tentar suspender a Rússia do G20. Na declaração, os ministros dos Brics "enfatizaram que a governança econômica global é de importância crucial para os países garantirem o desenvolvimento sustentável, e recordaram ainda seu apoio à ampliação e ao fortalecimento da participação de mercados emergentes e países em desenvolvimento na tomada de decisões econômicas internacionais e nos processos de definição de normas".

Segundo o comunicado, os governos "reiteraram seu apoio ao papel de liderança do G20 na governança econômica global e destacaram que o G20 deve permanecer intacto e responder aos atuais desafios globais".

Nas últimas semanas, o presidente Joe Biden tentou repetir no G20 sua estratégia de promover um isolamento diplomático completo da Rússia. Brasil e outros emergentes se opuseram.

O bloco ainda pede que os principais países desenvolvidos adotem "políticas econômicas responsáveis, ao mesmo tempo em que gerenciam as repercussões dessas políticas, para evitar impactos severos nos países em desenvolvimento".