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Bolsonaro mira a imprensa e acerta a sociedade

ADRIANO MACHADO
Imagem: ADRIANO MACHADO
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

06/01/2020 12h29

Jair Bolsonaro voltou a exercitar nesta segunda-feira seu esporte predileto: tiro à mídia. Comparou jornalistas a animais como o mico-leão dourado. "Vocês são uma espécie em extinção. Eu acho que vou botar os jornalistas do Brasil vinculados ao Ibama. Vocês são uma raça em extinção", declarou.

Pesquisa Datafolha divulgada no mês passado revelou que a grossa maioria dos brasileiros (80%) desconfia de Bolsonaro — 43% nunca confiam naquilo que o presidente da República declara, 37% confiam só de vez em quando. Apenas uma minoria (19%) confia 100% no que escorre dos lábios do inquilino do Planalto.

Quer dizer: Bolsonaro acha que é uma coisa. Mas sua reputação indica que já virou outra coisa. Considera-se um espécime da "nova política". Alardeia um versículo do Evangelho de João: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". É visto, porém, como uma espécie de fake presidente.

Irritado com notícia veiculada pelo UOL, o capitão disparou: "Quem não lê jornal não está informado. E quem lê está desinformado". Bobagem. A imprensa não ficou pior. O eleitorado é que vai descobrindo que a hipotética avis rara do Planalto é o que sempre foi: um político com 30 anos de mandatos e vícios.

Ao atacar a mídia, Jair Bolsonaro revela-se não apenas um político convencional —grosso modo falando. Demonstra ter uma pontaria precária para um capitão. Aponta para os repórteres e acerta pelas costas o pedaço da sociedade que desconfia do presidente. Faria um favor a si mesmo se trocasse a crítica pela autocrítica.

Josias de Souza